VERBETE

VERBETE

Apresenta-se um novo formato de texto com a palavra – hoje fala-se de “lema” –, exibida de maneira segmentada com a sua conceituação, que costuma incluir também uma descriçao do que representa. Este exercício da escrita busca plasmar o que o olhar que toma distância vê. Ainda assim, não é sobre qualquer palavra – qualquer coisa – que discorre o texto que vai apresentar-se no contexto de um dicionário. Na construção do objeto, há palavras que seriam mais propensas à dicionarização, porque representam, com mais propriedades, a coisas, o que facilitaria a inclusão numa lista lexicográfica. Tudo isso reflete o trabalho de quem toma para si este esforço de listar, o dicionarista, ou lexicógrafo. Por trás de um consulta a um dicionário, numa rotina escolar ou de estudo, está latente um esforço de sistematização que é arte da história intelectual da humanidade. Estamos representados nós, humanos, aí, nessa consulta banalizada (e por que não haveria de sê-lo?), realizada individualmente, figurados no nosso esforço e necessidade históricos de listar palavras que representem a realidade que nos circunda. Esforço intelectual da abstração e conceituação, que desembocam na descrição e finalizam num texto, formalizador dese processo. Ë uma das facetas de nossa universalidade, mas que encontra na Modernidade um momento particular, porque é aí que o texto consolida-se como verbete. A Ilustração, fruto do afã enciclopedista, propicia o ambiente intelectual para que o texto que busca descrever e conceituar as coisas da realidade, ou seja, o verbete, tome a forma que toma, inscrito numa seqüência textual “coletiva”, com uma proposta de leitura extensiva, ainda transitando num texto- volume, como é o caso das enciclopédias, que superam os tempos (DARNTON, 1986, 319).
Essa colagem intertextual solicita, por outro lado, um novo leitor. A leitura-consulta à enciclopédia é prática cultural que materializa os esforços de compreender o mundo. A estratégia da compartimentação acaba por dar dinamismo a esta leitura realizada por bocados, de maneira não- linear, numa soma que permite ao ator da leitura diferentes possibilidades de síntese. Perspectiva que também se apresenta para a (re)formulaçao do coletivo enciclopédico.
A textualização realizada instala uma situação discursiva – a todo momento re-instalada, nas consultas cotidianas que agora realizamos às inumeráveis enciclopédias, de potencial de reprodução potenciados com o suporte virtual –, que representa um momento de inflexão na história da leitura, para além do projeto enciclopedista em si mesmo, mas também graças a ele mesmo. Sim, a palavra agora é transferida num novo ritmo, mas, não nos enganemos, o leitor não recebe tal proposta de maneira passiva. Ele também apresenta-se como um leitor moderno, respondendo às demandas de um novo tipo de texto – o verbete – com sua vida própria, porém formulado de maneira a se apresentar também em conjunto com outros texto de natureza similar. Este entrelaçamento traduz-se numa espacialidade própria, que representa a novidade do pensamento da sua época. Sua vigência, até nossos dias, superando os tempos modernos, é um resquício da modernidade que impregna o nosso tempo. Por que não manter o que vem dando resultado e adequando-se com plasticidade às propostas de textos virtuais?
A enciclopédia propôs, provou e adequou um novo tipo de texto – o verbete – e foi ela mesma um coletivo de textos-verbetes, que propõe uma nova dinâmica de leitura. Podemos até questionar o caráter revolucionário do movimento, mas não esse impulso no devir histórico da leitura.
Ë verdade que um livro nunca chega incólume às mãos do leitor, nunca lhe chega sem marcas, conforme postula Bourdieu (in CHARTIER, 1996, 248); as enciclopédias chegaram às mãos dos usuários a partir de uma “classificação explícita”, que historicamente solicitou ao leitor um novo comportamento, havendo, inclusive, questões relacionadas ao acesso, edição e comercialização, enfim, à política dos livros, que interferem numa classificação que gera comportamentos por parte dos leitores, como bem estuda Robert Darnton. Por seu lado, o texto que sustenta o enciclopedismo é o verbete; na soma de verbetes é que está a unidade enciclopédica e este texto também interfere na dinâmica de classificação da enciclopédia, nos percursos possíveis que desembocam – ou não – na leitura. Esta perspectiva talvez não esteja muito visível graças à magnitude do projeto enciclopédico como um todo. Mas os indícios das práticas de leitura (na história da leitura podemos somente falar disso: indícios) devem ser pensados também a partir da sua fabricação , como textos que, na sua proposta de estrutura, são os alicerces do movimento, da sua filosofia.
Aceder a um livro e manuseá-lo, bem como a uma enciclopédia, é uma experiência histórica, experiência no sentido benjaminiano; e a leitura da enciclopédia, na sua unidade, tendo como ponto de partida a consulta ao verbete, também é uma experiência histórica. É parte do projeto enciclopedista, mas também é e foi uma prática concreta e traduz-se numa produção de sentido (GOULEMOT, in CHARTIER, 1996, 107). Nela, o leitor moderno e seus sucessores inventaram e reinventam novas possibilidades de leitura, sem necessidade de desfazer-se de percursos propostos anteriormente.. Não houve, desde o projeto enciclopedista, uma proposta única para o percurso da leitura: a consulta sem roteiros é o que impregna a disposição dos textos-verbetes, num leque de possibilidades inesgotáveis, ainda mais nas combinações de consulta entre verbetes. Uma busca lança a outra busca, as questões do conhecimento retroalimentam-se no corpo da enciclopédia e na sua relação com outros textos ou com a vida mesma. O hipertexto, da era do ciberespaço, finca origens quase arcaicas.
Não se trata aqui de buscar o elogio fácil ao enciclopedismo; em sociedades ainda com altos índices de analfabetismo, como na Europa do século XVIII, tal publicação não deixou de ser um projeto, até certo ponto, restrito. Além disso, os que liam, não necessariamente consultavam enciclopédias. Mas os indícios nos apontam as possibilidades de ler de tudo um pouco, ler também o não-canonizado, ler em desobediência em meio a conjunturas marcadas, limitações, leis de mercado, proibições, para além de uma política de estímulo à leitura, como vemos em nossos tempos. Encontramos, desta forma, o germe de um novo modelo de leitura nos verbetes e no seu entrelaçado, muito antes dos tempos da Internet, numa predisposição intertextual moderna, também na instalação do novo.
É graças a uma nova história levada a cabo ao longo do século XX que encontramos a possibilidade, na etapa inaugural do enciclopedismo, de ver, a partir de uma perspectiva ampliada socialmente, a participação de atores que explicaram as coisas nos verbetes da Enciclopédia, sem que fossem da Alta Ilustração; como acontece hoje, dicionários virtuais, cuja autoria dilui-se no anonimato, com maior ou menor controle dos especialistas, são elaborados a partir de uma ampliação horizontal das possibilidades de participação. Lá como aqui, atores que descreveram, mas também modularam o Verbo, adaptando a escrita à unidade do verbete (HAEMSCH et alii, 1982, 423), revisam constantemente, no calor das operações lexicográficas, a questão hierárquica na busca do saber. No Oitocentos, ou no meio da balbúrdia virtual de nossas atuais webs, são autores da(s) enciclopédias(s) que, por convicção, salário ou necessidade de vontade de participar de uma rede social ( e onde estará a fronteira entre estas possibilidades?) enunciam descrevendo, explicando, recortando e colando a informação, para que ela seja partícula do conhecimento de uma matéria. Tudo isso num texto que, por mais comprido que possa ser pensado por quem o elabora, é de natureza escrita: uma unidade mínima de significação com um conteúdo que explica uma coisa. Porque sabemos que numa enciclopédia, mais ainda num dicionário, “tamanho é documento”. A performance de elaboração do verbete requer que a análise se traduza numa estrutura com unidades fraseológicas que conferem ao verbete um aspecto imediatamente reconhecível para os leitores contemporâneos e posteriores ao movimento enciclopédico. Esse reconhecimento, que se dá na leitura do texto mais ou menos estandartizado, mostra o empenho posto na adequação do verbete ao meio de comunicação proposto, resultante de um processo de desenvolvimento de uma tecnologia lingüística.
Projeto com nuances pedagógicas, se pensamos da perspectiva do leitor que pode, a partir da consulta, motivar-se a lançar novos olhares sobre a realidade, sempre mais complexa do que a versão compactada no verbete. O verbete transita entre esta possibilidade – que sempre implica uma ampliação do conhecimento – e o risco da consulta encerrada no círculo vicioso da explicação taxativa, sem possibilidades de frutificar em debates e questionamentos. É a famosa sentença “está no dicionário”, que cala as perguntas. Assim, ir-se-ia desvanecendo-se o enciclopedismo na sua legitimação, que passa a jogar contra a construção do conhecimento e a produção do sentido, dos sentidos.
{bibliografia}
 
CHARTIER, Roger (org.). Práticas da Leitura. São Paulo: Estação Liberdade, 1996.
DARNTON, Robert. O grande massacre de gatos e outros episódios da história cultural francesa. Rio de Janeiro: Graal, 1986.  
HAENSCH, G. et alii. La lexicografía. De la Lingüística Teórica a la Lexicografía Práctica. Madrid: Gredos, 1982.
 
Latuf Isaias Mucci e Geruza Queiroz Coutinho

VERBETE

Apresenta-se um novo formato de texto com a palavra – hoje fala-se de “lema” –, exibida de maneira segmentada com a sua conceituação, que costuma incluir também uma descriçao do que representa. Este exercício da escrita busca plasmar o que o olhar que toma distância vê. Ainda assim, não é sobre qualquer palavra – qualquer coisa – que discorre o texto que vai apresentar-se no contexto de um dicionário. Na construção do objeto, há palavras que seriam mais propensas à dicionarização, porque representam, com mais propriedades, a coisas, o que facilitaria a inclusão numa lista lexicográfica. Tudo isso reflete o trabalho de quem toma para si este esforço de listar, o dicionarista, ou lexicógrafo. Por trás de um consulta a um dicionário, numa rotina escolar ou de estudo, está latente um esforço de sistematização que é arte da história intelectual da humanidade. Estamos representados nós, humanos, aí, nessa consulta banalizada (e por que não haveria de sê-lo?), realizada individualmente, figurados no nosso esforço e necessidade históricos de listar palavras que representem a realidade que nos circunda. Esforço intelectual da abstração e conceituação, que desembocam na descrição e finalizam num texto, formalizador dese processo. Ë uma das facetas de nossa universalidade, mas que encontra na Modernidade um momento particular, porque é aí que o texto consolida-se como verbete. A Ilustração, fruto do afã enciclopedista, propicia o ambiente intelectual para que o texto que busca descrever e conceituar as coisas da realidade, ou seja, o verbete, tome a forma que toma, inscrito numa seqüência textual “coletiva”, com uma proposta de leitura extensiva, ainda transitando num texto- volume, como é o caso das enciclopédias, que superam os tempos (DARNTON, 1986, 319).
Essa colagem intertextual solicita, por outro lado, um novo leitor. A leitura-consulta à enciclopédia é prática cultural que materializa os esforços de compreender o mundo. A estratégia da compartimentação acaba por dar dinamismo a esta leitura realizada por bocados, de maneira não- linear, numa soma que permite ao ator da leitura diferentes possibilidades de síntese. Perspectiva que também se apresenta para a (re)formulaçao do coletivo enciclopédico.
A textualização realizada instala uma situação discursiva – a todo momento re-instalada, nas consultas cotidianas que agora realizamos às inumeráveis enciclopédias, de potencial de reprodução potenciados com o suporte virtual –, que representa um momento de inflexão na história da leitura, para além do projeto enciclopedista em si mesmo, mas também graças a ele mesmo. Sim, a palavra agora é transferida num novo ritmo, mas, não nos enganemos, o leitor não recebe tal proposta de maneira passiva. Ele também apresenta-se como um leitor moderno, respondendo às demandas de um novo tipo de texto – o verbete – com sua vida própria, porém formulado de maneira a se apresentar também em conjunto com outros texto de natureza similar. Este entrelaçamento traduz-se numa espacialidade própria, que representa a novidade do pensamento da sua época. Sua vigência, até nossos dias, superando os tempos modernos, é um resquício da modernidade que impregna o nosso tempo. Por que não manter o que vem dando resultado e adequando-se com plasticidade às propostas de textos virtuais?
A enciclopédia propôs, provou e adequou um novo tipo de texto – o verbete – e foi ela mesma um coletivo de textos-verbetes, que propõe uma nova dinâmica de leitura. Podemos até questionar o caráter revolucionário do movimento, mas não esse impulso no devir histórico da leitura.
Ë verdade que um livro nunca chega incólume às mãos do leitor, nunca lhe chega sem marcas, conforme postula Bourdieu (in CHARTIER, 1996, 248); as enciclopédias chegaram às mãos dos usuários a partir de uma “classificação explícita”, que historicamente solicitou ao leitor um novo comportamento, havendo, inclusive, questões relacionadas ao acesso, edição e comercialização, enfim, à política dos livros, que interferem numa classificação que gera comportamentos por parte dos leitores, como bem estuda Robert Darnton. Por seu lado, o texto que sustenta o enciclopedismo é o verbete; na soma de verbetes é que está a unidade enciclopédica e este texto também interfere na dinâmica de classificação da enciclopédia, nos percursos possíveis que desembocam – ou não – na leitura. Esta perspectiva talvez não esteja muito visível graças à magnitude do projeto enciclopédico como um todo. Mas os indícios das práticas de leitura (na história da leitura podemos somente falar disso: indícios) devem ser pensados também a partir da sua fabricação , como textos que, na sua proposta de estrutura, são os alicerces do movimento, da sua filosofia.
Aceder a um livro e manuseá-lo, bem como a uma enciclopédia, é uma experiência histórica, experiência no sentido benjaminiano; e a leitura da enciclopédia, na sua unidade, tendo como ponto de partida a consulta ao verbete, também é uma experiência histórica. É parte do projeto enciclopedista, mas também é e foi uma prática concreta e traduz-se numa produção de sentido (GOULEMOT, in CHARTIER, 1996, 107). Nela, o leitor moderno e seus sucessores inventaram e reinventam novas possibilidades de leitura, sem necessidade de desfazer-se de percursos propostos anteriormente.. Não houve, desde o projeto enciclopedista, uma proposta única para o percurso da leitura: a consulta sem roteiros é o que impregna a disposição dos textos-verbetes, num leque de possibilidades inesgotáveis, ainda mais nas combinações de consulta entre verbetes. Uma busca lança a outra busca, as questões do conhecimento retroalimentam-se no corpo da enciclopédia e na sua relação com outros textos ou com a vida mesma. O hipertexto, da era do ciberespaço, finca origens quase arcaicas.
Não se trata aqui de buscar o elogio fácil ao enciclopedismo; em sociedades ainda com altos índices de analfabetismo, como na Europa do século XVIII, tal publicação não deixou de ser um projeto, até certo ponto, restrito. Além disso, os que liam, não necessariamente consultavam enciclopédias. Mas os indícios nos apontam as possibilidades de ler de tudo um pouco, ler também o não-canonizado, ler em desobediência em meio a conjunturas marcadas, limitações, leis de mercado, proibições, para além de uma política de estímulo à leitura, como vemos em nossos tempos. Encontramos, desta forma, o germe de um novo modelo de leitura nos verbetes e no seu entrelaçado, muito antes dos tempos da Internet, numa predisposição intertextual moderna, também na instalação do novo.
É graças a uma nova história levada a cabo ao longo do século XX que encontramos a possibilidade, na etapa inaugural do enciclopedismo, de ver, a partir de uma perspectiva ampliada socialmente, a participação de atores que explicaram as coisas nos verbetes da Enciclopédia, sem que fossem da Alta Ilustração; como acontece hoje, dicionários virtuais, cuja autoria dilui-se no anonimato, com maior ou menor controle dos especialistas, são elaborados a partir de uma ampliação horizontal das possibilidades de participação. Lá como aqui, atores que descreveram, mas também modularam o Verbo, adaptando a escrita à unidade do verbete (HAEMSCH et alii, 1982, 423), revisam constantemente, no calor das operações lexicográficas, a questão hierárquica na busca do saber. No Oitocentos, ou no meio da balbúrdia virtual de nossas atuais webs, são autores da(s) enciclopédias(s) que, por convicção, salário ou necessidade de vontade de participar de uma rede social ( e onde estará a fronteira entre estas possibilidades?) enunciam descrevendo, explicando, recortando e colando a informação, para que ela seja partícula do conhecimento de uma matéria. Tudo isso num texto que, por mais comprido que possa ser pensado por quem o elabora, é de natureza escrita: uma unidade mínima de significação com um conteúdo que explica uma coisa. Porque sabemos que numa enciclopédia, mais ainda num dicionário, “tamanho é documento”. A performance de elaboração do verbete requer que a análise se traduza numa estrutura com unidades fraseológicas que conferem ao verbete um aspecto imediatamente reconhecível para os leitores contemporâneos e posteriores ao movimento enciclopédico. Esse reconhecimento, que se dá na leitura do texto mais ou menos estandartizado, mostra o empenho posto na adequação do verbete ao meio de comunicação proposto, resultante de um processo de desenvolvimento de uma tecnologia lingüística.
Projeto com nuances pedagógicas, se pensamos da perspectiva do leitor que pode, a partir da consulta, motivar-se a lançar novos olhares sobre a realidade, sempre mais complexa do que a versão compactada no verbete. O verbete transita entre esta possibilidade – que sempre implica uma ampliação do conhecimento – e o risco da consulta encerrada no círculo vicioso da explicação taxativa, sem possibilidades de frutificar em debates e questionamentos. É a famosa sentença “está no dicionário”, que cala as perguntas. Assim, ir-se-ia desvanecendo-se o enciclopedismo na sua legitimação, que passa a jogar contra a construção do conhecimento e a produção do sentido, dos sentidos.
{bibliografia}
 
CHARTIER, Roger (org.). Práticas da Leitura. São Paulo: Estação Liberdade, 1996.
DARNTON, Robert. O grande massacre de gatos e outros episódios da história cultural francesa. Rio de Janeiro: Graal, 1986.  
HAENSCH, G. et alii. La lexicografía. De la Lingüística Teórica a la Lexicografía Práctica. Madrid: Gredos, 1982.
 
Latuf Isaias Mucci e Geruza Queiroz Coutinho

2009-12-23 08:37:13
2009-12-23 08:37:13

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