HAIKU

HAIKU

Breve composição poética, de origem japonesa (também chamada hokku, haikai ou haicai) que se funda nas relações profundas entre homem e natureza; e obecede à estrutura formal de 17 sílabas ou fonemas, distribuídos em 3 versos. O fundamento filosófico do haiku é po preceito budista de que tudo neste mundo é transitório e que o importante é sabermo-nos feitos de mudanças contínuas como a natureza e as estações (primavera, verão, outono e inverno). Nas origens do haiku, está a forma arcaica tanka, surgida no Japão por volta do séc. VIII, posteriormente transformada em renga (canto interligado), espécie de diálogo entre duas pessoas: uma encarregada do hokku (estrofe inicial) e outra do wakiku (estrofe lateral) e cujo mote era sempre um kigo (termo que expressa um momento ou situação, transitórios, em determinada estação do ano). Com o tempo, o renga passa a ser uma forma colectiva, que deu origem a dois novos géneros poéticos: o kusari renga (renga comprido) elaborado segundo uma infinidade de regras rígidas e complexas, e o haikai renga (haikai encadeado) com regras mais simples. Ambos coexistem através dos séculos (assim como tanka e o renga) com certas alterações conforme a época, mantendo-se, porém, inalteradas as regras relativas ao hokku, forma que acaba por se tornar independente, como é até hoje (1997). Foi no séc. XVII, com Matsuo Bashô (1644-1694), grande mestre de haikai renga, que a forma hokku começou a ganhar presença autónoma e profundidade existencial. Mas só em fins do séc. XIX, Masaoka Shiki (1867-1902), considerado um dos quatros grandes mestres do haiku, faz a aglutinação dos termos “haikai” e “hokku”, criando o neologismo “haiku”, para designar o hokku (poema desprendido do haikai renga e que adquire sentido completo), cuja forma fixou-se definitivamente como “terceto” composto de 17 sílabas e cujo eixo temático é um kigo. Octavio Paz, em estudo sobre a obra de Matsuo Bashô, destaca a funda ligação do haiku com o zen-budismo e sua busca do satori: a “iluminação” súbita dos “contrários” de que é feita a vida (coexistência contínua de vida e morte) e certeza de que o homem não é escravo do tempo e da morte, mas que dentro de si leva outro tempo. E a visão instantânea desse “outro tempo” chama-se poesia. Exemplo: “Ah! Mosca de inverno/questão de dia ou de hora/seu último instante?” (Bashô). Aí está fixada a isão da mosca na janela, condenada à morte pelo inverno gelado: a percepção sensorial que desencadeia o sentimento e, no caso, uma espécie de solidariedade que emana das raízes budistas e animistas da cultura japonesa. Ou neste outro haiku: “É primavera: / a colina sem nome / entre a névoa.” (Bashô). Regista a ideia de vida nascendo à qual se sobrepõe a da viagem que leva à morte, “uma viagem das nuvens desta existência até às nuvens da outra (…). Em uma forma voluntariamente anti-heróica, a poesia de Bashô nos chama para uma aventura dever as importante: a de nos perdermos no quotidiano para encontrarmos o maravilhoso.” (O. Paz. 1976). Sintetizando as regras gerais a que a composição de haikus deve obedecer, temos: 1. Estrutura métrica: terceto em 17 sílabas. 2. Eixo temático: um kigo (termo ligado a uma estação ou a fenómeno sazonal remetendo a uma determinada situação vivenciada pelo poeta). 3. Sentido completo em sua brevidade. 4. Rimas e títulos são desaconselháveis, pois “rimas interferem na fluência natural dos versos e prejudicam a leveza do poema e o título restringe o universo poético do haicai, pois direcciona a emoção ou o sentimento de quem o lê.” (Teruko Oda.1993). Concluindo: a poesia do haiku deve ser “íntima e subjectiva, tendo como fonte um momento particularmente poético vivido pelo autor (descoberta do Kigo), não deve ser, portanto, poesia artificial e/ou imaginária.” Ou ainda: deve ser um “flash do aqui e agora, – o poema como fruto do “acontecendo agora”, representado pelo Kigo e vivenciado pelo poeta; e não, em consequência de evocação de realidade distante. (…). Lembranças do passado podem estar no presente do poema, associadas ao Kigo, mas o poema não deve ter como assunto principal as lembraças que fazem parte do passado do poeta.” (T. Oda. 1993). Esse género poético foi introduzido no Brasil por Afrânio Peixoto (1876-1947), em 1919 (depois de longa viagem pela Ásia e Europa), com a denominação francesa “haikai” aportuguesada para haicai (conservada até hoje pelos haicaistas brasileiros). Em sua divulgação pelo Ocidente, o haiku conservou a estrutura formal de origem, mas perdeu sua ligação com a tradição cultural japonesa, representada pelo Kigo; e assim transformou-se em forma poética condensada, gerada por uma sensação provocada por uma funda percepção sensorial. Embora não esteja ligado necessariamente ao Kigo (a um fenómeno sazonal), o haicai ocidental, via de regra, parte de uma percepção muto concreta (visual, táctil, auditiva, térmica …) que funciona como disparadora de sensações (associações, sentimentos, dados da memória, analogias …). Como por exemplo: “Um mar azul / pintou de branco / o vôo das gaivotas.” do haicaista português, Albano Martins (in Flores do Salgueiro, 1996). Em 1987, foi fundado em S. Paulo, o Grémio Haicai Ipê, pelo mestre haicaista Masusa Goga e um grupo de brasileiros, empenhados em pesquisas sobre o Kigo para resgatar o haiku japonês. Os resultados vêm sendo publicados em livros de teoria (kikologia) e em antologias de haicais.{bibliografia} Breve composição poética, de origem japonesa (também chamada hokku, haikai ou haicai) que se funda nas relações profundas entre homem e natureza; e obecede à estrutura formal de 17 sílabas ou fonemas, distribuídos em 3 versos. O fundamento filosófico do haiku é po preceito budista de que tudo neste mundo é transitório e que o importante é sabermo-nos feitos de mudanças contínuas como a natureza e as estações (primavera, verão, outono e inverno). Nas origens do haiku, está a forma arcaica tanka, surgida no Japão por volta do séc. VIII, posteriormente transformada em renga (canto interligado), espécie de diálogo entre duas pessoas: uma encarregada do hokku (estrofe inicial) e outra do wakiku (estrofe lateral) e cujo mote era sempre um kigo (termo que expressa um momento ou situação, transitórios, em determinada estação do ano). Com o tempo, o renga passa a ser uma forma colectiva, que deu origem a dois novos géneros poéticos: o kusari renga (renga comprido) elaborado segundo uma infinidade de regras rígidas e complexas, e o haikai renga (haikai encadeado) com regras mais simples. Ambos coexistem através dos séculos (assim como tanka e o renga) com certas alterações conforme a época, mantendo-se, porém, inalteradas as regras relativas ao hokku, forma que acaba por se tornar independente, como é até hoje (1997). Foi no séc. XVII, com Matsuo Bashô (1644-1694), grande mestre de haikai renga, que a forma hokku começou a ganhar presença autónoma e profundidade existencial. Mas só em fins do séc. XIX, Masaoka Shiki (1867-1902), considerado um dos quatros grandes mestres do haiku, faz a aglutinação dos termos “haikai” e “hokku”, criando o neologismo “haiku”, para designar o hokku (poema desprendido do haikai renga e que adquire sentido completo), cuja forma fixou-se definitivamente como “terceto” composto de 17 sílabas e cujo eixo temático é um kigo. Octavio Paz, em estudo sobre a obra de Matsuo Bashô, destaca a funda ligação do haiku com o zen-budismo e sua busca do satori: a “iluminação” súbita dos “contrários” de que é feita a vida (coexistência contínua de vida e morte) e certeza de que o homem não é escravo do tempo e da morte, mas que dentro de si leva outro tempo. E a visão instantânea desse “outro tempo” chama-se poesia. Exemplo: “Ah! Mosca de inverno/questão de dia ou de hora/seu último instante?” (Bashô). Aí está fixada a isão da mosca na janela, condenada à morte pelo inverno gelado: a percepção sensorial que desencadeia o sentimento e, no caso, uma espécie de solidariedade que emana das raízes budistas e animistas da cultura japonesa. Ou neste outro haiku: “É primavera: / a colina sem nome / entre a névoa.” (Bashô). Regista a ideia de vida nascendo à qual se sobrepõe a da viagem que leva à morte, “uma viagem das nuvens desta existência até às nuvens da outra (…). Em uma forma voluntariamente anti-heróica, a poesia de Bashô nos chama para uma aventura dever as importante: a de nos perdermos no quotidiano para encontrarmos o maravilhoso.” (O. Paz. 1976). Sintetizando as regras gerais a que a composição de haikus deve obedecer, temos: 1. Estrutura métrica: terceto em 17 sílabas. 2. Eixo temático: um kigo (termo ligado a uma estação ou a fenómeno sazonal remetendo a uma determinada situação vivenciada pelo poeta). 3. Sentido completo em sua brevidade. 4. Rimas e títulos são desaconselháveis, pois “rimas interferem na fluência natural dos versos e prejudicam a leveza do poema e o título restringe o universo poético do haicai, pois direcciona a emoção ou o sentimento de quem o lê.” (Teruko Oda.1993). Concluindo: a poesia do haiku deve ser “íntima e subjectiva, tendo como fonte um momento particularmente poético vivido pelo autor (descoberta do Kigo), não deve ser, portanto, poesia artificial e/ou imaginária.” Ou ainda: deve ser um “flash do aqui e agora, – o poema como fruto do “acontecendo agora”, representado pelo Kigo e vivenciado pelo poeta; e não, em consequência de evocação de realidade distante. (…). Lembranças do passado podem estar no presente do poema, associadas ao Kigo, mas o poema não deve ter como assunto principal as lembraças que fazem parte do passado do poeta.” (T. Oda. 1993). Esse género poético foi introduzido no Brasil por Afrânio Peixoto (1876-1947), em 1919 (depois de longa viagem pela Ásia e Europa), com a denominação francesa “haikai” aportuguesada para haicai (conservada até hoje pelos haicaistas brasileiros). Em sua divulgação pelo Ocidente, o haiku conservou a estrutura formal de origem, mas perdeu sua ligação com a tradição cultural japonesa, representada pelo Kigo; e assim transformou-se em forma poética condensada, gerada por uma sensação provocada por uma funda percepção sensorial. Embora não esteja ligado necessariamente ao Kigo (a um fenómeno sazonal), o haicai ocidental, via de regra, parte de uma percepção muto concreta (visual, táctil, auditiva, térmica …) que funciona como disparadora de sensações (associações, sentimentos, dados da memória, analogias …). Como por exemplo: “Um mar azul / pintou de branco / o vôo das gaivotas.” do haicaista português, Albano Martins (in Flores do Salgueiro, 1996). Em 1987, foi fundado em S. Paulo, o Grémio Haicai Ipê, pelo mestre haicaista Masusa Goga e um grupo de brasileiros, empenhados em pesquisas sobre o Kigo para resgatar o haiku japonês. Os resultados vêm sendo publicados em livros de teoria (kikologia) e em antologias de haicais. BIBLIOGRAFIA: Débora Novaes de Castro, Hai-Kais ao sol (Antologia), S. Paulo, 1996; H. Masuda Goga, O Haicai no Brasil, S. Paulo, 1988; id., As Quatros Estações (Antologia), S. Paulo, 1991; Goga & Oda, Natureza – Berço do Haicai (Kikologia e Antologia) S. Paulo, 1996; Teruko Oda, Nos Caminhos do Haicai, S. Paulo, 1993; Octavio Paz, “A Tradução do haiku” e “A Poesia de Mastuo Bashô), in Signos em Rotação, S. Paulo, 1976; R. H. Blyth, A History of Haiku, 1963; Manuel Lourenço Forte e Manuel Pinto Ribeiro, O Ocidente e a Poética Esquiva do Haiku, 1995.

HAIKU

Breve composição poética, de origem japonesa (também chamada hokku, haikai ou haicai) que se funda nas relações profundas entre homem e natureza; e obecede à estrutura formal de 17 sílabas ou fonemas, distribuídos em 3 versos. O fundamento filosófico do haiku é po preceito budista de que tudo neste mundo é transitório e que o importante é sabermo-nos feitos de mudanças contínuas como a natureza e as estações (primavera, verão, outono e inverno). Nas origens do haiku, está a forma arcaica tanka, surgida no Japão por volta do séc. VIII, posteriormente transformada em renga (canto interligado), espécie de diálogo entre duas pessoas: uma encarregada do hokku (estrofe inicial) e outra do wakiku (estrofe lateral) e cujo mote era sempre um kigo (termo que expressa um momento ou situação, transitórios, em determinada estação do ano). Com o tempo, o renga passa a ser uma forma colectiva, que deu origem a dois novos géneros poéticos: o kusari renga (renga comprido) elaborado segundo uma infinidade de regras rígidas e complexas, e o haikai renga (haikai encadeado) com regras mais simples. Ambos coexistem através dos séculos (assim como tanka e o renga) com certas alterações conforme a época, mantendo-se, porém, inalteradas as regras relativas ao hokku, forma que acaba por se tornar independente, como é até hoje (1997). Foi no séc. XVII, com Matsuo Bashô (1644-1694), grande mestre de haikai renga, que a forma hokku começou a ganhar presença autónoma e profundidade existencial. Mas só em fins do séc. XIX, Masaoka Shiki (1867-1902), considerado um dos quatros grandes mestres do haiku, faz a aglutinação dos termos “haikai” e “hokku”, criando o neologismo “haiku”, para designar o hokku (poema desprendido do haikai renga e que adquire sentido completo), cuja forma fixou-se definitivamente como “terceto” composto de 17 sílabas e cujo eixo temático é um kigo. Octavio Paz, em estudo sobre a obra de Matsuo Bashô, destaca a funda ligação do haiku com o zen-budismo e sua busca do satori: a “iluminação” súbita dos “contrários” de que é feita a vida (coexistência contínua de vida e morte) e certeza de que o homem não é escravo do tempo e da morte, mas que dentro de si leva outro tempo. E a visão instantânea desse “outro tempo” chama-se poesia. Exemplo: “Ah! Mosca de inverno/questão de dia ou de hora/seu último instante?” (Bashô). Aí está fixada a isão da mosca na janela, condenada à morte pelo inverno gelado: a percepção sensorial que desencadeia o sentimento e, no caso, uma espécie de solidariedade que emana das raízes budistas e animistas da cultura japonesa. Ou neste outro haiku: “É primavera: / a colina sem nome / entre a névoa.” (Bashô). Regista a ideia de vida nascendo à qual se sobrepõe a da viagem que leva à morte, “uma viagem das nuvens desta existência até às nuvens da outra (…). Em uma forma voluntariamente anti-heróica, a poesia de Bashô nos chama para uma aventura dever as importante: a de nos perdermos no quotidiano para encontrarmos o maravilhoso.” (O. Paz. 1976). Sintetizando as regras gerais a que a composição de haikus deve obedecer, temos: 1. Estrutura métrica: terceto em 17 sílabas. 2. Eixo temático: um kigo (termo ligado a uma estação ou a fenómeno sazonal remetendo a uma determinada situação vivenciada pelo poeta). 3. Sentido completo em sua brevidade. 4. Rimas e títulos são desaconselháveis, pois “rimas interferem na fluência natural dos versos e prejudicam a leveza do poema e o título restringe o universo poético do haicai, pois direcciona a emoção ou o sentimento de quem o lê.” (Teruko Oda.1993). Concluindo: a poesia do haiku deve ser “íntima e subjectiva, tendo como fonte um momento particularmente poético vivido pelo autor (descoberta do Kigo), não deve ser, portanto, poesia artificial e/ou imaginária.” Ou ainda: deve ser um “flash do aqui e agora, – o poema como fruto do “acontecendo agora”, representado pelo Kigo e vivenciado pelo poeta; e não, em consequência de evocação de realidade distante. (…). Lembranças do passado podem estar no presente do poema, associadas ao Kigo, mas o poema não deve ter como assunto principal as lembraças que fazem parte do passado do poeta.” (T. Oda. 1993). Esse género poético foi introduzido no Brasil por Afrânio Peixoto (1876-1947), em 1919 (depois de longa viagem pela Ásia e Europa), com a denominação francesa “haikai” aportuguesada para haicai (conservada até hoje pelos haicaistas brasileiros). Em sua divulgação pelo Ocidente, o haiku conservou a estrutura formal de origem, mas perdeu sua ligação com a tradição cultural japonesa, representada pelo Kigo; e assim transformou-se em forma poética condensada, gerada por uma sensação provocada por uma funda percepção sensorial. Embora não esteja ligado necessariamente ao Kigo (a um fenómeno sazonal), o haicai ocidental, via de regra, parte de uma percepção muto concreta (visual, táctil, auditiva, térmica …) que funciona como disparadora de sensações (associações, sentimentos, dados da memória, analogias …). Como por exemplo: “Um mar azul / pintou de branco / o vôo das gaivotas.” do haicaista português, Albano Martins (in Flores do Salgueiro, 1996). Em 1987, foi fundado em S. Paulo, o Grémio Haicai Ipê, pelo mestre haicaista Masusa Goga e um grupo de brasileiros, empenhados em pesquisas sobre o Kigo para resgatar o haiku japonês. Os resultados vêm sendo publicados em livros de teoria (kikologia) e em antologias de haicais.{bibliografia} Breve composição poética, de origem japonesa (também chamada hokku, haikai ou haicai) que se funda nas relações profundas entre homem e natureza; e obecede à estrutura formal de 17 sílabas ou fonemas, distribuídos em 3 versos. O fundamento filosófico do haiku é po preceito budista de que tudo neste mundo é transitório e que o importante é sabermo-nos feitos de mudanças contínuas como a natureza e as estações (primavera, verão, outono e inverno). Nas origens do haiku, está a forma arcaica tanka, surgida no Japão por volta do séc. VIII, posteriormente transformada em renga (canto interligado), espécie de diálogo entre duas pessoas: uma encarregada do hokku (estrofe inicial) e outra do wakiku (estrofe lateral) e cujo mote era sempre um kigo (termo que expressa um momento ou situação, transitórios, em determinada estação do ano). Com o tempo, o renga passa a ser uma forma colectiva, que deu origem a dois novos géneros poéticos: o kusari renga (renga comprido) elaborado segundo uma infinidade de regras rígidas e complexas, e o haikai renga (haikai encadeado) com regras mais simples. Ambos coexistem através dos séculos (assim como tanka e o renga) com certas alterações conforme a época, mantendo-se, porém, inalteradas as regras relativas ao hokku, forma que acaba por se tornar independente, como é até hoje (1997). Foi no séc. XVII, com Matsuo Bashô (1644-1694), grande mestre de haikai renga, que a forma hokku começou a ganhar presença autónoma e profundidade existencial. Mas só em fins do séc. XIX, Masaoka Shiki (1867-1902), considerado um dos quatros grandes mestres do haiku, faz a aglutinação dos termos “haikai” e “hokku”, criando o neologismo “haiku”, para designar o hokku (poema desprendido do haikai renga e que adquire sentido completo), cuja forma fixou-se definitivamente como “terceto” composto de 17 sílabas e cujo eixo temático é um kigo. Octavio Paz, em estudo sobre a obra de Matsuo Bashô, destaca a funda ligação do haiku com o zen-budismo e sua busca do satori: a “iluminação” súbita dos “contrários” de que é feita a vida (coexistência contínua de vida e morte) e certeza de que o homem não é escravo do tempo e da morte, mas que dentro de si leva outro tempo. E a visão instantânea desse “outro tempo” chama-se poesia. Exemplo: “Ah! Mosca de inverno/questão de dia ou de hora/seu último instante?” (Bashô). Aí está fixada a isão da mosca na janela, condenada à morte pelo inverno gelado: a percepção sensorial que desencadeia o sentimento e, no caso, uma espécie de solidariedade que emana das raízes budistas e animistas da cultura japonesa. Ou neste outro haiku: “É primavera: / a colina sem nome / entre a névoa.” (Bashô). Regista a ideia de vida nascendo à qual se sobrepõe a da viagem que leva à morte, “uma viagem das nuvens desta existência até às nuvens da outra (…). Em uma forma voluntariamente anti-heróica, a poesia de Bashô nos chama para uma aventura dever as importante: a de nos perdermos no quotidiano para encontrarmos o maravilhoso.” (O. Paz. 1976). Sintetizando as regras gerais a que a composição de haikus deve obedecer, temos: 1. Estrutura métrica: terceto em 17 sílabas. 2. Eixo temático: um kigo (termo ligado a uma estação ou a fenómeno sazonal remetendo a uma determinada situação vivenciada pelo poeta). 3. Sentido completo em sua brevidade. 4. Rimas e títulos são desaconselháveis, pois “rimas interferem na fluência natural dos versos e prejudicam a leveza do poema e o título restringe o universo poético do haicai, pois direcciona a emoção ou o sentimento de quem o lê.” (Teruko Oda.1993). Concluindo: a poesia do haiku deve ser “íntima e subjectiva, tendo como fonte um momento particularmente poético vivido pelo autor (descoberta do Kigo), não deve ser, portanto, poesia artificial e/ou imaginária.” Ou ainda: deve ser um “flash do aqui e agora, – o poema como fruto do “acontecendo agora”, representado pelo Kigo e vivenciado pelo poeta; e não, em consequência de evocação de realidade distante. (…). Lembranças do passado podem estar no presente do poema, associadas ao Kigo, mas o poema não deve ter como assunto principal as lembraças que fazem parte do passado do poeta.” (T. Oda. 1993). Esse género poético foi introduzido no Brasil por Afrânio Peixoto (1876-1947), em 1919 (depois de longa viagem pela Ásia e Europa), com a denominação francesa “haikai” aportuguesada para haicai (conservada até hoje pelos haicaistas brasileiros). Em sua divulgação pelo Ocidente, o haiku conservou a estrutura formal de origem, mas perdeu sua ligação com a tradição cultural japonesa, representada pelo Kigo; e assim transformou-se em forma poética condensada, gerada por uma sensação provocada por uma funda percepção sensorial. Embora não esteja ligado necessariamente ao Kigo (a um fenómeno sazonal), o haicai ocidental, via de regra, parte de uma percepção muto concreta (visual, táctil, auditiva, térmica …) que funciona como disparadora de sensações (associações, sentimentos, dados da memória, analogias …). Como por exemplo: “Um mar azul / pintou de branco / o vôo das gaivotas.” do haicaista português, Albano Martins (in Flores do Salgueiro, 1996). Em 1987, foi fundado em S. Paulo, o Grémio Haicai Ipê, pelo mestre haicaista Masusa Goga e um grupo de brasileiros, empenhados em pesquisas sobre o Kigo para resgatar o haiku japonês. Os resultados vêm sendo publicados em livros de teoria (kikologia) e em antologias de haicais. BIBLIOGRAFIA: Débora Novaes de Castro, Hai-Kais ao sol (Antologia), S. Paulo, 1996; H. Masuda Goga, O Haicai no Brasil, S. Paulo, 1988; id., As Quatros Estações (Antologia), S. Paulo, 1991; Goga & Oda, Natureza – Berço do Haicai (Kikologia e Antologia) S. Paulo, 1996; Teruko Oda, Nos Caminhos do Haicai, S. Paulo, 1993; Octavio Paz, “A Tradução do haiku” e “A Poesia de Mastuo Bashô), in Signos em Rotação, S. Paulo, 1976; R. H. Blyth, A History of Haiku, 1963; Manuel Lourenço Forte e Manuel Pinto Ribeiro, O Ocidente e a Poética Esquiva do Haiku, 1995.

2009-12-26 19:13:50
2009-12-26 19:13:50

Send Message to listing owner

HAIKU


Deixe um comentário