GÉNERO

GÉNERO

Representação simbólica, culturalmente relativa, da masculinidade e da feminilidade. Na língua inglesa distinguem-se os termos gender e genre (género literário). Inúmeros estudos antropológicos têm demonstrado que esta categorização binária, em inúmeras culturas, não é tão simples quanto poderia parecer, sendo que os discursos terão, portanto, que ser tão múltiplos quantos os modelos de relação de géneros existentes. Se é verdade que a distinção entre as categorias (biológicas) Homem e Mulher é universal, e faz parte daquilo a que Stephanie Garrett chama “biogrammar” (Gender, Routledge, Londres, 1992, p. 5), também é verdade que as formas como estes seres humanos interagem simbolicamente, entre si, bem como a forma como os seus corpos são distinguidos e o papel que cada um tem na reprodução da espécie e os seus atributos culturais, variam, inclusive de comunidade para comunidade, podendo ser, no caso da civilização ocidental, materializados nas cores azul e cor-de-rosa. Assim sendo, a construção social quer da masculinidade quer da feminilidade, tal como do sexo, varia de acordo com os mais variados factores, sendo a compreensão do conceito “género” influenciado cultural e até emotivamente, no que diz respeito à interacção e reprodução social. Se o termo “sexo” remete, sobretudo, para as características anatómicas, biológicas e físicas do ser humano, o termo “género” remete para a articulação e elaboração simbólicas e culturalmente específicas destas mesmas diferenças e categorias, nomeadamente no âmbito da sexualidade ou práticas sexuais, que acarretam consigo expectativas sociais. O conceito de gender generalizou-se no início dos anos 80 no âmbito dos estudos antropológicos, sendo igualmente utilizado nos Estudos Linguísticos [Victoria L. Bergvall, Janet M. Bing e Alice F. Fred (Eds.), passim Rethinking Language and Gender Research: Theory and Practice, Routledge, Londres, 1996; Victoria Fromkin e Robert Rodman, Introdução à Linguagem, Livraria Almedina, Coimbra, 1993, pp. 293-296], Literários e Culturais para estudar, não só mas também, a construção e a relação de (des)igualdade das personagens, e as diversas vozes presentes/ausentes no texto (polifonia). Transversais a este tema encontramos temas e tópicos como as relações de poder, a igualdade/submissão; a divisão sexual do trabalho; a reprodução, a socialização; graus de parentesco; rituais e crenças; emotividade; sexualidade e práticas sexuais, bem como todos os hábitos, comportamentos e atributos que cada cultura atribui ao homem e à mulher inseridos em diferentes microcosmos/variantes como a faixa etária, grupo socio-cultural e etnia/raça. Muitos destes temas foram abordados por autores que hoje fazem parte dos manuais da teoria do género, tais como Michel Foucault (The History of Sexuality, 1980); Sigmund Feud (Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, s/d); C. G. Jung (O Eu e o Inconsciente, 1978); Jacques Lacan (Écrits, 1966; The Four Fundamental Concepts of Psycho-analysis, 1978) , George Bataille (L’ Erotisme, 1957), Julia Kristeva (La Révolution du langage poétique, 1974) entre muitos outros. Conforme afirma Donna J. Harraway:“Gender is always a relationship, not a performed category of beings or a possession that one can have […] differentiated by nation, generation, class, lineage, color, and much else. […] Gender and race have never existed separately […] To be unmanly is to be uncivil […]: These metaphors have mattered enormously in the constitution of what may count as knowledge.” (Feminism and Technoscience, 1997, pp. 28 e 30). O género, enquanto constructo simbólico ou metáfora de diferentes tipos de (inter)acção socio-cultural, poderá revelar especificidades da representação de diferentes povos ou personagens, imagens estas que se apresentam diante do olhar quer de autores quer de leitores de qualquer obra literária ou monografia etnográfica. Estas mesmas imagens reflectem a forma como a estrutura mental e cultural dos autores e leitores filtra toda essa panóplia de informações que é necessário sintetizar para uma melhor compreensão e apreensão quer do conteúdo quer da forma do texto. Qualquer estudo em torno da leitura do género representado num determinado texto deverá ter subjacente o conhecimento da utensilagem mental e da consciência possível desses mesmos agentes do processo criativo literário, uma vez que um texto medieval apresenta, em termos culturais, as suas especificidades. R. W. Connel afirma, ao abordar a questão da modernidade da teoria do género: “sex and gender in the writings of medieval and reformation intellectuals were […] items in a debate about the moral relationships among men, women and God. Such a framework was not necessarily a constricting one. It could recognize the complexities of passion and treat them with subtlety. Witness the theme of frustrated love from the romance of Tristam and Isolde, Dante´s story of Paolo and Francesca, to Shakespeare’s Romeo and Juliet. Yet the well-spring of these stories was much more often a dilemma of conflicting obligations than a curiosity about the motive. Similarly the discussion of sex by theologians and philosophers was intended to lay down what people ought to do, rather than consider why they did something else.” (Gender and Power: Society, the Person and Sexual Politics, Polity Press, Cambridge, 1993, pp. 24-25). De acordo com a Crítica Feminista (ginocrítica), as condições socio-culturais subjacentes à produção destes textos, ou seja, o contexto (interaccional) em que os mesmos foram produzidos, é de extrema importância para se entenderem essas mesmas fontes, uma vez que o olhar de quem descreve é influenciado pela sua própriapersonalidade, classe social e interesses individuais e políticos. Sherry B. Ortner e Harriet Whitehead afirmam que o género acarreta consigo “sexual meanings”, uma vez que o sexo poderá ser encarado como símbolo ou sistema de símbolos investidos de significados culturais variáveis. Os mesmos autores abordam ainda as diversas interpretações (genética, cultural, social) que o tema tem suscitado: “gender systems are themselves prestige structures” [Sherry Ortner B. e Harriet Whitehead (eds.), Sexual Meanings: The Cultural Construction of Gender and Sexuality, Cambridge University Press, Cambridge, 1992, p. ix]. Desde os anos setenta, mas sobretudo desde os anos oitenta, a teoria do género (gender theory) tem vindo a conquistar cada vez mais território no âmbito quer dos Estudos Literários quer dos Estudos Culturais. Tendo surgido paralelamente às vozes feministas – que se insurgiam contra o “falocentrismo” literário das sociedades patriarcais, reclamando “a room of [their] own” (Virginia Woolf, A Room of One’s Own, 1977, p.6) – bem como aos Men e Gay/Lesbian Studies, os Gender Studies apresentam-se, por vezes, como eufemismo ou sinónimo destes mesmos âmbitos de estudos nos curricula académicos. Como observa N. C. Mathieu, “Toutes les sociétés élaborent une grammaire sexuelle (du «fémminin» et du «masculin», sont imposés culturellement au mâle et à la femelle) mais cette grammaire – idéele et factuelle – outrepasse parfois les «évidences» biologiques. D´où l´utilité des notions de «sexe social» ou de «genre» […] pour analyser les formes et les mécanismes de la différenciation sociale des sexes.”(«Sexes (différenciation des)», in Pierre Bronte e Michel Izard (eds.), Dictionaire de l’ Ethnologie et de l´Anthropologie, Presses Universitaires de France, Paris,1992, p. 660). Dessa descoberta e interacção surgem intervivências transversais, bem como “significados e símbolos culturais que operam nos discursos e práticas da reprodução das categorias de género […]” (Miguel Vale de Almeida, Senhores de Si. Uma Interpretação Antropológica da Masculinidade, Fim de Século Edições Lda, Lisboa,1995, p. 59). Nos estudos (pós-)coloniais, um dos conceitos e temas mais associados ao estudo do género, sobretudo no que diz respeito ao género do Outro, é a etnia/raça associada a práticas, costumes e crenças culturais, e ao estatuto socio-económico do ser humano que se encontra e se tenta converter e civilizar (colonizar) de acordo com as regras e interesses dos mais poderosos. O colono encara, nem que inconscientemente, as comunidades indígenas através de assimetrias como a etnia, classe e género, estando esta forma de olhar/confrontar presente ao longo de quase todo o corpus da Literatura de Viagens europeia, cujo estudo, também em relação ao género, se poderá apoiar largamente em conceitos e metodologias da Antropologia (Louis Montrose, «The Work of Gender in the Discourse of Discovery», in Representations, n. 33 – Winter, 1991, pp. 1-41). O corpo/fisionomia, bem como a expressão corporal do ser humano, e tudo o que a ele as diferentes culturas associam, transparece parte da vivência e consciência humana desse mesmo ser, nomeadamente a vivência simbólica, moldando o mundo da Cultura ao separar, comparar e descrever os dois géneros. Miguel Vale de Almeida, tal como Pierre Bourdieu em Le Sens pratique (1980), define o conceito antropológico de “incorporação” (embodiment) como “o processo inconsciente […] de aprendizagem pela imitação de posturas corporais, gestos, reacções psicossomáticas, que têm um significado nas relações sociais, estabelecendo hierarquias entre as quais as dos géneros, e que constitui ainda uma das formas mais resistentes de memória social.”(op. cit., p. 69). A Bíblia Sagrada espelha igualmente comportamentos humanos em relação ao corpo, que poderão ser interpretadas à luz da teoria do género: “[…] Tanto o homem como a mulher andavam nus, sem sentirem nenhuma vergonha por isso. (Bíblia Sagrada, Génesis, 2: 25). Embora num estado inicial, ainda sem pecado, o comportamento do casal funciona como contra-exemplo da situação que se pretende perpetuar, ou seja, a ocultação do corpo erótico, sobretudo, dos genitalia. A moral enquanto teoria, neste caso judaico-cristã, encontra-se, portanto, implícita no discurso que pretende modelar práticas socialmente aceites (performance social), aqui sem distinção de género, pois as próprias actividades sociais são entendidas como extensões do corpo humano. Daí a existência da divisão sexual do trabalho tão debatida nas discussões feministas em torno de personagens estereotipadas em termos dos papéis (sociais) que se encontram intimamente relacionados com o género, e cujos microcosmos são descritos através de marcadores simbólicos, objectos e rituais específicos. Esta questão prende-se igualmente com a representação do real no mundo da ficção, pelo que estruturas como o agrupamento sexual de actividades deverão ser estudadas também em função da sua simbologia, demonstrando que a materialização simbolico-cultural quer da masculinidade quer da feminilidade não é hegemónica, mas sim heterogénea. Como afirma Monique Wittig: “As an ontological concept that deals with the nature of Being, along with a whole nebula of other primitive concepts belonging to the same line of thought, gender seems to belong primarily to philosophy.” («The mark of gender», in Nancy K. Miller (ed.), The Poetics of Gender, Columbia University Press, Nova Iorque, 1986, p. 63). Em relação quer ao texto dramático quer à representação teatral, o corpo assume uma importância extrema, uma vez que são representados (Cf. Aristóteles, A Poética, 1447 a) gestos, expressões e sentimentos que o leitor, através das didascálias, e o espectador têm já codificadas diante de si (Cf. V. Griffits, Using Gender to Get at Drama, col. «Studies in Sexual Politics Series», n. 9, University of Manchester Press, 1986). É através de performances rituais e artísticas que as diferentes culturas se exprimem, materializando a sua auto-consciência, bem como o género enquanto representação cultural. Como observa R. W. Connel: “the relationship between the body and social practice is […] a crucial issue for the theory of gender […] (p. 64)”, “the body is involved in every kind of social practice” (p. 77), “[being] itself an object of practice” (p. 78: Gender & Power: Society, the Person and Sexual Politics, Polity Press, Cambridge, 1993). O género apresenta também uma política textual/sexual, um silêncio e metáforas próprios explorados pela crítica feminista (marxista) e psicanalítica, demonstrando que a construção e o discurso social da sexualidade têm um papel determinante na produção e recepção literárias, bem como na História da Literatura. Embora as publicações em torno do (discurso do) género abundem, a maioria delas abordam questões que têm ocupado, sobretudo, a crítica e a literatura feministas. The Poetics of Gender [Nancy K. Miller (ed.), Columbia University Press, Nova Iorque, 1986], Literature and Gender [Lizbeth Goodman (ed.), Routledge, Londres, 1996] e Gender and Literature [Iqbal Kaur (ed.), B. R. Publishing Corporation, Dehli, 1992] são exemplo desse facto, uma vez que os seus textos abordam questões semelhantes ao debruçarem-se sobre o género do autor/narrador, obras do cânone considerado androcêntrico e sobre as vozes femininas que têm vindo a conquistar cada vez mais terreno ao elaborar e reclamar um cânone/tradição femininos. Inúmeros tópicos têm vindo a ser analisados através do prisma do género: as condições sociais de produção/publicação literária; a utilização dos pronomes pessoais e a tentativa de os tornar neutros (Monique Wittig, op. cit., pp. 67-68: “the gendering of language”); a pornografia/transgressão; a História da escrita e crítica femininas; as relações entre género (gender) e (sub)género literário [genre: (auto)biografia, narrativa fílmica, literatura infantil, artes plásticas, texto lírico, narrativo e dramático]; os estereótipos sexuais, a construção de personagens e as relações entre estas; as relações, papéis e estatutos sociais e a socialização com base no género (“gender-based opression)”, a raça e classe ou grupo social (Cf. Lizbeth Goodman e Joan Digby, «Gender, race, class and fiction», in Lizbeth Goodman, op. cit., pp. 145-177); as transformações nas relações e representações no imaginário do género ao longo dos tempos, a andro/misoginia e a hetero/homo/transexualidade; entre muitos outros temas abordados em estudos das mais diversas obras literárias ou realidades sociais, no caso da Antropologia e da Sociologia. O ser humano, misto de “animus” e “anima”, será tão mais enriquecido quanto mais deixar falar a sua natureza livremente, razão pela qual o lado feminino de D. H. Lawrence tem sido, inúmeras vezes, referido em estudos sobre o género. Enquanto o crítico literário Ian Watt (The Rise of the Novel, 1957) é acusado de ter (hiper)masculinizado o romance, muitos outros se debruçam sobre a focalização e autoria feminina presentes em muitos dos romances ingleses – sobretudo no início do seu desenvolvimento, no século XVIII – bem como no processo a que se chama gendering of genres and writing styles (Cf. William B. Warner, Formulating Fiction», in Deidre Lynch e Wiliiam B. Warner (eds.), Cultural Institutions of the Novel, Duke University Press, Londres, 1996, pp. 279-305; Mary Eagleton, «Gender and Genre», op. cit., in Mary Eagleton (ed.), Feminist Literary Theory: A Reader, Blackwell Publishers, Oxford, 1996, pp. 137-143). As relações entre os géneros são, sobretudo, relações assimétricas de poder e de desigualdade. No entanto, será também possível estudar a representação de cada género per se, sem que esta variável seja vista como o único factor que distingue os seres humanos entre si. Os Gender Studies apresentam-se cada vez mais como uma das formas possíveis de analisar a forma do texto literário em relação com o ser e a condição humana que vive nesse “tecido” de palavras e ideologias, demonstrando que a temática do género deverá abranger quer o mundo feminino quer o mundo masculino, sendo que ambos se interpenetram, tornando as vozes presentes nos textos mais auto-conscientes, enquanto a sua abordagem se torna mais ecléctica e não apenas debruçada no estudo das visões e vivências femininas/feministas. {bibliografia}Anthony Giddens, «Gender and Sexuality», in Sociology (1994); Bonnie Kime scott (ed.), The Gender of Modernism (1990); Bronislaw Malinowski, The Sexual Life of the Savages in Norther Melanesia (1929); C. Battersby, Gender and Genius (1989); Darby Lewes, Dream Revisionaries: Gender and Genre in Women’s Utopian Fiction, 1870-1920 (1995); Dina L. Anselmi e Anna L. Law, Questions of Gender: Perspectives and Paradoxes (1998); E. Grauerholz e B. Pescosolido, «Gender representation in children’s literature», in Gender and Society, (1989); G. Rattray Taylor, Sex in History (1965); Hyam, Empire and Sexuality: The British Experience (1990); Joanna Thornborrow, «Playing power: gendered discourses in a computer games magazine», in Language and Literature (1997); Lyn Pykett, Engendering Fictions: The English Novel in the Early Twentieth Century (1995); Margaret Mead, Male and Female. A study of the sexes in a changing world (1948); Maria Consuelo Cunha Campos, « Gênero», in José Luis Jobim (org.), Palavras da Crítica (1992); Miguel Vale de Almeida (org.), Corpo Presente: Treze reflexões antropológicas sobre o corpo, (1996); P. Morris, Literature and Feminism (1993); S. Gilbert e S. Gubar, The Madwoman in the Attic: the Woman Writer and the Nineteenth-Century Literary Imagination (1978); Roger N. Lancaster e Micaela di Leonardo, The Gender Sexuality READER (1997); Rogério Puga, «O olhar através do Género: a imagem do Índio brasileiro na Literatura Portuguesa de Quinhentos» (no prelo); Susan Bassnett, «Gender and Thematics: the case of Guinevere», in Comparative Literature: A Critical Introduction (1993); S. L. Bem, The Lenses of Gender (1993); http://www.lawrence.edu/admissions/acaddepts/gest.html http//www.gendys.mcmail.com http://www.theory.org.uk/index.htm

ANDROCRÍTICA, CRÍTICA FEMINISTA, ESTUDOS SOBRE MULHERES, GINOCRÍTICA, RAÇA,
GÉNERO

Representação simbólica, culturalmente relativa, da masculinidade e da feminilidade. Na língua inglesa distinguem-se os termos gender e genre (género literário). Inúmeros estudos antropológicos têm demonstrado que esta categorização binária, em inúmeras culturas, não é tão simples quanto poderia parecer, sendo que os discursos terão, portanto, que ser tão múltiplos quantos os modelos de relação de géneros existentes. Se é verdade que a distinção entre as categorias (biológicas) Homem e Mulher é universal, e faz parte daquilo a que Stephanie Garrett chama “biogrammar” (Gender, Routledge, Londres, 1992, p. 5), também é verdade que as formas como estes seres humanos interagem simbolicamente, entre si, bem como a forma como os seus corpos são distinguidos e o papel que cada um tem na reprodução da espécie e os seus atributos culturais, variam, inclusive de comunidade para comunidade, podendo ser, no caso da civilização ocidental, materializados nas cores azul e cor-de-rosa. Assim sendo, a construção social quer da masculinidade quer da feminilidade, tal como do sexo, varia de acordo com os mais variados factores, sendo a compreensão do conceito “género” influenciado cultural e até emotivamente, no que diz respeito à interacção e reprodução social. Se o termo “sexo” remete, sobretudo, para as características anatómicas, biológicas e físicas do ser humano, o termo “género” remete para a articulação e elaboração simbólicas e culturalmente específicas destas mesmas diferenças e categorias, nomeadamente no âmbito da sexualidade ou práticas sexuais, que acarretam consigo expectativas sociais. O conceito de gender generalizou-se no início dos anos 80 no âmbito dos estudos antropológicos, sendo igualmente utilizado nos Estudos Linguísticos [Victoria L. Bergvall, Janet M. Bing e Alice F. Fred (Eds.), passim Rethinking Language and Gender Research: Theory and Practice, Routledge, Londres, 1996; Victoria Fromkin e Robert Rodman, Introdução à Linguagem, Livraria Almedina, Coimbra, 1993, pp. 293-296], Literários e Culturais para estudar, não só mas também, a construção e a relação de (des)igualdade das personagens, e as diversas vozes presentes/ausentes no texto (polifonia). Transversais a este tema encontramos temas e tópicos como as relações de poder, a igualdade/submissão; a divisão sexual do trabalho; a reprodução, a socialização; graus de parentesco; rituais e crenças; emotividade; sexualidade e práticas sexuais, bem como todos os hábitos, comportamentos e atributos que cada cultura atribui ao homem e à mulher inseridos em diferentes microcosmos/variantes como a faixa etária, grupo socio-cultural e etnia/raça. Muitos destes temas foram abordados por autores que hoje fazem parte dos manuais da teoria do género, tais como Michel Foucault (The History of Sexuality, 1980); Sigmund Feud (Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, s/d); C. G. Jung (O Eu e o Inconsciente, 1978); Jacques Lacan (Écrits, 1966; The Four Fundamental Concepts of Psycho-analysis, 1978) , George Bataille (L’ Erotisme, 1957), Julia Kristeva (La Révolution du langage poétique, 1974) entre muitos outros. Conforme afirma Donna J. Harraway:“Gender is always a relationship, not a performed category of beings or a possession that one can have […] differentiated by nation, generation, class, lineage, color, and much else. […] Gender and race have never existed separately […] To be unmanly is to be uncivil […]: These metaphors have mattered enormously in the constitution of what may count as knowledge.” (Feminism and Technoscience, 1997, pp. 28 e 30). O género, enquanto constructo simbólico ou metáfora de diferentes tipos de (inter)acção socio-cultural, poderá revelar especificidades da representação de diferentes povos ou personagens, imagens estas que se apresentam diante do olhar quer de autores quer de leitores de qualquer obra literária ou monografia etnográfica. Estas mesmas imagens reflectem a forma como a estrutura mental e cultural dos autores e leitores filtra toda essa panóplia de informações que é necessário sintetizar para uma melhor compreensão e apreensão quer do conteúdo quer da forma do texto. Qualquer estudo em torno da leitura do género representado num determinado texto deverá ter subjacente o conhecimento da utensilagem mental e da consciência possível desses mesmos agentes do processo criativo literário, uma vez que um texto medieval apresenta, em termos culturais, as suas especificidades. R. W. Connel afirma, ao abordar a questão da modernidade da teoria do género: “sex and gender in the writings of medieval and reformation intellectuals were […] items in a debate about the moral relationships among men, women and God. Such a framework was not necessarily a constricting one. It could recognize the complexities of passion and treat them with subtlety. Witness the theme of frustrated love from the romance of Tristam and Isolde, Dante´s story of Paolo and Francesca, to Shakespeare’s Romeo and Juliet. Yet the well-spring of these stories was much more often a dilemma of conflicting obligations than a curiosity about the motive. Similarly the discussion of sex by theologians and philosophers was intended to lay down what people ought to do, rather than consider why they did something else.” (Gender and Power: Society, the Person and Sexual Politics, Polity Press, Cambridge, 1993, pp. 24-25). De acordo com a Crítica Feminista (ginocrítica), as condições socio-culturais subjacentes à produção destes textos, ou seja, o contexto (interaccional) em que os mesmos foram produzidos, é de extrema importância para se entenderem essas mesmas fontes, uma vez que o olhar de quem descreve é influenciado pela sua própriapersonalidade, classe social e interesses individuais e políticos. Sherry B. Ortner e Harriet Whitehead afirmam que o género acarreta consigo “sexual meanings”, uma vez que o sexo poderá ser encarado como símbolo ou sistema de símbolos investidos de significados culturais variáveis. Os mesmos autores abordam ainda as diversas interpretações (genética, cultural, social) que o tema tem suscitado: “gender systems are themselves prestige structures” [Sherry Ortner B. e Harriet Whitehead (eds.), Sexual Meanings: The Cultural Construction of Gender and Sexuality, Cambridge University Press, Cambridge, 1992, p. ix]. Desde os anos setenta, mas sobretudo desde os anos oitenta, a teoria do género (gender theory) tem vindo a conquistar cada vez mais território no âmbito quer dos Estudos Literários quer dos Estudos Culturais. Tendo surgido paralelamente às vozes feministas – que se insurgiam contra o “falocentrismo” literário das sociedades patriarcais, reclamando “a room of [their] own” (Virginia Woolf, A Room of One’s Own, 1977, p.6) – bem como aos Men e Gay/Lesbian Studies, os Gender Studies apresentam-se, por vezes, como eufemismo ou sinónimo destes mesmos âmbitos de estudos nos curricula académicos. Como observa N. C. Mathieu, “Toutes les sociétés élaborent une grammaire sexuelle (du «fémminin» et du «masculin», sont imposés culturellement au mâle et à la femelle) mais cette grammaire – idéele et factuelle – outrepasse parfois les «évidences» biologiques. D´où l´utilité des notions de «sexe social» ou de «genre» […] pour analyser les formes et les mécanismes de la différenciation sociale des sexes.”(«Sexes (différenciation des)», in Pierre Bronte e Michel Izard (eds.), Dictionaire de l’ Ethnologie et de l´Anthropologie, Presses Universitaires de France, Paris,1992, p. 660). Dessa descoberta e interacção surgem intervivências transversais, bem como “significados e símbolos culturais que operam nos discursos e práticas da reprodução das categorias de género […]” (Miguel Vale de Almeida, Senhores de Si. Uma Interpretação Antropológica da Masculinidade, Fim de Século Edições Lda, Lisboa,1995, p. 59). Nos estudos (pós-)coloniais, um dos conceitos e temas mais associados ao estudo do género, sobretudo no que diz respeito ao género do Outro, é a etnia/raça associada a práticas, costumes e crenças culturais, e ao estatuto socio-económico do ser humano que se encontra e se tenta converter e civilizar (colonizar) de acordo com as regras e interesses dos mais poderosos. O colono encara, nem que inconscientemente, as comunidades indígenas através de assimetrias como a etnia, classe e género, estando esta forma de olhar/confrontar presente ao longo de quase todo o corpus da Literatura de Viagens europeia, cujo estudo, também em relação ao género, se poderá apoiar largamente em conceitos e metodologias da Antropologia (Louis Montrose, «The Work of Gender in the Discourse of Discovery», in Representations, n. 33 – Winter, 1991, pp. 1-41). O corpo/fisionomia, bem como a expressão corporal do ser humano, e tudo o que a ele as diferentes culturas associam, transparece parte da vivência e consciência humana desse mesmo ser, nomeadamente a vivência simbólica, moldando o mundo da Cultura ao separar, comparar e descrever os dois géneros. Miguel Vale de Almeida, tal como Pierre Bourdieu em Le Sens pratique (1980), define o conceito antropológico de “incorporação” (embodiment) como “o processo inconsciente […] de aprendizagem pela imitação de posturas corporais, gestos, reacções psicossomáticas, que têm um significado nas relações sociais, estabelecendo hierarquias entre as quais as dos géneros, e que constitui ainda uma das formas mais resistentes de memória social.”(op. cit., p. 69). A Bíblia Sagrada espelha igualmente comportamentos humanos em relação ao corpo, que poderão ser interpretadas à luz da teoria do género: “[…] Tanto o homem como a mulher andavam nus, sem sentirem nenhuma vergonha por isso. (Bíblia Sagrada, Génesis, 2: 25). Embora num estado inicial, ainda sem pecado, o comportamento do casal funciona como contra-exemplo da situação que se pretende perpetuar, ou seja, a ocultação do corpo erótico, sobretudo, dos genitalia. A moral enquanto teoria, neste caso judaico-cristã, encontra-se, portanto, implícita no discurso que pretende modelar práticas socialmente aceites (performance social), aqui sem distinção de género, pois as próprias actividades sociais são entendidas como extensões do corpo humano. Daí a existência da divisão sexual do trabalho tão debatida nas discussões feministas em torno de personagens estereotipadas em termos dos papéis (sociais) que se encontram intimamente relacionados com o género, e cujos microcosmos são descritos através de marcadores simbólicos, objectos e rituais específicos. Esta questão prende-se igualmente com a representação do real no mundo da ficção, pelo que estruturas como o agrupamento sexual de actividades deverão ser estudadas também em função da sua simbologia, demonstrando que a materialização simbolico-cultural quer da masculinidade quer da feminilidade não é hegemónica, mas sim heterogénea. Como afirma Monique Wittig: “As an ontological concept that deals with the nature of Being, along with a whole nebula of other primitive concepts belonging to the same line of thought, gender seems to belong primarily to philosophy.” («The mark of gender», in Nancy K. Miller (ed.), The Poetics of Gender, Columbia University Press, Nova Iorque, 1986, p. 63). Em relação quer ao texto dramático quer à representação teatral, o corpo assume uma importância extrema, uma vez que são representados (Cf. Aristóteles, A Poética, 1447 a) gestos, expressões e sentimentos que o leitor, através das didascálias, e o espectador têm já codificadas diante de si (Cf. V. Griffits, Using Gender to Get at Drama, col. «Studies in Sexual Politics Series», n. 9, University of Manchester Press, 1986). É através de performances rituais e artísticas que as diferentes culturas se exprimem, materializando a sua auto-consciência, bem como o género enquanto representação cultural. Como observa R. W. Connel: “the relationship between the body and social practice is […] a crucial issue for the theory of gender […] (p. 64)”, “the body is involved in every kind of social practice” (p. 77), “[being] itself an object of practice” (p. 78: Gender & Power: Society, the Person and Sexual Politics, Polity Press, Cambridge, 1993). O género apresenta também uma política textual/sexual, um silêncio e metáforas próprios explorados pela crítica feminista (marxista) e psicanalítica, demonstrando que a construção e o discurso social da sexualidade têm um papel determinante na produção e recepção literárias, bem como na História da Literatura. Embora as publicações em torno do (discurso do) género abundem, a maioria delas abordam questões que têm ocupado, sobretudo, a crítica e a literatura feministas. The Poetics of Gender [Nancy K. Miller (ed.), Columbia University Press, Nova Iorque, 1986], Literature and Gender [Lizbeth Goodman (ed.), Routledge, Londres, 1996] e Gender and Literature [Iqbal Kaur (ed.), B. R. Publishing Corporation, Dehli, 1992] são exemplo desse facto, uma vez que os seus textos abordam questões semelhantes ao debruçarem-se sobre o género do autor/narrador, obras do cânone considerado androcêntrico e sobre as vozes femininas que têm vindo a conquistar cada vez mais terreno ao elaborar e reclamar um cânone/tradição femininos. Inúmeros tópicos têm vindo a ser analisados através do prisma do género: as condições sociais de produção/publicação literária; a utilização dos pronomes pessoais e a tentativa de os tornar neutros (Monique Wittig, op. cit., pp. 67-68: “the gendering of language”); a pornografia/transgressão; a História da escrita e crítica femininas; as relações entre género (gender) e (sub)género literário [genre: (auto)biografia, narrativa fílmica, literatura infantil, artes plásticas, texto lírico, narrativo e dramático]; os estereótipos sexuais, a construção de personagens e as relações entre estas; as relações, papéis e estatutos sociais e a socialização com base no género (“gender-based opression)”, a raça e classe ou grupo social (Cf. Lizbeth Goodman e Joan Digby, «Gender, race, class and fiction», in Lizbeth Goodman, op. cit., pp. 145-177); as transformações nas relações e representações no imaginário do género ao longo dos tempos, a andro/misoginia e a hetero/homo/transexualidade; entre muitos outros temas abordados em estudos das mais diversas obras literárias ou realidades sociais, no caso da Antropologia e da Sociologia. O ser humano, misto de “animus” e “anima”, será tão mais enriquecido quanto mais deixar falar a sua natureza livremente, razão pela qual o lado feminino de D. H. Lawrence tem sido, inúmeras vezes, referido em estudos sobre o género. Enquanto o crítico literário Ian Watt (The Rise of the Novel, 1957) é acusado de ter (hiper)masculinizado o romance, muitos outros se debruçam sobre a focalização e autoria feminina presentes em muitos dos romances ingleses – sobretudo no início do seu desenvolvimento, no século XVIII – bem como no processo a que se chama gendering of genres and writing styles (Cf. William B. Warner, Formulating Fiction», in Deidre Lynch e Wiliiam B. Warner (eds.), Cultural Institutions of the Novel, Duke University Press, Londres, 1996, pp. 279-305; Mary Eagleton, «Gender and Genre», op. cit., in Mary Eagleton (ed.), Feminist Literary Theory: A Reader, Blackwell Publishers, Oxford, 1996, pp. 137-143). As relações entre os géneros são, sobretudo, relações assimétricas de poder e de desigualdade. No entanto, será também possível estudar a representação de cada género per se, sem que esta variável seja vista como o único factor que distingue os seres humanos entre si. Os Gender Studies apresentam-se cada vez mais como uma das formas possíveis de analisar a forma do texto literário em relação com o ser e a condição humana que vive nesse “tecido” de palavras e ideologias, demonstrando que a temática do género deverá abranger quer o mundo feminino quer o mundo masculino, sendo que ambos se interpenetram, tornando as vozes presentes nos textos mais auto-conscientes, enquanto a sua abordagem se torna mais ecléctica e não apenas debruçada no estudo das visões e vivências femininas/feministas. {bibliografia}Anthony Giddens, «Gender and Sexuality», in Sociology (1994); Bonnie Kime scott (ed.), The Gender of Modernism (1990); Bronislaw Malinowski, The Sexual Life of the Savages in Norther Melanesia (1929); C. Battersby, Gender and Genius (1989); Darby Lewes, Dream Revisionaries: Gender and Genre in Women’s Utopian Fiction, 1870-1920 (1995); Dina L. Anselmi e Anna L. Law, Questions of Gender: Perspectives and Paradoxes (1998); E. Grauerholz e B. Pescosolido, «Gender representation in children’s literature», in Gender and Society, (1989); G. Rattray Taylor, Sex in History (1965); Hyam, Empire and Sexuality: The British Experience (1990); Joanna Thornborrow, «Playing power: gendered discourses in a computer games magazine», in Language and Literature (1997); Lyn Pykett, Engendering Fictions: The English Novel in the Early Twentieth Century (1995); Margaret Mead, Male and Female. A study of the sexes in a changing world (1948); Maria Consuelo Cunha Campos, « Gênero», in José Luis Jobim (org.), Palavras da Crítica (1992); Miguel Vale de Almeida (org.), Corpo Presente: Treze reflexões antropológicas sobre o corpo, (1996); P. Morris, Literature and Feminism (1993); S. Gilbert e S. Gubar, The Madwoman in the Attic: the Woman Writer and the Nineteenth-Century Literary Imagination (1978); Roger N. Lancaster e Micaela di Leonardo, The Gender Sexuality READER (1997); Rogério Puga, «O olhar através do Género: a imagem do Índio brasileiro na Literatura Portuguesa de Quinhentos» (no prelo); Susan Bassnett, «Gender and Thematics: the case of Guinevere», in Comparative Literature: A Critical Introduction (1993); S. L. Bem, The Lenses of Gender (1993); http://www.lawrence.edu/admissions/acaddepts/gest.html http//www.gendys.mcmail.com http://www.theory.org.uk/index.htm

2009-12-24 10:26:43
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