FALÁCIA

FALÁCIA

Substantivo sinónimo de “ardiloso, ilusório, enganador” que tem sido aplicado com insistência na segunda metade do século XX a várias propostas teóricas no campo da literatura, variando desde a falácia da intenção do autor (sobre o processo de identificação do sentido de um texto com a intenção do autor que produziu esse texto) à falácia afectiva (sobre a avaliação da grandeza de uma obra literária em função dos sentimentos que desperta no leitor). As falácias críticas — porque são discutidas nos campos da crítica literária de investigação e da teoria da literatura — têm como denominador comum a animadversão para com uma determinada crença sobre os mecanismos do fenómeno literário e da sua respectiva recepção. A ênfase crítica é quase sempre colocada no processo de análise textual e nas entrelinhas é quase sempre possível ler conselhos pedagógicos para o aperfeiçoamento da crítica literária. Aquele que avança com a denúncia da falácia está inteiramente convencido de que detém a verdade (ou uma espécie de verdade) sobre a leitura de uma obra literária. Não raro, uma falácia nasce como forma de oposição a um modelo crítico preexistente, isto é, quando alguém pretende qualificar criticamente um modelo anterior para que o seu próprio modelo ou teoria se possa impor. De notar que o New Criticism inglês e norte-americano é não só o responsável pelo nascimento da maior parte das falácias como também contribuiu para a o sentido pejorativo que o termo passou a ter, embora o sentido etimológico de falácia nos remeta antes para um simples artifício enganador. A tipologia das falácias críticas começou a crescer de forma sistemática a partir do New Criticism norte-americano, em especial, tendo o ensaio de Wimsatt e Beardsley, “The Intentional Fallacy” (1946) iniciado a onda. O termo tornou-se comum para denominar pejorativamente qualquer teoria subversiva e provocadora, por exemplo, se se propuser uma qualquer teoria de leitura expressiva, uma crítica politicamente (in)correcta virá depois com o título de “A falácia da leitura expressiva” para tentar anular os argumentos apresentados em favor dessa presumível teoria. A contra-resposta também pode vir em jeito de denúncia de uma nova falácia. Como o termo já inclui aplicações para praticamente todos os campos da literatura, será hoje difícil um crítico não tropeçar em alguma falácia, mesmo que involutariamente. Note-se que isto está longe de significar que um bom crítico é aquele que consegue evitar todas as falácias. Helmut Bonheim, em “The Critical Fallacies”, (Literatur in Wissenschaft und Unterricht, 16, 3, 1983), faz um divertido levantamento de 36 falácias contemporâneas, para mostrar as semelhantes entre muitas delas e a forma como falham muitas vezes na sua formulação ou porque são meros problemas gerais de lógica argumentativa ou porque têm em vista atacar apenas umaa pessoa em particular e não a obra concretamente. Não raro ainda, um crítico que defenda entusiasticamente uma determinada escola literária ou de pensamento poderá ser rotulado de falacioso; o mesmo para as escolas que tendem a dominar uma época, sendo possível ouvir falar da falácia aristotélica, da falácia romântica, da falácia neo-realista, da falácia desconstrucionista, etc. A este tipo de falácias críticas dá Paisley Linvingston (1995) o nome de falácia poética, que acaba por ser sinónima da noção geral de falácia crítica. A principal objecção de Livingston vai para aqueles críticos (pós-estruturalistas, entenda-se) que se envolvem com vários saberes marginais à literatura, como a filosofia, a psicanálise, a sociologia, a antropologia, etc., produzindo teses que violam “a norma epistémica da investigação”, ou seja, não produzem conhecimento. Em vez disso, perdem-se em discursos de retórica excessiva ou naquilo a que Jorge de Sena chamou o “luxo da informação”. A rigor, todas as falácias que dão entrada neste dicionário são falácias poéticas, nesse sentido em que de alguma forma falharam a produção de conhecimento. Mas a questão do ponto de vista de quem determina de que lado está a falha de produção de conhecimento que conduz a uma tese falaciosa é igualmente relevante e, como em qualquer discussão académica, a razão pode estar com os antagonistas ao mesmo tempo.{bibliografia}Dennis Rohatyn: “When Is Fallacy a Fallacy?”, in Frans H. van Eemeren et al. (eds.): Argumentation: Analysis and Practices (1987; Paisley Livingston “The Poetic Fallacy”, in Dwight Eddins (ed.): The Emperor Redressed: Critiquing Critical Theory (1995); Patrick Swinden: Literature and the Philosophy of Intention (1999).

FALÁCIA AFECTIVA, FALÁCIA INTENCIONAL, FALÁCIA OBJECTIVA
FALÁCIA

Substantivo sinónimo de “ardiloso, ilusório, enganador” que tem sido aplicado com insistência na segunda metade do século XX a várias propostas teóricas no campo da literatura, variando desde a falácia da intenção do autor (sobre o processo de identificação do sentido de um texto com a intenção do autor que produziu esse texto) à falácia afectiva (sobre a avaliação da grandeza de uma obra literária em função dos sentimentos que desperta no leitor). As falácias críticas — porque são discutidas nos campos da crítica literária de investigação e da teoria da literatura — têm como denominador comum a animadversão para com uma determinada crença sobre os mecanismos do fenómeno literário e da sua respectiva recepção. A ênfase crítica é quase sempre colocada no processo de análise textual e nas entrelinhas é quase sempre possível ler conselhos pedagógicos para o aperfeiçoamento da crítica literária. Aquele que avança com a denúncia da falácia está inteiramente convencido de que detém a verdade (ou uma espécie de verdade) sobre a leitura de uma obra literária. Não raro, uma falácia nasce como forma de oposição a um modelo crítico preexistente, isto é, quando alguém pretende qualificar criticamente um modelo anterior para que o seu próprio modelo ou teoria se possa impor. De notar que o New Criticism inglês e norte-americano é não só o responsável pelo nascimento da maior parte das falácias como também contribuiu para a o sentido pejorativo que o termo passou a ter, embora o sentido etimológico de falácia nos remeta antes para um simples artifício enganador. A tipologia das falácias críticas começou a crescer de forma sistemática a partir do New Criticism norte-americano, em especial, tendo o ensaio de Wimsatt e Beardsley, “The Intentional Fallacy” (1946) iniciado a onda. O termo tornou-se comum para denominar pejorativamente qualquer teoria subversiva e provocadora, por exemplo, se se propuser uma qualquer teoria de leitura expressiva, uma crítica politicamente (in)correcta virá depois com o título de “A falácia da leitura expressiva” para tentar anular os argumentos apresentados em favor dessa presumível teoria. A contra-resposta também pode vir em jeito de denúncia de uma nova falácia. Como o termo já inclui aplicações para praticamente todos os campos da literatura, será hoje difícil um crítico não tropeçar em alguma falácia, mesmo que involutariamente. Note-se que isto está longe de significar que um bom crítico é aquele que consegue evitar todas as falácias. Helmut Bonheim, em “The Critical Fallacies”, (Literatur in Wissenschaft und Unterricht, 16, 3, 1983), faz um divertido levantamento de 36 falácias contemporâneas, para mostrar as semelhantes entre muitas delas e a forma como falham muitas vezes na sua formulação ou porque são meros problemas gerais de lógica argumentativa ou porque têm em vista atacar apenas umaa pessoa em particular e não a obra concretamente. Não raro ainda, um crítico que defenda entusiasticamente uma determinada escola literária ou de pensamento poderá ser rotulado de falacioso; o mesmo para as escolas que tendem a dominar uma época, sendo possível ouvir falar da falácia aristotélica, da falácia romântica, da falácia neo-realista, da falácia desconstrucionista, etc. A este tipo de falácias críticas dá Paisley Linvingston (1995) o nome de falácia poética, que acaba por ser sinónima da noção geral de falácia crítica. A principal objecção de Livingston vai para aqueles críticos (pós-estruturalistas, entenda-se) que se envolvem com vários saberes marginais à literatura, como a filosofia, a psicanálise, a sociologia, a antropologia, etc., produzindo teses que violam “a norma epistémica da investigação”, ou seja, não produzem conhecimento. Em vez disso, perdem-se em discursos de retórica excessiva ou naquilo a que Jorge de Sena chamou o “luxo da informação”. A rigor, todas as falácias que dão entrada neste dicionário são falácias poéticas, nesse sentido em que de alguma forma falharam a produção de conhecimento. Mas a questão do ponto de vista de quem determina de que lado está a falha de produção de conhecimento que conduz a uma tese falaciosa é igualmente relevante e, como em qualquer discussão académica, a razão pode estar com os antagonistas ao mesmo tempo.{bibliografia}Dennis Rohatyn: “When Is Fallacy a Fallacy?”, in Frans H. van Eemeren et al. (eds.): Argumentation: Analysis and Practices (1987; Paisley Livingston “The Poetic Fallacy”, in Dwight Eddins (ed.): The Emperor Redressed: Critiquing Critical Theory (1995); Patrick Swinden: Literature and the Philosophy of Intention (1999).

2009-12-26 18:06:46
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