LEAVISIANISMO

Em Inglaterra, a revista de crítica literária Scrutinity, lançada em 1932 por F. R. Leavis (1895-1978) e sua esposa, legitimou e privilegiou um determinado método de análise do texto literário (close reading) que viria a ser conhecido por leavisianismo. Um seguidor dos métodos de F. R. Leavis é também chamado, de forma pejorativa, leavisite. Dando pouca importância aos valores apenas “literários”, a revista Scrutinity e os seus seguidores insistiam na avaliação das obras literárias sem atender à interpretação, mas antes privilegiando a descrição e análise dos pormenores textuais e linguísticos. A história contemporânea da crítica literária, do formalismo russo à desconstrução, foi atingida por diversas tentativas de neutralização da interpretação textual. O formalismo russo e a doutrina de F. R. Leavis propuseram programas anti-interpretativos do texto literário, embora nunca tenham teorizado contra a interpretação grosso modo. Uma universidade como Harvard ainda recentemente, através da sua Faculty of Arts and Sciences, mantinha recomendações de leitura cerrada, de acordo com padrões muito próximos dos métodos de Leavis. Veja-se o seguinte exemplo de como fazer uma close reading: 1. Read the text once, keeping in mind the question that you bring to it. That question may be formulated by your instructor, or it may be a question that you have formulated from the context of the course. As you read, try to locate key passages that relate to the question you have in mind. Key passages contain words or phrases that explain important ideas or convey important themes. 2. Read the text again, this time focusing on the key passages that you have identified. What words or phrases in these passages do you think are important? Underline, highlight, or take notes so that you can locate these passages easily. 3. Now examine these words and phrases closely. What patterns emerge? What ideas recur? You may have to read these words and phrases a few times to discover multiple meanings in the text: words that mean more than one thing, phrases that could yield a literal and metaphorical reading. 4. After you read these passages a few times and have discovered patterns within them, formulate a statement to answer your question. This statement should reflect your inferences and speculations about the meaning of the text; it should also reflect your ability to focus on one idea within the text, rather than to produce an essay merely of random impressions. 5. Structure your essay with your statement as a focus. Use quotations from the text to support your analysis. A close analysis of a few passages will produce a stronger text than a superficial commentary on many passages. A prática crítica de Leavis divide-se em duas fases: até à publicação de Scrutinity, influenciado pelo exemplo de T. S. Eliot, privilegiou o estudo da poesia inglesa, tendo publicado em 1932 uma obra dedicada a T.S. Eliot, Ezra Pound e Gerard Manley Hopkins: New Bearings in English Poetry. São contudo os seus livros ensaísticos sobre o romance que mais ajudaram a fixar o método da close reading. Em The Great Tradition (1948), canoniza como grandes romancistas autores como Jane Austen, George Eliot, Henry James e Joseph Conrad e garante que só D. H. Lawrence lhes pode suceder. A colecção de ensaios The Common Pursuit (1952) será uma das mais apreciadas pelos seus seguidores. O título é um empréstimo de The Function of Criticism, de Eliot, apresentado na abertura do livro como o objectivo fundamental do exercíco crítico: “‘The common pursuit of true judgement’: that is how the critic should see his business, and what it should be for him.” (The Common Pursuit, Penguin, Londres, 1993, p.v). O nome dos Leavis está intimamente ligado à crítica prática e à close reading (leitura cerrada, analítica, microscópica, exacta). A crítica prática significava um método que rejeitava a abordagem tradicional e não temia a desmontagem do texto; contudo, ela supunha também que o leitor pudesse julgar a “grandeza” literária com a atenção bem focalizada em poemas ou trechos isolados dos contextos cultural e histórico. A crítica prática significava uma detalhada interpretação analítica que proporcionava um antídoto valioso às leituras esteticistas. Mas parecia também deixar a impressão de que todas as escolas de crítica anteriores haviam lido apenas uma média de três palavras por linha. Pedir uma leitura atenta, ou close reading, significa mais do que insistir na atenção devida ao texto. Sugere uma atenção para com determinados aspectos do texto e não para com outros: para as palavras contidas na página e não para os contextos que as produziram e cercaram. O New Criticism tem aqui uma das suas palavras de ordem nesta noção de close reading (“leitura cerrada”), leitura analítica minuciosa do texto literário que é assumido como um tecido de linguagem autónomo em relação a quaisquer factores extrínsecos, e cujo processo artístico de construção pode ser revelado pela análise técnica. O crítico que assim procede aproxima-se do texto com objectividade e precisão, como um anatomista que estuda as células ao microscópio, embora sem esquecer o aspecto humano da obra. A ênfase está no objecto analisado, a obra, e não no sujeito que a analisa ou no estudo das suas fontes. Esta orientação para a leitura cerrada tornava-se desvantajosa, pois obrigava a uma análise indutiva, renovável a cada leitura, impedindo desta forma a criação de uma teoria e o estabelecimento de um modelo. Daí a quantidade de atributos apresentados como especificidade do texto poético. E mais: a ambiguidade, a tensão, o paradoxo, etc, passaram a representar as chaves da leitura cerrada. Faz parte da natureza do conhecimento o ser inesgotável. Faz parte da natureza do texto o ser indeterminado. A pluralidade que faz parte da natureza da textualidade não pode constituir um obstáculo à teoria, como defendeu F. R. Leavis numa célebre polémica com René Wellek, menos do que um texto resiste a interpretações definitivas. O facto de o tipo de resistência à teoria que F. R. Leavis assume vem de alguém que defendia ferozmente as suas próprias leituras como exactas. Não cabem na teoria da literatura visões religiosas da leitura. O que um texto nos deve pedir é exactamente que o dessacralizemos. Terry Eagleton tentou provar que os textos literários não são por definição resistentes à teoria, como sempre quis F. R. Leavis. Na introdução à sua Literary Theory: An Introduction (1985), Eagleton demarca-se da tradição leavisiana de tomar a busca do “literário” como uma espécie de busca do Santo Graal da literatura. Na teoria da literatura, não podem existir dogmas. O estudo do texto literário é o estudo da ideologia que o texto ensina, não se encontrando nela qualquer essência vital ou propriedade fundamental que por si só justifique tal estudo. Outro aspecto importante a reter a partir do marxismo literário de Eagleton consiste na contra-argumentação da tese de Leavis que sustenta que a multiplicidade de leituras reflecte de imediato a evasão de ideologia do texto. Para Eagleton, tal multiplicidade reflecte antes as contradições inscritas nas ideologias que produziram o texto. Que caminho devemos seguir para fundar uma textualidade essencialmente crítica? É claro que o facto de um texto estar permanentemente aberto a múltiplas leituras não significa que quem quer que seja se possa apropriar da ideologia desse texto somente para o esvaziar, como a doutrina leavisiana pretende sugerir; e também fica claro que esta multiplicidade não é ilimitada em termos de valor científico das leituras produzidas. Se um texto está aí para ser lido de múltiplas formas, nem todas as leituras têm o mesmo valor científico, pelo que é necessário existir um instrumento que meça o valor, o rigor, a coerência discursiva e argumentantiva de uma leitura. Esse instrumento só pode ser a teoria – sem ela, todos os leitores seriam iguais perante a ciência e não teríamos forma de distinguir entre o valor de uma leitura de F. R. Leavis e outra do nosso pior aluno de literatura. Da mesma forma, sem crítica, todos os textos seriam como as amêndoas e não saberíamos distinguir entre as amargas e as doces.{bibliografia}de F. R. Leavis: D. H. Lawrence: Novelist (1955), Education and the University: A Sketch for an "English School" (1943, 2d ed., 1948), English Literature in Our Time and the University (1969), The Great Tradition: George Eliot, Henry James, Joseph Conrad (1948), The Living Principle: "English" as a Discipline of Thought (1975), Mass Civilization and Minority Culture (1930), New Bearings in English Poetry: A Study of the Contemporary Situation (1932, 2d ed., 1950), Nor Shall My Sword: Discourses on Pluralism, Compassion, and Social Hope (1972), Revaluation: Tradition and Development in English Poetry (1936); F. R. Leavis and Denys Thompson, Culture and Environment: The Training of Critical Awareness (1933). Bib. sobre a obra e o método crítico de F. R. Leavis: Michael Bell, F. R. Leavis (1988); R. P. Bilan, The Literary Criticism of F. R. Leavis (1979); Ronald Hayman, Leavis (1976); M. B. Kinch, William Baker, and John Kimber, F. R. and Q. D. Leavis: An Annotated Bibliography (1989); Francis Mulhern, The Moment of "Scrutiny" (1979); New Universities Quarterly 30 (1975, nº especial sobre Leavis); P. J. M. Robertson, The Leavises on Fiction: An Historic Partnership (1981); Anne Samson, F. R. Leavis (1992); William Walsh, F. R. Leavis (1980). http://www.press.jhu.edu/books/hopkins_guide_to_literary_theory/f._r._leavis.html http://pubweb.acns.nwu.edu/~jem973/closereading.htm

LEAVISIANISMO

Em Inglaterra, a revista de crítica literária Scrutinity, lançada em 1932 por F. R. Leavis (1895-1978) e sua esposa, legitimou e privilegiou um determinado método de análise do texto literário (close reading) que viria a ser conhecido por leavisianismo. Um seguidor dos métodos de F. R. Leavis é também chamado, de forma pejorativa, leavisite. Dando pouca importância aos valores apenas “literários”, a revista Scrutinity e os seus seguidores insistiam na avaliação das obras literárias sem atender à interpretação, mas antes privilegiando a descrição e análise dos pormenores textuais e linguísticos. A história contemporânea da crítica literária, do formalismo russo à desconstrução, foi atingida por diversas tentativas de neutralização da interpretação textual. O formalismo russo e a doutrina de F. R. Leavis propuseram programas anti-interpretativos do texto literário, embora nunca tenham teorizado contra a interpretação grosso modo. Uma universidade como Harvard ainda recentemente, através da sua Faculty of Arts and Sciences, mantinha recomendações de leitura cerrada, de acordo com padrões muito próximos dos métodos de Leavis. Veja-se o seguinte exemplo de como fazer uma close reading: 1. Read the text once, keeping in mind the question that you bring to it. That question may be formulated by your instructor, or it may be a question that you have formulated from the context of the course. As you read, try to locate key passages that relate to the question you have in mind. Key passages contain words or phrases that explain important ideas or convey important themes. 2. Read the text again, this time focusing on the key passages that you have identified. What words or phrases in these passages do you think are important? Underline, highlight, or take notes so that you can locate these passages easily. 3. Now examine these words and phrases closely. What patterns emerge? What ideas recur? You may have to read these words and phrases a few times to discover multiple meanings in the text: words that mean more than one thing, phrases that could yield a literal and metaphorical reading. 4. After you read these passages a few times and have discovered patterns within them, formulate a statement to answer your question. This statement should reflect your inferences and speculations about the meaning of the text; it should also reflect your ability to focus on one idea within the text, rather than to produce an essay merely of random impressions. 5. Structure your essay with your statement as a focus. Use quotations from the text to support your analysis. A close analysis of a few passages will produce a stronger text than a superficial commentary on many passages. A prática crítica de Leavis divide-se em duas fases: até à publicação de Scrutinity, influenciado pelo exemplo de T. S. Eliot, privilegiou o estudo da poesia inglesa, tendo publicado em 1932 uma obra dedicada a T.S. Eliot, Ezra Pound e Gerard Manley Hopkins: New Bearings in English Poetry. São contudo os seus livros ensaísticos sobre o romance que mais ajudaram a fixar o método da close reading. Em The Great Tradition (1948), canoniza como grandes romancistas autores como Jane Austen, George Eliot, Henry James e Joseph Conrad e garante que só D. H. Lawrence lhes pode suceder. A colecção de ensaios The Common Pursuit (1952) será uma das mais apreciadas pelos seus seguidores. O título é um empréstimo de The Function of Criticism, de Eliot, apresentado na abertura do livro como o objectivo fundamental do exercíco crítico: “‘The common pursuit of true judgement’: that is how the critic should see his business, and what it should be for him.” (The Common Pursuit, Penguin, Londres, 1993, p.v). O nome dos Leavis está intimamente ligado à crítica prática e à close reading (leitura cerrada, analítica, microscópica, exacta). A crítica prática significava um método que rejeitava a abordagem tradicional e não temia a desmontagem do texto; contudo, ela supunha também que o leitor pudesse julgar a “grandeza” literária com a atenção bem focalizada em poemas ou trechos isolados dos contextos cultural e histórico. A crítica prática significava uma detalhada interpretação analítica que proporcionava um antídoto valioso às leituras esteticistas. Mas parecia também deixar a impressão de que todas as escolas de crítica anteriores haviam lido apenas uma média de três palavras por linha. Pedir uma leitura atenta, ou close reading, significa mais do que insistir na atenção devida ao texto. Sugere uma atenção para com determinados aspectos do texto e não para com outros: para as palavras contidas na página e não para os contextos que as produziram e cercaram. O New Criticism tem aqui uma das suas palavras de ordem nesta noção de close reading (“leitura cerrada”), leitura analítica minuciosa do texto literário que é assumido como um tecido de linguagem autónomo em relação a quaisquer factores extrínsecos, e cujo processo artístico de construção pode ser revelado pela análise técnica. O crítico que assim procede aproxima-se do texto com objectividade e precisão, como um anatomista que estuda as células ao microscópio, embora sem esquecer o aspecto humano da obra. A ênfase está no objecto analisado, a obra, e não no sujeito que a analisa ou no estudo das suas fontes. Esta orientação para a leitura cerrada tornava-se desvantajosa, pois obrigava a uma análise indutiva, renovável a cada leitura, impedindo desta forma a criação de uma teoria e o estabelecimento de um modelo. Daí a quantidade de atributos apresentados como especificidade do texto poético. E mais: a ambiguidade, a tensão, o paradoxo, etc, passaram a representar as chaves da leitura cerrada. Faz parte da natureza do conhecimento o ser inesgotável. Faz parte da natureza do texto o ser indeterminado. A pluralidade que faz parte da natureza da textualidade não pode constituir um obstáculo à teoria, como defendeu F. R. Leavis numa célebre polémica com René Wellek, menos do que um texto resiste a interpretações definitivas. O facto de o tipo de resistência à teoria que F. R. Leavis assume vem de alguém que defendia ferozmente as suas próprias leituras como exactas. Não cabem na teoria da literatura visões religiosas da leitura. O que um texto nos deve pedir é exactamente que o dessacralizemos. Terry Eagleton tentou provar que os textos literários não são por definição resistentes à teoria, como sempre quis F. R. Leavis. Na introdução à sua Literary Theory: An Introduction (1985), Eagleton demarca-se da tradição leavisiana de tomar a busca do “literário” como uma espécie de busca do Santo Graal da literatura. Na teoria da literatura, não podem existir dogmas. O estudo do texto literário é o estudo da ideologia que o texto ensina, não se encontrando nela qualquer essência vital ou propriedade fundamental que por si só justifique tal estudo. Outro aspecto importante a reter a partir do marxismo literário de Eagleton consiste na contra-argumentação da tese de Leavis que sustenta que a multiplicidade de leituras reflecte de imediato a evasão de ideologia do texto. Para Eagleton, tal multiplicidade reflecte antes as contradições inscritas nas ideologias que produziram o texto. Que caminho devemos seguir para fundar uma textualidade essencialmente crítica? É claro que o facto de um texto estar permanentemente aberto a múltiplas leituras não significa que quem quer que seja se possa apropriar da ideologia desse texto somente para o esvaziar, como a doutrina leavisiana pretende sugerir; e também fica claro que esta multiplicidade não é ilimitada em termos de valor científico das leituras produzidas. Se um texto está aí para ser lido de múltiplas formas, nem todas as leituras têm o mesmo valor científico, pelo que é necessário existir um instrumento que meça o valor, o rigor, a coerência discursiva e argumentantiva de uma leitura. Esse instrumento só pode ser a teoria – sem ela, todos os leitores seriam iguais perante a ciência e não teríamos forma de distinguir entre o valor de uma leitura de F. R. Leavis e outra do nosso pior aluno de literatura. Da mesma forma, sem crítica, todos os textos seriam como as amêndoas e não saberíamos distinguir entre as amargas e as doces.{bibliografia}de F. R. Leavis: D. H. Lawrence: Novelist (1955), Education and the University: A Sketch for an "English School" (1943, 2d ed., 1948), English Literature in Our Time and the University (1969), The Great Tradition: George Eliot, Henry James, Joseph Conrad (1948), The Living Principle: "English" as a Discipline of Thought (1975), Mass Civilization and Minority Culture (1930), New Bearings in English Poetry: A Study of the Contemporary Situation (1932, 2d ed., 1950), Nor Shall My Sword: Discourses on Pluralism, Compassion, and Social Hope (1972), Revaluation: Tradition and Development in English Poetry (1936); F. R. Leavis and Denys Thompson, Culture and Environment: The Training of Critical Awareness (1933). Bib. sobre a obra e o método crítico de F. R. Leavis: Michael Bell, F. R. Leavis (1988); R. P. Bilan, The Literary Criticism of F. R. Leavis (1979); Ronald Hayman, Leavis (1976); M. B. Kinch, William Baker, and John Kimber, F. R. and Q. D. Leavis: An Annotated Bibliography (1989); Francis Mulhern, The Moment of "Scrutiny" (1979); New Universities Quarterly 30 (1975, nº especial sobre Leavis); P. J. M. Robertson, The Leavises on Fiction: An Historic Partnership (1981); Anne Samson, F. R. Leavis (1992); William Walsh, F. R. Leavis (1980). http://www.press.jhu.edu/books/hopkins_guide_to_literary_theory/f._r._leavis.html http://pubweb.acns.nwu.edu/~jem973/closereading.htm

2009-12-30 14:46:43
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