LUGAR-COMUM

Expressão derivada do latim locus comunis. Nos tempos modernos, assume o sentido pejorativo de expressão trivial, banal, que se repete frequentemente. É utilizado muitas vezes como sinónimo de outras expressões de valor semântico semelhante: cliché, chavão, chapa, frase feita, estereótipo, slogan, etc. Na Antiguidade Clássica, começou por ser aplicado por Quintiliano no sentido de fontes de argumentos – sedes argumentorum (in Institutio oratoria) —, ao serviço da arte da palavra, ou seja, «Source à l’aquelle les anciennes recommandaient de puiser les developments, preuves et arguments, applicables à tous les sujets.» (Dictionnaire des littératures française et étrangers); nos discursos forense, deliberativo e panegírico era suposto o orador utilizar determinados koinoì tópoi, em grego, ou loci communes, em latim, como, por exemplo, o da falsa modéstia. O estudioso Ernst Robert Curtius prefere empregar, neste caso, a designação de tópicos, correspondente ao tópoi grego, por o termo lugar-comum ter perdido o seu sentido original (European Literature and the Latin Middle Ages, Princeton University Press, Princeton, 1967, 1ª ed., 1955). O facto é que, na retórica clássica, o conceito de lugar-comum possuía uma validade literária e discursiva que o uso moderno rejeita. No discurso retórico clássico, a associação de ideias (necessariamente já conhecidas pelo público, ou de outra forma a persuasão procurada seria inconsequente) permite orientar o interlocutor na compreensão (e convencimento) dos argumentos. O lugar-comum era, na verdade, uma figura fundamental da retórica e não se referia a qualquer vulgarização do discurso. Como sintetizam Roland Barthes e Jean-Louis Bouttes, “originariamente, os lugares são formas privadas de sentido, mas que servem para se encontrar sentido. Existiam, portanto, ‘lugares-comuns’ (loci communes), puramente formais (contrariamente ao sentido actual da palavra), ou seja, comuns a todos os assuntos possíveis, fosse qual fosse a particularidade: por exemplo, para Aristóteles, o possível/impossível, o existente/não existente, o mais/menos; e existiam os ‘lugares especiais’, próprios de determinados assuntos, que por isso mesmo não são enumeráveis.” (1987, pp.267-268). A Idade Média ainda valoriza o lugar-comum no discurso, sobretudo pelo recurso a uma figura semelhante, o exemplum e o imago, recursos de apoio para ilustrar com exemplos significativos e consagrados pela tradição certas passagens mais expressivas dos sermões ou das orações públicas. A originalidade, que é hoje o contraponto do lugar-comum, era até à Idade Média a negação do valor de um discurso, cuja erudição era medida pela perspicácia e pela oportunidade das referências culturais e literárias aos modelos consagrados. Como comentam ainda Barthes e Bouttes, “o auctor contentava-se em colocar sob a sua responsabilidade (é o sentido da palavra) o que tinha sido dito antes dele, sem procurar modificar, ‘personalizar’; daí que o lugar-comum (topos, exemplum, imago) não só dava uma eminente dignidade cultural a quem o inseria no seu discurso, como era ainda praticamente impossível expor ou discutir sem apelar para estas parcelas de linguagem já feitas.” (ibid., p.273). Sem nenhum critério de distinção entre as terminologias modernas que são sinónimas de lugar-comum, e sabendo que todas partilham a exigência de repetição, falaríamos de lugar-comum em expressões como “homens de amanhã”, “não ter mãos a medir”, “primavera da vida” ou “meio caminho andado”. De um ponto de vista literário, estas expressões não têm qualquer valor estético, mas se exercermos sobre elas uma estilização criativa, podemos dar-lhes um valor renovado. Por exemplo, “homens de um amanhã sem futuro”, “não ter mãos a pedir”, “primavera compassada da vida” ou “meio caminho andado, sem sair do mesmo sítio”, são expressões transformadas de estereótipos que não perdem a natureza do lugar-comum (fórmula banalizada e repetida), o que pode alargar a semântica do termo para toda a expressão repetida pelo uso, quer na linguagem corrente quer na literatura. Sem o lugar-comum original, a transformação literária operada não tinha qualquer efeito. Se todo o lugar-comum pode, à partida, ser sujeito a este processo de estilização, então é legítimo não guardar o termo apenas para usos negativos da linguagem, sem um fim em vista. Existe apenas um critério possível para avaliar a diferença entre lugar-comum, estereótipo, cliché, por um lado, e chavão, chapa, quatro, nariz de cera, por outro: os termos do primeiro agrupamento não depreciam com a mesma força o conteúdo repetido. A diferença que podemos ainda estabelecer entre lugar-comum e protótipo residirá no nível expressão em que ocorrem: o primeiro reservado para os discursos correntes, privados ou literários; o segundo, para as ocorrências lexicais. De resto, todos estes termos gozam do mesmo estatuto retórico, que não pode dispensar nem a repetição valorativa ou depreciativa nem a representação de dados da realidade que se querem ver consagrados no discurso. A diferença entre cliché e lugar-comum é impossível de determinar objectivamente. O cliché é o termo francês que significa literalmente uma chapa metálica onde está gravada, em relevo, uma imagem destinada a ser reproduzida por impressão. Na linguagem literária, tornou-se sinónimo de lugar-comum, estereótipo, frase feita, ideia feita, chavão, chapa, cassete, nariz de cera. Por norma, chamamos cliché ou lugar-comum a uma expressão que o uso corrente banalizou, esbatendo-se o seu sentido e poder diferenciador. Se não existir uma tentativa deliberada de estilizar o discurso, o uso de clichés é considerado hoje um vício de linguagem. Caso contrário, apresenta-se como um instrumento de ironia que muitos escritores não desprezam. Veja-se este exemplo de Alexandre Pinheiro Torres: “ «Nunca li Marx. Não o entendo. Mas percebo certas passagens da Política de Aristóteles onde ele nos ensina que a pobreza é o pai e a mãe da revolução e do crime. Basta isto.» D. Antoninha atirou os olhos para o tecto, manifesto de resignação. «Sabedoria de almanaque. Tanto se repetiu essa frase que se tornou num cliché.» «Não há nada mais verdadeiro no mundo do que um cliché. O cliché condensa toda a sabedoria dos homens. A que é essencial.» “ (Sou Toda Sua, Meu Guapo Cavaleiro, Caminho, Lisboa, 1994, p.183). Para a maior parte dos críticos literários, o lugar-comum (ou o cliché, ou o estereótipo) é uma forma depreciativa, uma fraqueza de estilo. Alexander Pope, no seu Essay on Criticism (1711), satiriza a utilização de lugares comuns pelos autores da sua época: “Where’re you find ‘the cooling western breeze’, / In the next line it ‘whispers through the trees’; / If crystal streams ‘with pleasing murmurs creep’, / The reader’s threatened (not in vain) with ‘sleep’ “ (II, 11). Remy de Gourmont, em Esthétique de la langue française (1955) afirma que o lugar-comum “Représente la materialité même de la phrase; lieu commun, plutôt la banalité de l’idée.” (p.190). Destas posições pode-se depreender, por exemplo, que toda a literatura pré-romântica e romântica não passará de uma amálgama de frases feitas, de chavões despidos de originalidade, uma vez que tópicos como a angústia, o locus horrendus, o individualismo, entre outros, são comuns aos seguidores destas correntes. O lugar-comum, o cliché e o estereótipo são uma espécie de metáfora morta. Por exemplo, a metáfora gasta pelo uso “cabelos de ouro”, que remonta pelo menos a Platão, torna-se um lugar-comum em escritores de todas as épocas e culturas, sendo muito recorrente em autores como Camões: “Cabelos d’ouro o trançado” (Vilancetes); “Ondados fios de ouro reluzente” (Sonetos). A primeira condição para a definição de um lugar-comum, de um cliché ou de um estereótipo é, pois, o seu uso generalizado e repetido, mesmo em situações de estilização poética. Trata-se de situações que nos levam a considerar o discurso proferido como já visto ou gasto pelo uso. Quando o lugar-comum apresenta um “facto de estilo”, perde o seu carácter depreciativo e o seu nível de banalidade, para ganhar interesse literário. Assim sugere Michael Riffaterre na apreciação crítica do cliché: “O cliché pode ser batido sem deixar de ser eficaz. Não se deve confundir banalidade com desgaste. Se fosse desgastado, o cliché perderia tanto a sua clientela como os seus inimigos, o que não é o caso. Ele não passa despercebido, pelo contrário, chama sempre a atenção sobre si.” (1973, p.155). Riffaterre distingue duas funções para o cliché: 1) como elemento constitutivo da escritura do autor; 2) como objecto de expressão que de alguma forma é exterior à escritura do autor. Como se parte do princípio de que o cliché não se distingue do lugar-comum e do estereótipo, participando da sua natureza, o importante é perceber que a sua estilização na escritura de um autor é suficiente para evitar aquele atributo que mais associamos ao cliché: a banalidade. Esta também pode ser utilizada como forma de marcar a individualidade do discurso, por exemplo, quando o autor ficciona, poetiza ou representa a linguagem ou o estilo de outro autor ou de uma outra fonte conhecida antecipadamente para a construção dos diálogos de uma personagem. Na prosa literária, o cliché é reconhecido quase sempre nesta função. Não é obrigatório que o lugar-comum, o cliché e o esterótipo representem um “desvio estilístico com relação à norma”, como os definem os dicionários de linguística. Aquela metáfora dos “cabelos de ouro” não é um desvio à norma linguística, porque não distorce nenhuma regra ou convenção. Expressões como “formigueiro humano”, “lágrimas amargas”, “lágrimas de crocodilo”, “nó na garganta”, “amigo da onça”, “livre como o ar” partem de analogias entre termos distintos para produzir um determinado efeito metafórico, que pode servir para estabelecer uma distinção subtil entre cliché e lugar-comum, embora esta distinção não seja segura. O efeito metafórico ou metonímico que preside, em geral, ao cliché não está necessariamente presente no lugar-comum. Neste sentido, expressões gastas como a abertura e o fecho de cartas (“Caro A.,…”, “Com os melhores cumprimentos,”) apresentar-se-iam como lugares comuns e não como clichés. O mesmo seria válido para certos finais felizes estereotipados de narrativas de matriz romântica. Podemos ainda considerar um factor subjectivo na análise da distinção entre lugar-comum e cliché: a intenção do locutor. Sobretudo na linguagem oral, o uso de clichés está associado a uma intenção premeditada de pretensa erudição. Neste caso, o locutor não está geralmente consciente do uso gasto do cliché, que utiliza com nítida intenção de impressionar o interlocutor. Entrariam nesta categoria clichés como “a gangrena do parlamentarismo”, “pequena elite”, “bondade excelsa”, “crime hediondo”, “as crianças pobres são almas inocentes”, “grave acidente”, “prudente reserva”, “consumado artista”, etc. R. Amossy e E. Rosen são da opinião que a diferenciação se faz ao nível discursivo: “le cliché s’en distingue principalement dans la mesure où as nature est discursive, par opposition au lieu commun qui ne se laisse pas définir au niveau verbal” (Les Discours du cliché, CDU-SEDES, Paris, 1982, p.14). Distinguir-se-á também o cliché da catacrese, porque esta pressupõe uma necessidade pragmática de enunciação que não está presente no cliché: “braço de mar” é uma expressão catacrésica por exprimir um modo de descrição de um fenómeno e não por ser uma estilização literária. As expressões idiomáticas também não devem ser confundidas com clichés: “em pé de igualdade” é uma expressão metafórica fixa na língua; “céu aberto” é também uma expressão idiomática, mas “céu azul” ou “sétimo céu” são clichés. Um estereótipo também não seria exactamente a mesma coisa que um cliché, porque se circunscreve à obra de um autor em particular ou à linguagem própria de uma dada época. A imagem barroca da Fénix Renascida não pode ser um cliché, porque na época não era entendida como expressão vulgarizada. Por outro lado, se nos apropriarmos da imagem barroca da Fénix Renascida e atribuirmos hoje este título a um novo livro de versos, por exemplo, essa expressão torna-se um cliché. Estes factos permitem-nos concluir que o cliché se afirma pela repetição ou uso contínuo de uma expressão não fixa na língua, que foi sujeita a um processo de estilização através de metáforas, metonímias ou hipérboles, para servir um dado contexto discursivo. O cliché partilha com os seus similares o facto de exigir a perda da originalidade da expressão. O estereótipo é uma expressão inalterada durante o seu uso repetido, tornando-se, portanto, lugar-comum. O termo tem aplicação técnica, dizendo respeito às impressões tipográficas em estereotipia. Não existe diferença conceptual entre estereótipo e lugar-comum, porque ambos os termos partilham as mesmas características (repetição verbal, cuja significação simbólica acaba por esgotar-se pelo uso excessivo). Podemos sim distinguir estereótipo e protótipo. Como observa Mário Vilela, “o conceito de ‘protótipo’, surgiria como representando o lado positivo do estereótipo, como o que define os valores, os tipos. E os estereótipos constituiriam a competência cultural (mais) partilhada, o denominador comum aos membros de uma sociedade: seriam os ‘caminhos já andados’ pela língua.” (“Semântica do ‘lugar-comum’”, in Sentido Que a Vida Faz: Estudos para Óscar Lopes, Campo das Letras, Porto, 1997, p.874). Assim, falaremos de protótipo em expressões como “o protótipo de um carro” (o melhor exemplar, o modelo original); falaremos de estereótipo em expressões como: “o canto do cisne” ou “pôr o preto no branco”. O traço de banalização que é notório no estereótipo e no lugar-comum não se aplica ao protótipo, que exige a condição de originalidade. Em expressões de carácter literário como “Ele é o protótipo da audácia.”, podemos aproximar o protótipo do arquétipo. Quando o estereótipo substitui, num dado contexto, uma ideia pré-estabelecida — por exemplo, os estereótipos da mulher: “mãe de família”, “dona de casa”, “submissão”, “sensibilidade”, “fragilidade física”, etc. —, seria mais correcto falar de preconceitos, porque o facto destas ideias feitas arrastarem uma certa banalização do discurso, não é suficiente para classificar com rigor a expressão estereotipada. Nestes casos, existe uma marca forte de uma determinada ideologia ou de uma ética datada e localizada, o que nos conduz para o terreno do preconceito, que vai muito além dos limites da expressão banalizada. O estereótipo está presente em muitas realizações linguísticas do quotidiano, como os provérbios, as máximas, os slogans, as fraseologias, os mitos, os paradigmas, etc. Estas formas de expressão assentam todas no acto verbal repetido, acto de que dependem para se afirmarem numa dada comunidade e se tornarem reconhecidas como tal. Porque se repetem e não alteram o significado original dos enunciados (com excepção das estilizações, por exemplo, o provérbio Mais vale só do que mal acompanhado. Foi transformado em anúncio publicitário pela Pizza Hut: Tanto vale só como bem acompanhado., que regra geral contribuem para valorizar o sentido original, mesmo que se torne um lugar-comum), todas estas formas de expressão podem ser estereotipadas.{bibliografia}Christian Plantin: Lieux communs, topoi, stéréotypes, clichés (1993); D. G. Brassart: “Stéréotype/Prototype/ Modèle”, Recherches, 10 (Stéréotypes) (1989); David Galef: “What a Cliché!”, Verbatim, 19, 3 (1993); Eric Partridge: A Dicionary of Clichés (1940); Fernando Ribeiro de Mello: Nova Recolha de Provérbios e Outros Lugares Comuns Portugueses (1974); George Amus: “Clichés, Extended and Otherwise”, SRL, vol.XXIX (1946); Georges Kleiber: La Sémantique du prototype (1990); James Rogers: The Dicionary of Clichés (1985); João Ribeiro: Frases Feitas (1908); John Guillory: “The English Common-place: Lineages of the Topographical Genre”, Critical Quarterly, nº 33-34 (1991); José Maria Lima: “A função do cliché literário no estilo de Raul Pompeia”, Revista de Letras, 25 (1985); L. D. Lerner: Clichés and Commonplaces: Essays in Criticism (1956); Mário Vilela: “Semântica do ‘lugar-comum’”, in Sentido Que a Vida Faz: Estudos para Óscar Lopes (1997); Michael Riffaterre:Essais de stylistique structurale, (1971), trad. brasileira: Estilística Estrutural (São Paulo, 1973); Nicholas Bagnall: “In Defense of Clichés”, English Today, 5 (1986); Paul Pickrel: “Identifying Clichés”, College English, 47, 3 (1985); Régine Pietra: “Lieux communs”, Littérature, 65 (1987); Ruth Amossy: Les Idées reçues. Sémiotique du stéréotype (1991); Ruth Amossy e Elisheva Rosen: Les Discours de cliché (1982); Ruth Rodak Goldfine e Gina Marie King: “Never at a Loss for Words: Why Do Clichés Live On?”, ETC, 51, 3 (1994); Songnian Wang: “A Pragmatic Study of Clichés”, Waiguoyn, 3, 79 (1992).

ARQUÉTIPO, ASQUEMATISTO, CATACRESE, EXEMPLUM, IMAGEM, SLOGAN, TOPOS, TRUISMO
LUGAR-COMUM

Expressão derivada do latim locus comunis. Nos tempos modernos, assume o sentido pejorativo de expressão trivial, banal, que se repete frequentemente. É utilizado muitas vezes como sinónimo de outras expressões de valor semântico semelhante: cliché, chavão, chapa, frase feita, estereótipo, slogan, etc. Na Antiguidade Clássica, começou por ser aplicado por Quintiliano no sentido de fontes de argumentos – sedes argumentorum (in Institutio oratoria) —, ao serviço da arte da palavra, ou seja, «Source à l’aquelle les anciennes recommandaient de puiser les developments, preuves et arguments, applicables à tous les sujets.» (Dictionnaire des littératures française et étrangers); nos discursos forense, deliberativo e panegírico era suposto o orador utilizar determinados koinoì tópoi, em grego, ou loci communes, em latim, como, por exemplo, o da falsa modéstia. O estudioso Ernst Robert Curtius prefere empregar, neste caso, a designação de tópicos, correspondente ao tópoi grego, por o termo lugar-comum ter perdido o seu sentido original (European Literature and the Latin Middle Ages, Princeton University Press, Princeton, 1967, 1ª ed., 1955). O facto é que, na retórica clássica, o conceito de lugar-comum possuía uma validade literária e discursiva que o uso moderno rejeita. No discurso retórico clássico, a associação de ideias (necessariamente já conhecidas pelo público, ou de outra forma a persuasão procurada seria inconsequente) permite orientar o interlocutor na compreensão (e convencimento) dos argumentos. O lugar-comum era, na verdade, uma figura fundamental da retórica e não se referia a qualquer vulgarização do discurso. Como sintetizam Roland Barthes e Jean-Louis Bouttes, “originariamente, os lugares são formas privadas de sentido, mas que servem para se encontrar sentido. Existiam, portanto, ‘lugares-comuns’ (loci communes), puramente formais (contrariamente ao sentido actual da palavra), ou seja, comuns a todos os assuntos possíveis, fosse qual fosse a particularidade: por exemplo, para Aristóteles, o possível/impossível, o existente/não existente, o mais/menos; e existiam os ‘lugares especiais’, próprios de determinados assuntos, que por isso mesmo não são enumeráveis.” (1987, pp.267-268). A Idade Média ainda valoriza o lugar-comum no discurso, sobretudo pelo recurso a uma figura semelhante, o exemplum e o imago, recursos de apoio para ilustrar com exemplos significativos e consagrados pela tradição certas passagens mais expressivas dos sermões ou das orações públicas. A originalidade, que é hoje o contraponto do lugar-comum, era até à Idade Média a negação do valor de um discurso, cuja erudição era medida pela perspicácia e pela oportunidade das referências culturais e literárias aos modelos consagrados. Como comentam ainda Barthes e Bouttes, “o auctor contentava-se em colocar sob a sua responsabilidade (é o sentido da palavra) o que tinha sido dito antes dele, sem procurar modificar, ‘personalizar’; daí que o lugar-comum (topos, exemplum, imago) não só dava uma eminente dignidade cultural a quem o inseria no seu discurso, como era ainda praticamente impossível expor ou discutir sem apelar para estas parcelas de linguagem já feitas.” (ibid., p.273). Sem nenhum critério de distinção entre as terminologias modernas que são sinónimas de lugar-comum, e sabendo que todas partilham a exigência de repetição, falaríamos de lugar-comum em expressões como “homens de amanhã”, “não ter mãos a medir”, “primavera da vida” ou “meio caminho andado”. De um ponto de vista literário, estas expressões não têm qualquer valor estético, mas se exercermos sobre elas uma estilização criativa, podemos dar-lhes um valor renovado. Por exemplo, “homens de um amanhã sem futuro”, “não ter mãos a pedir”, “primavera compassada da vida” ou “meio caminho andado, sem sair do mesmo sítio”, são expressões transformadas de estereótipos que não perdem a natureza do lugar-comum (fórmula banalizada e repetida), o que pode alargar a semântica do termo para toda a expressão repetida pelo uso, quer na linguagem corrente quer na literatura. Sem o lugar-comum original, a transformação literária operada não tinha qualquer efeito. Se todo o lugar-comum pode, à partida, ser sujeito a este processo de estilização, então é legítimo não guardar o termo apenas para usos negativos da linguagem, sem um fim em vista. Existe apenas um critério possível para avaliar a diferença entre lugar-comum, estereótipo, cliché, por um lado, e chavão, chapa, quatro, nariz de cera, por outro: os termos do primeiro agrupamento não depreciam com a mesma força o conteúdo repetido. A diferença que podemos ainda estabelecer entre lugar-comum e protótipo residirá no nível expressão em que ocorrem: o primeiro reservado para os discursos correntes, privados ou literários; o segundo, para as ocorrências lexicais. De resto, todos estes termos gozam do mesmo estatuto retórico, que não pode dispensar nem a repetição valorativa ou depreciativa nem a representação de dados da realidade que se querem ver consagrados no discurso. A diferença entre cliché e lugar-comum é impossível de determinar objectivamente. O cliché é o termo francês que significa literalmente uma chapa metálica onde está gravada, em relevo, uma imagem destinada a ser reproduzida por impressão. Na linguagem literária, tornou-se sinónimo de lugar-comum, estereótipo, frase feita, ideia feita, chavão, chapa, cassete, nariz de cera. Por norma, chamamos cliché ou lugar-comum a uma expressão que o uso corrente banalizou, esbatendo-se o seu sentido e poder diferenciador. Se não existir uma tentativa deliberada de estilizar o discurso, o uso de clichés é considerado hoje um vício de linguagem. Caso contrário, apresenta-se como um instrumento de ironia que muitos escritores não desprezam. Veja-se este exemplo de Alexandre Pinheiro Torres: “ «Nunca li Marx. Não o entendo. Mas percebo certas passagens da Política de Aristóteles onde ele nos ensina que a pobreza é o pai e a mãe da revolução e do crime. Basta isto.» D. Antoninha atirou os olhos para o tecto, manifesto de resignação. «Sabedoria de almanaque. Tanto se repetiu essa frase que se tornou num cliché.» «Não há nada mais verdadeiro no mundo do que um cliché. O cliché condensa toda a sabedoria dos homens. A que é essencial.» “ (Sou Toda Sua, Meu Guapo Cavaleiro, Caminho, Lisboa, 1994, p.183). Para a maior parte dos críticos literários, o lugar-comum (ou o cliché, ou o estereótipo) é uma forma depreciativa, uma fraqueza de estilo. Alexander Pope, no seu Essay on Criticism (1711), satiriza a utilização de lugares comuns pelos autores da sua época: “Where’re you find ‘the cooling western breeze’, / In the next line it ‘whispers through the trees’; / If crystal streams ‘with pleasing murmurs creep’, / The reader’s threatened (not in vain) with ‘sleep’ “ (II, 11). Remy de Gourmont, em Esthétique de la langue française (1955) afirma que o lugar-comum “Représente la materialité même de la phrase; lieu commun, plutôt la banalité de l’idée.” (p.190). Destas posições pode-se depreender, por exemplo, que toda a literatura pré-romântica e romântica não passará de uma amálgama de frases feitas, de chavões despidos de originalidade, uma vez que tópicos como a angústia, o locus horrendus, o individualismo, entre outros, são comuns aos seguidores destas correntes. O lugar-comum, o cliché e o estereótipo são uma espécie de metáfora morta. Por exemplo, a metáfora gasta pelo uso “cabelos de ouro”, que remonta pelo menos a Platão, torna-se um lugar-comum em escritores de todas as épocas e culturas, sendo muito recorrente em autores como Camões: “Cabelos d’ouro o trançado” (Vilancetes); “Ondados fios de ouro reluzente” (Sonetos). A primeira condição para a definição de um lugar-comum, de um cliché ou de um estereótipo é, pois, o seu uso generalizado e repetido, mesmo em situações de estilização poética. Trata-se de situações que nos levam a considerar o discurso proferido como já visto ou gasto pelo uso. Quando o lugar-comum apresenta um “facto de estilo”, perde o seu carácter depreciativo e o seu nível de banalidade, para ganhar interesse literário. Assim sugere Michael Riffaterre na apreciação crítica do cliché: “O cliché pode ser batido sem deixar de ser eficaz. Não se deve confundir banalidade com desgaste. Se fosse desgastado, o cliché perderia tanto a sua clientela como os seus inimigos, o que não é o caso. Ele não passa despercebido, pelo contrário, chama sempre a atenção sobre si.” (1973, p.155). Riffaterre distingue duas funções para o cliché: 1) como elemento constitutivo da escritura do autor; 2) como objecto de expressão que de alguma forma é exterior à escritura do autor. Como se parte do princípio de que o cliché não se distingue do lugar-comum e do estereótipo, participando da sua natureza, o importante é perceber que a sua estilização na escritura de um autor é suficiente para evitar aquele atributo que mais associamos ao cliché: a banalidade. Esta também pode ser utilizada como forma de marcar a individualidade do discurso, por exemplo, quando o autor ficciona, poetiza ou representa a linguagem ou o estilo de outro autor ou de uma outra fonte conhecida antecipadamente para a construção dos diálogos de uma personagem. Na prosa literária, o cliché é reconhecido quase sempre nesta função. Não é obrigatório que o lugar-comum, o cliché e o esterótipo representem um “desvio estilístico com relação à norma”, como os definem os dicionários de linguística. Aquela metáfora dos “cabelos de ouro” não é um desvio à norma linguística, porque não distorce nenhuma regra ou convenção. Expressões como “formigueiro humano”, “lágrimas amargas”, “lágrimas de crocodilo”, “nó na garganta”, “amigo da onça”, “livre como o ar” partem de analogias entre termos distintos para produzir um determinado efeito metafórico, que pode servir para estabelecer uma distinção subtil entre cliché e lugar-comum, embora esta distinção não seja segura. O efeito metafórico ou metonímico que preside, em geral, ao cliché não está necessariamente presente no lugar-comum. Neste sentido, expressões gastas como a abertura e o fecho de cartas (“Caro A.,…”, “Com os melhores cumprimentos,”) apresentar-se-iam como lugares comuns e não como clichés. O mesmo seria válido para certos finais felizes estereotipados de narrativas de matriz romântica. Podemos ainda considerar um factor subjectivo na análise da distinção entre lugar-comum e cliché: a intenção do locutor. Sobretudo na linguagem oral, o uso de clichés está associado a uma intenção premeditada de pretensa erudição. Neste caso, o locutor não está geralmente consciente do uso gasto do cliché, que utiliza com nítida intenção de impressionar o interlocutor. Entrariam nesta categoria clichés como “a gangrena do parlamentarismo”, “pequena elite”, “bondade excelsa”, “crime hediondo”, “as crianças pobres são almas inocentes”, “grave acidente”, “prudente reserva”, “consumado artista”, etc. R. Amossy e E. Rosen são da opinião que a diferenciação se faz ao nível discursivo: “le cliché s’en distingue principalement dans la mesure où as nature est discursive, par opposition au lieu commun qui ne se laisse pas définir au niveau verbal” (Les Discours du cliché, CDU-SEDES, Paris, 1982, p.14). Distinguir-se-á também o cliché da catacrese, porque esta pressupõe uma necessidade pragmática de enunciação que não está presente no cliché: “braço de mar” é uma expressão catacrésica por exprimir um modo de descrição de um fenómeno e não por ser uma estilização literária. As expressões idiomáticas também não devem ser confundidas com clichés: “em pé de igualdade” é uma expressão metafórica fixa na língua; “céu aberto” é também uma expressão idiomática, mas “céu azul” ou “sétimo céu” são clichés. Um estereótipo também não seria exactamente a mesma coisa que um cliché, porque se circunscreve à obra de um autor em particular ou à linguagem própria de uma dada época. A imagem barroca da Fénix Renascida não pode ser um cliché, porque na época não era entendida como expressão vulgarizada. Por outro lado, se nos apropriarmos da imagem barroca da Fénix Renascida e atribuirmos hoje este título a um novo livro de versos, por exemplo, essa expressão torna-se um cliché. Estes factos permitem-nos concluir que o cliché se afirma pela repetição ou uso contínuo de uma expressão não fixa na língua, que foi sujeita a um processo de estilização através de metáforas, metonímias ou hipérboles, para servir um dado contexto discursivo. O cliché partilha com os seus similares o facto de exigir a perda da originalidade da expressão. O estereótipo é uma expressão inalterada durante o seu uso repetido, tornando-se, portanto, lugar-comum. O termo tem aplicação técnica, dizendo respeito às impressões tipográficas em estereotipia. Não existe diferença conceptual entre estereótipo e lugar-comum, porque ambos os termos partilham as mesmas características (repetição verbal, cuja significação simbólica acaba por esgotar-se pelo uso excessivo). Podemos sim distinguir estereótipo e protótipo. Como observa Mário Vilela, “o conceito de ‘protótipo’, surgiria como representando o lado positivo do estereótipo, como o que define os valores, os tipos. E os estereótipos constituiriam a competência cultural (mais) partilhada, o denominador comum aos membros de uma sociedade: seriam os ‘caminhos já andados’ pela língua.” (“Semântica do ‘lugar-comum’”, in Sentido Que a Vida Faz: Estudos para Óscar Lopes, Campo das Letras, Porto, 1997, p.874). Assim, falaremos de protótipo em expressões como “o protótipo de um carro” (o melhor exemplar, o modelo original); falaremos de estereótipo em expressões como: “o canto do cisne” ou “pôr o preto no branco”. O traço de banalização que é notório no estereótipo e no lugar-comum não se aplica ao protótipo, que exige a condição de originalidade. Em expressões de carácter literário como “Ele é o protótipo da audácia.”, podemos aproximar o protótipo do arquétipo. Quando o estereótipo substitui, num dado contexto, uma ideia pré-estabelecida — por exemplo, os estereótipos da mulher: “mãe de família”, “dona de casa”, “submissão”, “sensibilidade”, “fragilidade física”, etc. —, seria mais correcto falar de preconceitos, porque o facto destas ideias feitas arrastarem uma certa banalização do discurso, não é suficiente para classificar com rigor a expressão estereotipada. Nestes casos, existe uma marca forte de uma determinada ideologia ou de uma ética datada e localizada, o que nos conduz para o terreno do preconceito, que vai muito além dos limites da expressão banalizada. O estereótipo está presente em muitas realizações linguísticas do quotidiano, como os provérbios, as máximas, os slogans, as fraseologias, os mitos, os paradigmas, etc. Estas formas de expressão assentam todas no acto verbal repetido, acto de que dependem para se afirmarem numa dada comunidade e se tornarem reconhecidas como tal. Porque se repetem e não alteram o significado original dos enunciados (com excepção das estilizações, por exemplo, o provérbio Mais vale só do que mal acompanhado. Foi transformado em anúncio publicitário pela Pizza Hut: Tanto vale só como bem acompanhado., que regra geral contribuem para valorizar o sentido original, mesmo que se torne um lugar-comum), todas estas formas de expressão podem ser estereotipadas.{bibliografia}Christian Plantin: Lieux communs, topoi, stéréotypes, clichés (1993); D. G. Brassart: “Stéréotype/Prototype/ Modèle”, Recherches, 10 (Stéréotypes) (1989); David Galef: “What a Cliché!”, Verbatim, 19, 3 (1993); Eric Partridge: A Dicionary of Clichés (1940); Fernando Ribeiro de Mello: Nova Recolha de Provérbios e Outros Lugares Comuns Portugueses (1974); George Amus: “Clichés, Extended and Otherwise”, SRL, vol.XXIX (1946); Georges Kleiber: La Sémantique du prototype (1990); James Rogers: The Dicionary of Clichés (1985); João Ribeiro: Frases Feitas (1908); John Guillory: “The English Common-place: Lineages of the Topographical Genre”, Critical Quarterly, nº 33-34 (1991); José Maria Lima: “A função do cliché literário no estilo de Raul Pompeia”, Revista de Letras, 25 (1985); L. D. Lerner: Clichés and Commonplaces: Essays in Criticism (1956); Mário Vilela: “Semântica do ‘lugar-comum’”, in Sentido Que a Vida Faz: Estudos para Óscar Lopes (1997); Michael Riffaterre:Essais de stylistique structurale, (1971), trad. brasileira: Estilística Estrutural (São Paulo, 1973); Nicholas Bagnall: “In Defense of Clichés”, English Today, 5 (1986); Paul Pickrel: “Identifying Clichés”, College English, 47, 3 (1985); Régine Pietra: “Lieux communs”, Littérature, 65 (1987); Ruth Amossy: Les Idées reçues. Sémiotique du stéréotype (1991); Ruth Amossy e Elisheva Rosen: Les Discours de cliché (1982); Ruth Rodak Goldfine e Gina Marie King: “Never at a Loss for Words: Why Do Clichés Live On?”, ETC, 51, 3 (1994); Songnian Wang: “A Pragmatic Study of Clichés”, Waiguoyn, 3, 79 (1992).

2009-12-30 17:20:35
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