NARRAÇÃO

Termo derivado do Latim “narratio.” Acto de narrar acontecimentos reais ou fictícios. Numa concepção clássica a narração corresponde a uma das partes da epopeia, nomeadamente à que surge depois da proposição e onde são contados os acontecimentos e os episódios mitológicos e históricos da obra. Para Aristóteles, o termo narração designa um modo de discurso específico que se interpõe entre os modos lírico e dramático.
O desenvolvimento da narratologia alargou, porém, este conceito, assim, Genett, em Discurso da Narrativa,(1972), nomeia-a de “a instância produtiva da enunciação.”
A narração implica que se enuncie os acontecimentos estabelecendo uma relação temporal entre eles. Para que uma história possa ser contada, ela deverá tomar a forma de discurso e, como tal, a narração implica uma voz (a do narrador) que o efectue e um tempo em que se expresse. Não apenas o facto narrado se afasta temporalmente do facto sucedido, mas também a voz que o enuncia é outra que a do sujeito que viveu o acontecimento. Mikhail Bakhtin, em Estética e Teoria do Romance, (1972), explica: “Se narro (ou relato por escrito) um facto que acaba de me acontecer, eu já me encontro, como “narrador” (ou escritor), fora do tempo e do espaço em que o episódio teve lugar. A identidade absoluta do meu “eu” com o “eu” de quem eu falo é tão impossível como pendurar-se alguém em si próprio pelos cabelos.” Assim, a distanciação da realidade é inerente à narração e remete para a ficção, pois uma história contada, nunca será igual àquela que realmente aconteceu, uma vez que entre as duas há o tempo e a experiência pelos quais o agente da enunciação passou, tornando-o num “outro” que não estava lá aquando do acontecimento. Deste modo, a narração requer o uso do Pretérito Perfeito, dos Pretéritos-mais-que-Perfeitos e, ou da variante estilística que é o Presente Histórico. Há, contudo, situações em que a narração pode ser anterior aos acontecimentos, no caso de premonições, sonhos, profecias de acontecimentos futuros: “The Bible says that there will be two women grinding corn – one will be taken and one will be left. There will be two in the bed.” Norman Mailer, Tough Guys don’t dance, (1984). A narração no Pretérito é, no caso das narrativas passadas no futuro, paradoxal, e segundo David Lodge, The Art of Fiction,(1992) este tempo é apenas usado para projectar a ilusão ficcional da realidade. Por ex., em Orwell, 1984. Este autor refere também o exemplo de Michael Frayn, A Very Private Life, que abre com a utilização do Futuro, “Once upon a time there will be a girl called Uncumber (…)” ainda que o seu autor tenha optado pelo uso do Presente para o resto da narrativa. Nos monólogos interiores, encontramos um protótipo de narração simultânea, pois a distância temporal entre o acto narrado e o acto da narração é nula: “(…) e ele pensou Deixei definitivamente de ser pássaro, ancorei no lodo e na lama de Aveiro como os botes sem préstimo, reduzidos ao esqueleto das travessas, comidos pelos mexilhões e pelas lula.” António Lobo Antunes, Explicação dos Pássaros (1981) onde, apesar da presença do verbo introdutor de um discurso “ele pensou”, entre a substância diegética e o acto narrativo há uma consolidação de vivências da personagem que os torna simultâneos, anulando a distância temporal entre eles e a utilização do Pretérito Perfeito Simples não remete para um tempo passado, mas sim para aquele momento interior presente. O monólogo interior pode ser ainda imitado através da técnica do discurso indirecto livre. Para que tal suceda, ele terá de expressar as emoções, as sensações, as memórias, as fantasias, as indecisões, as incertezas, os medos, os fantasmas, enfim, toda a dramatização verbal interior que constitui a consciência subjectiva do indivíduo aquando consigo mesmo. Um tal discurso terá de ser, certamente, libertado das regras temporais, usualmente, utilizadas pela narração, uma vez que o seu tempo será o psicológico, pois o discurso é colocado na consciência da personagem: “Mrs Dalloway said she would buy the flowers herself. For Lucy had her work cut out for her. The doors would be taken off their hinges; Rumperlmayer’s men were coming. And then, thought Clarissa Dalloway, what a morning – fresh as if issued to children on a beach.” Virginia Woolf, Mrs. Dalloway (1925). O narrador dá a voz à consciência da personagem, afastando-se, aproximando-se ou jogando com ela, acercando-se intimamente da personagem imitando o seu estilo e tom, de forma a (re)criar a dramatização de um monólogo interior.
A par da narração surge frequentemente a descrição, criando uma díade que convém aclarar. A narração, viu-se, é identificada, em regra, pelo recurso a determinados tempos verbais, os quais para a língua portuguesa serão os do Pretérito Perfeito, pela sua dinâmica acentuada por uma sequência de acções e limitada pela temporalidade dessas acções e pela velocidade, maior ou menor com que os eventos vão surgindo, desenvolvendo-se e dando lugar a outros. Por outras palavras, a narração afasta-se das situações estáticas. Contrariamente, a descrição incide sobre objectos narrativamente inanimados, e.g., Andy Warhol filmando Joe d’Alessandro, The Sleep, dormindo durante três horas. Os objectos das descrições, dentro da narrativa, funcionam, normalmente, como cenário de uma acção no devir temporal e estão destituídos da transitoriedade das acções acabadas ou em progressão, por isso, o recurso ao Pretérito Imperfeito para consolidar essa intemporalidade. Contudo, é este factor intemporal que dá maior ou menor ênfase ao evento que a interrompe ou que lhe sucede e que contribui para efeitos como os de suspense, de surpresa, ou de integração, entre outros. Assim, a descrição é, funcionalmente, o décorum para a realização do evento. Por outro lado, a díade narração/descrição é inseparável, ela é um ser híbrido, vegetal e animal, que pertence às belas letras e que se completa em si mesma, não surtindo o efeito estético se for separado em diferentes segmentos: “He pointed to his boots which were white with dust, while a dejected flower drooping in his buttonhole, like an exhausted animal over a gate, added to the effect of length and untidiness. He was introduced to the others. Mr. Hewet and Mr. Hirst brought chairs, and tea began again.” Virginia Woolf, The Voyage Out, (1915).
{bibliografia}
David Lodge, The Art of Fiction (1992); – – – – – The Novel and the Consciousness, 2002; Gérard Genett, Discurso da Narrativa, (1972); Jean-Michel Adam e Françoise Revaz, A Análise da Narrativa, 1991; J. Pelc: “On the concept of narration”, Sémiotica, 1, 1971.

NARRADOR, NARRATIVA, NARRATOLOGIA
NARRAÇÃO

Termo derivado do Latim “narratio.” Acto de narrar acontecimentos reais ou fictícios. Numa concepção clássica a narração corresponde a uma das partes da epopeia, nomeadamente à que surge depois da proposição e onde são contados os acontecimentos e os episódios mitológicos e históricos da obra. Para Aristóteles, o termo narração designa um modo de discurso específico que se interpõe entre os modos lírico e dramático.
O desenvolvimento da narratologia alargou, porém, este conceito, assim, Genett, em Discurso da Narrativa,(1972), nomeia-a de “a instância produtiva da enunciação.”
A narração implica que se enuncie os acontecimentos estabelecendo uma relação temporal entre eles. Para que uma história possa ser contada, ela deverá tomar a forma de discurso e, como tal, a narração implica uma voz (a do narrador) que o efectue e um tempo em que se expresse. Não apenas o facto narrado se afasta temporalmente do facto sucedido, mas também a voz que o enuncia é outra que a do sujeito que viveu o acontecimento. Mikhail Bakhtin, em Estética e Teoria do Romance, (1972), explica: “Se narro (ou relato por escrito) um facto que acaba de me acontecer, eu já me encontro, como “narrador” (ou escritor), fora do tempo e do espaço em que o episódio teve lugar. A identidade absoluta do meu “eu” com o “eu” de quem eu falo é tão impossível como pendurar-se alguém em si próprio pelos cabelos.” Assim, a distanciação da realidade é inerente à narração e remete para a ficção, pois uma história contada, nunca será igual àquela que realmente aconteceu, uma vez que entre as duas há o tempo e a experiência pelos quais o agente da enunciação passou, tornando-o num “outro” que não estava lá aquando do acontecimento. Deste modo, a narração requer o uso do Pretérito Perfeito, dos Pretéritos-mais-que-Perfeitos e, ou da variante estilística que é o Presente Histórico. Há, contudo, situações em que a narração pode ser anterior aos acontecimentos, no caso de premonições, sonhos, profecias de acontecimentos futuros: “The Bible says that there will be two women grinding corn – one will be taken and one will be left. There will be two in the bed.” Norman Mailer, Tough Guys don’t dance, (1984). A narração no Pretérito é, no caso das narrativas passadas no futuro, paradoxal, e segundo David Lodge, The Art of Fiction,(1992) este tempo é apenas usado para projectar a ilusão ficcional da realidade. Por ex., em Orwell, 1984. Este autor refere também o exemplo de Michael Frayn, A Very Private Life, que abre com a utilização do Futuro, “Once upon a time there will be a girl called Uncumber (…)” ainda que o seu autor tenha optado pelo uso do Presente para o resto da narrativa. Nos monólogos interiores, encontramos um protótipo de narração simultânea, pois a distância temporal entre o acto narrado e o acto da narração é nula: “(…) e ele pensou Deixei definitivamente de ser pássaro, ancorei no lodo e na lama de Aveiro como os botes sem préstimo, reduzidos ao esqueleto das travessas, comidos pelos mexilhões e pelas lula.” António Lobo Antunes, Explicação dos Pássaros (1981) onde, apesar da presença do verbo introdutor de um discurso “ele pensou”, entre a substância diegética e o acto narrativo há uma consolidação de vivências da personagem que os torna simultâneos, anulando a distância temporal entre eles e a utilização do Pretérito Perfeito Simples não remete para um tempo passado, mas sim para aquele momento interior presente. O monólogo interior pode ser ainda imitado através da técnica do discurso indirecto livre. Para que tal suceda, ele terá de expressar as emoções, as sensações, as memórias, as fantasias, as indecisões, as incertezas, os medos, os fantasmas, enfim, toda a dramatização verbal interior que constitui a consciência subjectiva do indivíduo aquando consigo mesmo. Um tal discurso terá de ser, certamente, libertado das regras temporais, usualmente, utilizadas pela narração, uma vez que o seu tempo será o psicológico, pois o discurso é colocado na consciência da personagem: “Mrs Dalloway said she would buy the flowers herself. For Lucy had her work cut out for her. The doors would be taken off their hinges; Rumperlmayer’s men were coming. And then, thought Clarissa Dalloway, what a morning – fresh as if issued to children on a beach.” Virginia Woolf, Mrs. Dalloway (1925). O narrador dá a voz à consciência da personagem, afastando-se, aproximando-se ou jogando com ela, acercando-se intimamente da personagem imitando o seu estilo e tom, de forma a (re)criar a dramatização de um monólogo interior.
A par da narração surge frequentemente a descrição, criando uma díade que convém aclarar. A narração, viu-se, é identificada, em regra, pelo recurso a determinados tempos verbais, os quais para a língua portuguesa serão os do Pretérito Perfeito, pela sua dinâmica acentuada por uma sequência de acções e limitada pela temporalidade dessas acções e pela velocidade, maior ou menor com que os eventos vão surgindo, desenvolvendo-se e dando lugar a outros. Por outras palavras, a narração afasta-se das situações estáticas. Contrariamente, a descrição incide sobre objectos narrativamente inanimados, e.g., Andy Warhol filmando Joe d’Alessandro, The Sleep, dormindo durante três horas. Os objectos das descrições, dentro da narrativa, funcionam, normalmente, como cenário de uma acção no devir temporal e estão destituídos da transitoriedade das acções acabadas ou em progressão, por isso, o recurso ao Pretérito Imperfeito para consolidar essa intemporalidade. Contudo, é este factor intemporal que dá maior ou menor ênfase ao evento que a interrompe ou que lhe sucede e que contribui para efeitos como os de suspense, de surpresa, ou de integração, entre outros. Assim, a descrição é, funcionalmente, o décorum para a realização do evento. Por outro lado, a díade narração/descrição é inseparável, ela é um ser híbrido, vegetal e animal, que pertence às belas letras e que se completa em si mesma, não surtindo o efeito estético se for separado em diferentes segmentos: “He pointed to his boots which were white with dust, while a dejected flower drooping in his buttonhole, like an exhausted animal over a gate, added to the effect of length and untidiness. He was introduced to the others. Mr. Hewet and Mr. Hirst brought chairs, and tea began again.” Virginia Woolf, The Voyage Out, (1915).
{bibliografia}
David Lodge, The Art of Fiction (1992); – – – – – The Novel and the Consciousness, 2002; Gérard Genett, Discurso da Narrativa, (1972); Jean-Michel Adam e Françoise Revaz, A Análise da Narrativa, 1991; J. Pelc: “On the concept of narration”, Sémiotica, 1, 1971.

2009-12-24 07:09:31
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