NARRADOR

NARRADOR

Deriva do vocábulo latino “narro” que significa “dar a conhecer”, “tornar conhecido”, o qual provém do adjectivo “gnarus”, que significa “sabedor”, “que conhece”. Por sua vez, “gnarus” está relacionado com o verbo “gnosco”, lexema derivado da raiz sânscrita “gnâ” que significa “conhecer”. O narrador é a instância da narrativa que transmite um conhecimento, narrando-o. Qualquer pessoa que conta uma história é um narrador.
Platão e Aristóteles distinguem três tipos de narrador: o orador ou poeta que usa a sua própria voz; alguém que assume a voz de uma ou mais pessoas que não a sua e que fala pela voz delas; alguém que usa uma mistura da sua própria voz com a de outras.
Alguém que conte uma história pode iniciá-la com a sua voz; depois poderá apresentar um narrador que vai continuar a narração, o qual, poderá apresentar outras personagens que também irão contar outras histórias. Neste caso estamos em presença de uma Rahmenerzählung, ou narrativa enquadrada, Marlow, que narra a viagem pelo Congo em Coração das Trevas, foi antes apresentado pelo primeiro narrador da obra; As Mil e uma Noites é a narrativa paradigmática da “história dentro da história”.
O narrador faz parte da narrativa. Ele assume a função de um actor na diegese, pode apresentar-se sob a forma do pronome pessoal “eu”, “I am always drawn back to places where I have lived, the houses and their neighborhoods (…) during the early years of war, I had my first New York apartment (…)” Truman Capote, Breakfast at Tiffany’s, (1958); adaptar a identidade de um nome próprio, “Call me Ishmael. Some years ago – never mind how long precisely – having little or no money in y purse, and nothing particular to interest me on shore, I thought (…) Herman Melville, Moby Dick, (1851); ou manter uma mera voz narrativa, como no caso dos contos populares em que a voz do narrador se faz sentir através da simplicidade de “Era uma vez uma bela princesa que vivia (…). Em qualquer dos casos, trata-se de um sujeito com existência textual, “ser de papel”, como lhe chamou Barthes, e tem como função relatar eventos que constituem as alterações de estados sofridas por agentes antropomórficos, ou não, e situados no espaço empírico da narrativa. As funções do narrador vão para além do acto de enunciação e, visto que ele é o protagonista da narração, a sua voz pode ser percebida através de intrusões que remetam para uma ideologia, “A Pátria chama os seus filhos, ouve-se a voz da Pátria a chamar, a chamar, e tu que até hoje nada mereceste, nem o pão para a fome que tens, nem o remédio para a doença que te tem (…) a partir de agora não podes fugir, a Pátria olha-te fixamente, hipnotiza-te (…)” José Saramago, Levantado do Chão, (1980); pode também produzir considerações e suposições sobre os eventos relatados,”E já agora, que sabiamente me afastei do assunto, é de aproveitar para debitar uns esclarecimentos sobre a revista Reflex (…)” Mário de Carvalho, Era bom que trocássemos umas Ideias sobre o Assunto, (1995); ou sobre as personagens da narrativa, “Que um homem dos subúrbios de Buenos Aires, que um triste “compadrito”, sem outras qualidades além da enfatuação da coragem, se interne nos desertos equestres da fronteira com o Brasil e chegue a capitão de contrabandistas, parece de antemão impossível (…)” Jorge Luís Borges, O Morto, in O Aleph, (1976). Assim, segundo David Lodge, The Art of Fiction, (1992) a voz do narrador impõe-se de forma intrusa e poderá transformar o acto de escrever numa conversa íntima com o leitor, convidando-o a passar ao átrio da narrativa: “This is what I undertake to do for you, reader. With this drop of ink at the end of my pen, I will show you the roomy workshop of Jonathan Burge, carpenter and builder in the village of Hayslope, as it appeared on the 18th of June, in the year of Our Lord, 1799.” George Eliot, Adam Bede, (1859). Um outro tipo de intrusão do narrador é o de chamar a atenção do leitor para o próprio acto de leitura, “- How could you, Madam, be so inattentive in reading the last chapter? I told you in it, That my mother was not a papist. – Papist!” Laurence Stern, Tristram Shandy, (1767). Tristram Shandy, como narrador intruso, relembra o leitor que a narrativa é uma obra de ficção, ao mesmo tempo que aponta as discrepâncias entre a ficção e a realidade que ele simula ou aparenta representar.
Gerard Genette em Discurso da Narrativa, (1972), distingue vários tipos de narrador, mediante o seu lugar na diegese: narrador autodiegético, i.é, aquele que narra as suas próprias experiências como personagem central dessa história, e.g., o narrador de, Jack Kerouac, em On the Road, (1957), relata na primeira pessoa as aventuras dele e dos seus companheiros nas suas viagens pelo continente norte-americano; narrador homodiegético, isto é, aquele que não sendo personagem principal da história, é ele que narra os acontecimentos a ela inerentes, por ex., o narrador de, Eça de Queroz, A Cidade e as Serras; narrador heterodiegético, ou seja, aquele que não fazendo parte da história, a narra, por ex., Gore Vidal, The Smithsonian Institution, (1999).
Alguns autores classificam o sujeito narrador em dois tipos, a saber, narrador na primeira pessoa e narrador na terceira pessoa. Opondo-se a esta classificação, Mieke Bal, Narratology: Introduction to the Theory of Narrative, (1998), diz que durante o acto de narrar, o narrador pode optar pela primeira ou terceira pessoa. Contudo, considera que em qualquer dos casos tanto a primeira como a terceira pessoa são ambas “eu”, pois ainda que a narrativa esteja na terceira pessoa, o discurso narrativo poderia ser sempre precedido por “Eu narro:” Além disso, o uso da linguagem implica a existência de um locutor que articule, e esse locutor terá de ser, forçosamente, um “eu”. Relativamente ao seu lugar na narrativa, este autor considera dois tipos de narrador: o “narrador externo” e o “narrador personagem”, conforme se situam dentro ou fora da história. Bal considera ainda funções do narrador, os aspectos segmentais que incluem descrições , ainda que estes possam aparentar uma importância marginal nos textos narrativos.
{bibliografia}
David Lodge, “The Intrusive Author” in The Art of Fiction, 1992; Gérard Genette, O Discurso da Narrativa; Jean-Michel Adam e Françoise Revaz, A Análise da Narrativa, 1997; Mieke Bal, Narratology: Introduction to the Theory of Narrative, 1998; Vitor Manuel de Aguiar e Silva, Teoria da Literatura, 1988.

NARRAÇÃO, NARRADOR, NARRATIVA, NARRATOLOGIA
NARRADOR

Deriva do vocábulo latino “narro” que significa “dar a conhecer”, “tornar conhecido”, o qual provém do adjectivo “gnarus”, que significa “sabedor”, “que conhece”. Por sua vez, “gnarus” está relacionado com o verbo “gnosco”, lexema derivado da raiz sânscrita “gnâ” que significa “conhecer”. O narrador é a instância da narrativa que transmite um conhecimento, narrando-o. Qualquer pessoa que conta uma história é um narrador.
Platão e Aristóteles distinguem três tipos de narrador: o orador ou poeta que usa a sua própria voz; alguém que assume a voz de uma ou mais pessoas que não a sua e que fala pela voz delas; alguém que usa uma mistura da sua própria voz com a de outras.
Alguém que conte uma história pode iniciá-la com a sua voz; depois poderá apresentar um narrador que vai continuar a narração, o qual, poderá apresentar outras personagens que também irão contar outras histórias. Neste caso estamos em presença de uma Rahmenerzählung, ou narrativa enquadrada, Marlow, que narra a viagem pelo Congo em Coração das Trevas, foi antes apresentado pelo primeiro narrador da obra; As Mil e uma Noites é a narrativa paradigmática da “história dentro da história”.
O narrador faz parte da narrativa. Ele assume a função de um actor na diegese, pode apresentar-se sob a forma do pronome pessoal “eu”, “I am always drawn back to places where I have lived, the houses and their neighborhoods (…) during the early years of war, I had my first New York apartment (…)” Truman Capote, Breakfast at Tiffany’s, (1958); adaptar a identidade de um nome próprio, “Call me Ishmael. Some years ago – never mind how long precisely – having little or no money in y purse, and nothing particular to interest me on shore, I thought (…) Herman Melville, Moby Dick, (1851); ou manter uma mera voz narrativa, como no caso dos contos populares em que a voz do narrador se faz sentir através da simplicidade de “Era uma vez uma bela princesa que vivia (…). Em qualquer dos casos, trata-se de um sujeito com existência textual, “ser de papel”, como lhe chamou Barthes, e tem como função relatar eventos que constituem as alterações de estados sofridas por agentes antropomórficos, ou não, e situados no espaço empírico da narrativa. As funções do narrador vão para além do acto de enunciação e, visto que ele é o protagonista da narração, a sua voz pode ser percebida através de intrusões que remetam para uma ideologia, “A Pátria chama os seus filhos, ouve-se a voz da Pátria a chamar, a chamar, e tu que até hoje nada mereceste, nem o pão para a fome que tens, nem o remédio para a doença que te tem (…) a partir de agora não podes fugir, a Pátria olha-te fixamente, hipnotiza-te (…)” José Saramago, Levantado do Chão, (1980); pode também produzir considerações e suposições sobre os eventos relatados,”E já agora, que sabiamente me afastei do assunto, é de aproveitar para debitar uns esclarecimentos sobre a revista Reflex (…)” Mário de Carvalho, Era bom que trocássemos umas Ideias sobre o Assunto, (1995); ou sobre as personagens da narrativa, “Que um homem dos subúrbios de Buenos Aires, que um triste “compadrito”, sem outras qualidades além da enfatuação da coragem, se interne nos desertos equestres da fronteira com o Brasil e chegue a capitão de contrabandistas, parece de antemão impossível (…)” Jorge Luís Borges, O Morto, in O Aleph, (1976). Assim, segundo David Lodge, The Art of Fiction, (1992) a voz do narrador impõe-se de forma intrusa e poderá transformar o acto de escrever numa conversa íntima com o leitor, convidando-o a passar ao átrio da narrativa: “This is what I undertake to do for you, reader. With this drop of ink at the end of my pen, I will show you the roomy workshop of Jonathan Burge, carpenter and builder in the village of Hayslope, as it appeared on the 18th of June, in the year of Our Lord, 1799.” George Eliot, Adam Bede, (1859). Um outro tipo de intrusão do narrador é o de chamar a atenção do leitor para o próprio acto de leitura, “- How could you, Madam, be so inattentive in reading the last chapter? I told you in it, That my mother was not a papist. – Papist!” Laurence Stern, Tristram Shandy, (1767). Tristram Shandy, como narrador intruso, relembra o leitor que a narrativa é uma obra de ficção, ao mesmo tempo que aponta as discrepâncias entre a ficção e a realidade que ele simula ou aparenta representar.
Gerard Genette em Discurso da Narrativa, (1972), distingue vários tipos de narrador, mediante o seu lugar na diegese: narrador autodiegético, i.é, aquele que narra as suas próprias experiências como personagem central dessa história, e.g., o narrador de, Jack Kerouac, em On the Road, (1957), relata na primeira pessoa as aventuras dele e dos seus companheiros nas suas viagens pelo continente norte-americano; narrador homodiegético, isto é, aquele que não sendo personagem principal da história, é ele que narra os acontecimentos a ela inerentes, por ex., o narrador de, Eça de Queroz, A Cidade e as Serras; narrador heterodiegético, ou seja, aquele que não fazendo parte da história, a narra, por ex., Gore Vidal, The Smithsonian Institution, (1999).
Alguns autores classificam o sujeito narrador em dois tipos, a saber, narrador na primeira pessoa e narrador na terceira pessoa. Opondo-se a esta classificação, Mieke Bal, Narratology: Introduction to the Theory of Narrative, (1998), diz que durante o acto de narrar, o narrador pode optar pela primeira ou terceira pessoa. Contudo, considera que em qualquer dos casos tanto a primeira como a terceira pessoa são ambas “eu”, pois ainda que a narrativa esteja na terceira pessoa, o discurso narrativo poderia ser sempre precedido por “Eu narro:” Além disso, o uso da linguagem implica a existência de um locutor que articule, e esse locutor terá de ser, forçosamente, um “eu”. Relativamente ao seu lugar na narrativa, este autor considera dois tipos de narrador: o “narrador externo” e o “narrador personagem”, conforme se situam dentro ou fora da história. Bal considera ainda funções do narrador, os aspectos segmentais que incluem descrições , ainda que estes possam aparentar uma importância marginal nos textos narrativos.
{bibliografia}
David Lodge, “The Intrusive Author” in The Art of Fiction, 1992; Gérard Genette, O Discurso da Narrativa; Jean-Michel Adam e Françoise Revaz, A Análise da Narrativa, 1997; Mieke Bal, Narratology: Introduction to the Theory of Narrative, 1998; Vitor Manuel de Aguiar e Silva, Teoria da Literatura, 1988.

2009-12-24 07:12:03
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