ECOCRÍTICA

A Ecocrítica, de um ponto de vista etimológico, nasceu da junção de duas palavras – “Ecologia” e “Crítica”, tendo sido referida pela primeira vez num artigo de 1978 por William Rueckert, em que o autor tentou uma aproximação ecológica ao fenómeno literário. A sua inclusão oficial como novo ramo dos estudos de literatura foi anunciado com a publicação, em 1996, do primeiro volume de artigos sobre o assunto (um reader que ainda serve de vade mecum).
A análise ecocrítica de um texto pretende, de certa forma, dar voz a uma coisa silenciada – a natureza e o mundo exterior. Isto só foi possível acontecer com o advento dos estudos pós-estruturalistas e em particular dos estudos culturais, dos quais muitas abordagens mais descentralizadas nasceram (os estudos pós-coloniais, os estudos de género, entre outros). É uma perspectiva que deixa assim de ser homocêntrica, para ser ecocêntrica, o que implica uma abordagem completamente diferente, porque privilegiando o contrário. O que está em questão é o lugar do que está exterior ao autor e de que maneira este “informa o “texto” produzido, de que forma influencia a forma de o ver.
Assim, mais do que a pessoa que o escreve e a sua intenção, o que importa num estudo ecocrítico é sobretudo o lugar e o contexto da escrita, por onde ele passa. É o que diz Peter Barry, no seu Beginning Theory – An Introduction to Literary and Cultural Theory:
For the ecocritic, nature really exists, out there beyond ourselves, not needing to be ironised as a concept by enclosure within knowing inverted commas, but actually present as an “entity” which affects us, and which we can affect, perhaps fatally, if we mistreat it. Nature, then, isn’t reducible to a concept which we conceive as part of our culturalpractice.
(2009: 252)
Para além disso, se atendermos mais de perto à etimologia da palavra “eco”, ela remete-nos para o de “casa”, do grego “oikos”, e encontramos a essência deste novo paradigma dos estudos literários – é sobretudo da relação do homem com o seu meio, seja qual for o tipo de relação estabelecida, que se deixa entrever a partir de uma perspectiva ecocêntrica no texto literário. Desta forma, podemos falar de uma perspectiva mais ou menos comprometida para com o meio ambiente, por parte de quem escreve. Tal como na defesa do ambiente e na ecologia, podemos verificar, nos estudos ecocríticos, uma tomada de posição mais assertiva, que poderíamos denominar de “deep ecocriticism” ou, caso apenas se trate de uma alusão ou de uma referência mais velada, “shallow ecocriticism”.
No que toca aos temas da “poesia ecológica” será útil ver o artigo de James Engelhardt intitulado “The language habitat: na Ecopoetry manifesto”. Quer o título do manifesto, quer a sua frase inicial deixam entrever, ab ovo, que o que preocupa a esta poesia, de uma forma geral, é a conexão doexterior com o poeta – “Ecopoetry as connection”, sendo esta o “habitat da linguagem”.
Assim, o autor desenvolve este conceito inicialmente, vendo essa conexão do escritor com o mundo como natural, partindo do pressuposto que “we can only speak from a bodied connection to the world”. O enfoque, desta forma, da teoria ecocrítica, terá passar por todos os motivos que encontramos na natureza – não só os elementos que compõem o planeta, a sua fauna e a sua flora, como também assuntos tão abstractos como o espaço celeste e tudo o que o caracteriza. No entanto, e isso está expresso nesta afirmação, a forma como experienciamos isso parte sempre do nosso próprio corpo, pelo que este é um outro tema bastante caro à ecocrítica. Em último lugar, e como perspectiva que privilegia o lugar, a ascendência e tudo aquilo que nos é primordialmente intrínseco e identitário fazem também parte da nossa conexão com o exterior. As famílias são o primeiro exemplo disso mesmo – “Families form culture, they connect us to culture, they are where culture begins […] the ecopoem must connect to the culture and society that it inhabits”.
A Ecocrítica refere-se, num sentido lato, a qualquer produção cultural do homem (filmes, livros, quadros) e à sua relação com ele, com o mundo exterior, e tomando uma posição de responsabilidade sobre tudo aquilo que lhe é deixado e tudo aquilo que ele produz. Assim participa da teia cultural que nos forma e enforma, não esquecendo a própria alusão que o simples termo “texto” faz em relação à natureza – a teia.
Nesta teia de nomes, textos e vozes que é a própria história da literatura, a preocupação da Ecocrítica é igualmente a de manter os textos presos aos lugares e espaços de onde surgiram. Paralelamente, a perspectiva ecocrítica é útil aos estudos literários porque esta parece eliminar-lhe um pouco dessa aridez que muitas teorias literárias podem conter em si. É o que diz John Elder logo no prefácio a Ecopoetry:
One of the greatest advantages of na ecological approach to poetry may in fact be that it releases us from the fractiousness of the prevailing scholarly culture. Sometimes academic discourse can feel like a conversation doomed to be carried out in rebukes and thus to have limited prospects for mutual understanding and growth […] (2002: x)
Podemos concluir propondo assim que a Ecocrítica traduz a importância do lugar e do contexto de produção e recepção, mais do que a posição ética que a junção das duas palavras implica, e que já vimos. O que esta abordagem toma, então, é uma abrangência de perspectivas, não estamos efectivamente perante um novo paradigma da teoria da literatura. E a novidade está também aqui – a leitura dos textos não se reduz a condicionalismos linguísticos/históricos nem a paradigmas metodológicos parciais de uma disciplina. O que a metodologia ecocrítica faz é condensar numa só as metodologias das diversas disciplinas como é o caso da ciência literária e das diversas ciências exactas, analisando o fenómeno literário nesta perspectiva.
Assim, verificamos, com a Ecocrítica, a famosa afirmação de Lavoisier: “Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.”
{bibliografia}
BARRY, Peter. “Ecocriticism”, in Beginning Theory: An Introduction to Literary and Cultural Theory. 3ª ed. Manchester: Manchester UP, 2009.
BRYSON, J. Scott, Ecopoetry – A critical introduction, Utah, The Univ. of Utah Press, 2002
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______________, Writing for an Endangered World: Literature, Culture, and Environment in the U.S. and Beyond, Cambridge, MA and London, England: The Belknap Press of Harvard University Press, 2001.
COUPE, Lawrence, ed., The Green Studies Reader: From Romanticism to Ecocriticism. London: Routledge, 2000.
GARRARD, Greg, Ecocriticism. New York: Routledge, 2004.
GLOTFELTY, Cheryll and Harold Fromm (Eds). The Ecocriticism Reader: Landmarks in Literary Ecology. Athens and London: University of Georgia, 1996.
GOMIDES, Camilo. ‘Putting a New Definition of Ecocriticism to the Test: The Case of The Burning Season, a film (mal)Adaptation”, in ISLE 13.1 (2006): 13-23.
HEISE, Ursula K. “Greening English: Recent Introductions to Ecocriticism.” in Contemporary Literature 47.2 (2006): 289–298.
KROEBER, Karl. Ecological Literary Criticism: Romantic Imagining and the Biology of Mind. New York: Columbia UP, 1994.
MARX, Leo. The Machine in the Garden: Technology and the Pastoral Ideal in America. Oxford: Oxford University Press, 1964.
McKUSICK, James C. Green Writing: Romanticism and Ecology. New York: St. Martin’s, 2000.
MOORE, Bryan L. Ecology and Literature: Ecocentric Personification from Antiquity to the Twenty-first Century, New York: Palgrave Macmillan, 2008.
PHILLIPS, Dana. The Truth of Ecology: Nature, Culture, and Literature in America, Oxford: Oxford University Press, 2003.
RUECKERT, William. “Literature and Ecology: An Experiment in Ecocriticism.” Iowa Review 9.1 (1978): 71-86.
ROJAS PÉREZ, Walter. La ecocrítica hoy. San José, Costa Rica: Aire Moderno, 2004.
SELVAMONY, Nirmal, Nirmaldasan & Rayson K. Alex. Essays in Ecocriticism. Delhi: Sarup and Sons and OSLE-India, 2008.
SLOVIC, Scott. Seeking Awareness in American Nature Writing: Henry Thoreau, Annie Dillard, Edward Abbey, Wendell Berry, Barry Lopez, Salt Lake City, UT: University of Utah Press, 1992.
ZAPF, Hubert. “Literary Ecology and the Ethics of Texts.” in New Literary History 39.4 (2008): 847-868.
LINKS
ENGELHARDT, James, “The language habitat: na Ecopoetry manifesto” in http://www.octopusmagazine.com/issue09/engelhardt.htm
Isle: Interdisciplinary Studies in Literature and the Environment <http://isle.oxfordjournals.org/>
Journal of Ecocriticism <http://ojs.unbc.ca/index.php/joe/index>
Ecozon@: European Journal of Literature, Culture and Environment <http://ojs.unbc.ca/index.php/joe/index>

 

ECOCRÍTICA

A Ecocrítica, de um ponto de vista etimológico, nasceu da junção de duas palavras – “Ecologia” e “Crítica”, tendo sido referida pela primeira vez num artigo de 1978 por William Rueckert, em que o autor tentou uma aproximação ecológica ao fenómeno literário. A sua inclusão oficial como novo ramo dos estudos de literatura foi anunciado com a publicação, em 1996, do primeiro volume de artigos sobre o assunto (um reader que ainda serve de vade mecum).
A análise ecocrítica de um texto pretende, de certa forma, dar voz a uma coisa silenciada – a natureza e o mundo exterior. Isto só foi possível acontecer com o advento dos estudos pós-estruturalistas e em particular dos estudos culturais, dos quais muitas abordagens mais descentralizadas nasceram (os estudos pós-coloniais, os estudos de género, entre outros). É uma perspectiva que deixa assim de ser homocêntrica, para ser ecocêntrica, o que implica uma abordagem completamente diferente, porque privilegiando o contrário. O que está em questão é o lugar do que está exterior ao autor e de que maneira este “informa o “texto” produzido, de que forma influencia a forma de o ver.
Assim, mais do que a pessoa que o escreve e a sua intenção, o que importa num estudo ecocrítico é sobretudo o lugar e o contexto da escrita, por onde ele passa. É o que diz Peter Barry, no seu Beginning Theory – An Introduction to Literary and Cultural Theory:
For the ecocritic, nature really exists, out there beyond ourselves, not needing to be ironised as a concept by enclosure within knowing inverted commas, but actually present as an “entity” which affects us, and which we can affect, perhaps fatally, if we mistreat it. Nature, then, isn’t reducible to a concept which we conceive as part of our culturalpractice.
(2009: 252)
Para além disso, se atendermos mais de perto à etimologia da palavra “eco”, ela remete-nos para o de “casa”, do grego “oikos”, e encontramos a essência deste novo paradigma dos estudos literários – é sobretudo da relação do homem com o seu meio, seja qual for o tipo de relação estabelecida, que se deixa entrever a partir de uma perspectiva ecocêntrica no texto literário. Desta forma, podemos falar de uma perspectiva mais ou menos comprometida para com o meio ambiente, por parte de quem escreve. Tal como na defesa do ambiente e na ecologia, podemos verificar, nos estudos ecocríticos, uma tomada de posição mais assertiva, que poderíamos denominar de “deep ecocriticism” ou, caso apenas se trate de uma alusão ou de uma referência mais velada, “shallow ecocriticism”.
No que toca aos temas da “poesia ecológica” será útil ver o artigo de James Engelhardt intitulado “The language habitat: na Ecopoetry manifesto”. Quer o título do manifesto, quer a sua frase inicial deixam entrever, ab ovo, que o que preocupa a esta poesia, de uma forma geral, é a conexão doexterior com o poeta – “Ecopoetry as connection”, sendo esta o “habitat da linguagem”.
Assim, o autor desenvolve este conceito inicialmente, vendo essa conexão do escritor com o mundo como natural, partindo do pressuposto que “we can only speak from a bodied connection to the world”. O enfoque, desta forma, da teoria ecocrítica, terá passar por todos os motivos que encontramos na natureza – não só os elementos que compõem o planeta, a sua fauna e a sua flora, como também assuntos tão abstractos como o espaço celeste e tudo o que o caracteriza. No entanto, e isso está expresso nesta afirmação, a forma como experienciamos isso parte sempre do nosso próprio corpo, pelo que este é um outro tema bastante caro à ecocrítica. Em último lugar, e como perspectiva que privilegia o lugar, a ascendência e tudo aquilo que nos é primordialmente intrínseco e identitário fazem também parte da nossa conexão com o exterior. As famílias são o primeiro exemplo disso mesmo – “Families form culture, they connect us to culture, they are where culture begins […] the ecopoem must connect to the culture and society that it inhabits”.
A Ecocrítica refere-se, num sentido lato, a qualquer produção cultural do homem (filmes, livros, quadros) e à sua relação com ele, com o mundo exterior, e tomando uma posição de responsabilidade sobre tudo aquilo que lhe é deixado e tudo aquilo que ele produz. Assim participa da teia cultural que nos forma e enforma, não esquecendo a própria alusão que o simples termo “texto” faz em relação à natureza – a teia.
Nesta teia de nomes, textos e vozes que é a própria história da literatura, a preocupação da Ecocrítica é igualmente a de manter os textos presos aos lugares e espaços de onde surgiram. Paralelamente, a perspectiva ecocrítica é útil aos estudos literários porque esta parece eliminar-lhe um pouco dessa aridez que muitas teorias literárias podem conter em si. É o que diz John Elder logo no prefácio a Ecopoetry:
One of the greatest advantages of na ecological approach to poetry may in fact be that it releases us from the fractiousness of the prevailing scholarly culture. Sometimes academic discourse can feel like a conversation doomed to be carried out in rebukes and thus to have limited prospects for mutual understanding and growth […] (2002: x)
Podemos concluir propondo assim que a Ecocrítica traduz a importância do lugar e do contexto de produção e recepção, mais do que a posição ética que a junção das duas palavras implica, e que já vimos. O que esta abordagem toma, então, é uma abrangência de perspectivas, não estamos efectivamente perante um novo paradigma da teoria da literatura. E a novidade está também aqui – a leitura dos textos não se reduz a condicionalismos linguísticos/históricos nem a paradigmas metodológicos parciais de uma disciplina. O que a metodologia ecocrítica faz é condensar numa só as metodologias das diversas disciplinas como é o caso da ciência literária e das diversas ciências exactas, analisando o fenómeno literário nesta perspectiva.
Assim, verificamos, com a Ecocrítica, a famosa afirmação de Lavoisier: “Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.”
{bibliografia}
BARRY, Peter. “Ecocriticism”, in Beginning Theory: An Introduction to Literary and Cultural Theory. 3ª ed. Manchester: Manchester UP, 2009.
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COUPE, Lawrence, ed., The Green Studies Reader: From Romanticism to Ecocriticism. London: Routledge, 2000.
GARRARD, Greg, Ecocriticism. New York: Routledge, 2004.
GLOTFELTY, Cheryll and Harold Fromm (Eds). The Ecocriticism Reader: Landmarks in Literary Ecology. Athens and London: University of Georgia, 1996.
GOMIDES, Camilo. ‘Putting a New Definition of Ecocriticism to the Test: The Case of The Burning Season, a film (mal)Adaptation”, in ISLE 13.1 (2006): 13-23.
HEISE, Ursula K. “Greening English: Recent Introductions to Ecocriticism.” in Contemporary Literature 47.2 (2006): 289–298.
KROEBER, Karl. Ecological Literary Criticism: Romantic Imagining and the Biology of Mind. New York: Columbia UP, 1994.
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McKUSICK, James C. Green Writing: Romanticism and Ecology. New York: St. Martin’s, 2000.
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ZAPF, Hubert. “Literary Ecology and the Ethics of Texts.” in New Literary History 39.4 (2008): 847-868.
LINKS
ENGELHARDT, James, “The language habitat: na Ecopoetry manifesto” in http://www.octopusmagazine.com/issue09/engelhardt.htm
Isle: Interdisciplinary Studies in Literature and the Environment <http://isle.oxfordjournals.org/>
Journal of Ecocriticism <http://ojs.unbc.ca/index.php/joe/index>
Ecozon@: European Journal of Literature, Culture and Environment <http://ojs.unbc.ca/index.php/joe/index>

 

2012-03-11 23:54:41
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