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CACOETE
CACOETE
CACOETE

Pela etimologia (do gr. kakoethes, pelo latim cacoethes), um cacoete refere-se a um mau hábito físico ou moral. Pode-se dizer também da palavra ou expressão espúria que se torna comum no discurso de alguém, que a repete sem atender à sua adequação ao discurso e ao contexto. Por outro lado, também se pode aplicar à recorrência de certas formas lexicais que abundam na obra de um autor, sobretudo quando têm uma função crítica para denunciar trejeitos ou peculiaridades de certas personagens. Por exemplo, é conhecida a apetência de Eça de Queirós pelo uso do superlativo para parodiar certas personagens, quando sabemos que tal uso havia sido privilegiado pelo romantismo como forma de expressão do sublime: em A Relíquia, por exemplo, encontramos o “torpíssimo padre Negrão”, “uma espanhola deleitosíssima”, o “sapientíssimo Topsius”, o “humaníssimo Topsius”, o “misérrimo Raposo”, “o pelintríssimo Raposo”, “a minha tia devotíssima”.

2009-12-29 14:02:46
2009-12-29 14:02:46
CACOETHES LOQUENDI
CACOETHES LOQUENDI

Expressão latina que traduz a mania de discursar ou o desejo incontrolado para falar até à exaustão.

2009-12-29 14:03:56
2009-12-29 14:03:56
CACOETHES SCRIBENDI
CACOETHES SCRIBENDI

Expressão latina citada das Sátiras (VII, 52) de Juvenal, cuja fórmula completa é insanabile cacoethes scribendi (“incurável ânsia para escrever” ou “fúria para escrever”), e que pretende traduzir criticamente a compulsão para a escrita de todos aqueles que pretendem ser escritores publicados. Hoje, a expressão aplica-se a qualquer escritor sem talento que, apesar disso, insiste em publicar, pelo que fica implícito um conselho para o deixar de fazer.

2009-12-29 14:04:42
2009-12-29 14:04:42
CACÓFATO
CACÓFATO
CACOGRAFIA, CACOLOGIA, DISSONÂNCIA, HARMONIA IMITATIVA, ONOMATOPEIA
CACÓFATO

Má consonância ou cacofonia, resultante da articulação desarmoniosa de sílabas de palavras seguidas. A frase “O texto não passa disso.” encerra má consonância. Frequente na linguagem falada, pode ser evitado, por recurso a construções sinónimas. No caso da expressão citada, pode-se dizer em alternativa: “O texto repete sempre isso.” Outro exemplo: em vez de “Segura-o com uma das mãos.”, é preferível, para evitar o cacófato, “Segura-o com uma mão.”. No entanto, não é recomendável agir sempre com intuito correctivo em textos literários que encerrem más consonâncias, porque nem os clássicos as conseguem evitar, como em Os Lusíadas, que contém formas pleonásticas e cacofónicas como neste verso: “Se lá dos Céus não vem celeste aviso” (II, 59).

2009-12-29 14:07:28
2009-12-29 14:07:28
CACOFONIA
CACOFONIA
ALITERAÇÃO, CACÓFATO, CACOGRAFIA, CACOLOGIA, DISSONÂNCIA, EUFONIA, HARMONIA IMITATIVA, ONOMATOPEIA
CACOFONIA

Repetição de sons desagradáveis numa mesma sequência frásica. Opõe-se à eufonia e pode aplicar-se também à ocorrência de sons iguais no final de uma palavra e no começo na seguinte (cacófato). Constituem exemplos de cacofonia a aliteração, a colisão, o eco e o hiato. Encontramos cacofonia nasal no seguinte verso de Carlos Drummond de Andrade: “A língua, inda sangrando em cacos de palavras” (“Sonetos heredianos”, I, in Amar se Aprende Amando, 1985). O poema “The Bells”, de Edgar Allan Poe ou “Meeting at Night”, de Robert Browning, são também exemplos de utilização premeditada de cacofonias para traduzir, respectivamente o som dos sinos e o som de uma chama a ser deflagrada. Os clássicos não estão isentos de cacofonias nos seus melhores textos. No seu Tratado de Metrificação Portuguesa (1851), Feliciano de Castilho propõe três tipos de cacofonias: de torpeza, de imundície e de simples desagrado, todas as espécies atestadas mesmo nos autores clássicos. O conceito de cacofonia é próximo do de dissonância, embora este se reserve para a simples falta de harmonia entre sons próximos, que não têm de ser necessariamente agressivos para o ouvido.

2009-12-29 14:08:05
2009-12-29 14:08:05
CACOGRAFIA
CACÓFATO, CACOFONIA, CACOLOGIA
CACOGRAFIA

Grafia incorrecta de uma palavra, sendo sinónimo de erro ortográfico. Ocorrendo em excesso e de forma localizada, pode falar-se de disgrafia.

2009-12-29 14:08:57
2009-12-29 14:08:57
CACOLOGIA
CACOLOGIA
CACÓFATO, CACOFONIA, CACOGRAFIA
CACOLOGIA

De forma geral, qualquer vício de linguagem. Nos casos particulares, falamos de cacologia quando se verificam erros de sintaxe ou solecismos.

2009-12-29 14:09:43
2009-12-29 14:09:43
CACOZELIA
CACOZELIA
CACOZELIA

Termo de origem grega para indicar uma imitação grotesca de um modelo clássico. Pode-se falar de cacozelia como licença poética no caso em que um poeta quer impressionar o seu público recorrendo a citações latinas ou gregas ou usando expressões das línguas clássicas com o fim de alardear erudição. Gil Vicente parodiou bem este tipo de pretensão no Auto da Barca do Inferno, por exemplo põe em diálogo um Corregedor a falar um latim espúrio e um Diabo que lhe responde com a mesma cacozelia, obtendo um efeito de cómico: Diabo: “Entrai, entrai, corregedor” Corregedor: “Hou! Videtis qui petatis! / Super jure majestatis / tem vosso mando vigor?” Diabo: “Quando éreis ouvidor / nonne accepistis rapina?” (636-642). Rodrigues Lobo, na Corte na Aldeia (1619), satiriza a prática da cacozelia dando vários exemplos: “O caso é (disse Solino) que vós devíeis ser afeiçoado à frase de um cirugião de Coimbra do nosso tempo, que por ela se fez famoso, que disse à moça de um ferido a quem curava: Traga-me um pano corpulento para fricar os lábios desta cicatrice. E a um rústico, que vinha esmechado, respondeu que não tinha lesa que a superfície da fronte; e, tendo palavras com outro, lhe disse que o aniquilaria se dissesse alguma coisa em vilipêndio de sua dignidade. É certo que tenho raiva, sabendo que a língua Portuguesa não é manca, nem aleijada, ver que a façam andar em muletas latinas os que a haviam de tratar melhor.” (Corte na Aldeia e Noites de Inverno, 3ª ed., Sá da Costa, Lisboa, 1972, p.179.

2009-12-29 14:10:31
2009-12-29 14:10:31
CACOZELON
CACOZELON
CACOZELON

Termo grego para virtuosismos exagerados de linguagem. Pode funcionar como mala afectatio (ou “mal-entendido”), quando um interlocutor tenta exibir um conhecimento superior da língua que fala introduzindo no discurso palavras supostamente eruditas ou estrangeirismos que, na verdade, não se adaptam ao contexto ou são mesmo incorrectas. Por exemplo, é vulgar a má aplicação de termos como timing (sincronização, ajustamento do tempo) e nuance (matiz, grau ou cambiante de cores). As licenças poética e prosaica levam a que os melhores escritores de língua portuguesa possam cair no pecado do cacozelon sem que ninguém, compreensivelmente, ouse apontar-lhes um dedo acusador. É o caso de Eça de Queirós, por exemplo, que, embora crítico dos abusos de estrangeirismos, não resiste a construções pleonásticas com galicismos que podem entrar na categoria de cacozelon, como nesta frase de O Conde de Abranhos: “Eu pude reconstituir em todos os detalhes os pormenores dessa noite histórica.” (o galicismo “detalhe” é sinónimo de “pormenor”.

2009-12-29 14:11:19
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CADERNO
CADERNO
CADERNO

Conjunto de folhas dobradas uma ou mais vezes sobre si mesmas, constituindo a unidade básica da estrutura material do livro. Chama-se caderno porque a dimensão mais corrente destas unidades começou por ser a de oito fólios de pergaminho (quaternion), generalizando-se depois a designação a todo e qualquer fascículo básico de uma encadernação, independentemente da sua estrutura. Para a constituição dos códices membranáceos foi desenvolvida, ao longo da Idade Média, uma técnica de obtenção de cadernos regulares que partia da selecção do pergaminho (pele de animal, tratada de forma a se obter uma matéria foliácea) e passava por fórmulas normalizadas de dobragem, puncturação, regramento e imposição do texto. Para garantia de uma sucessão ordenada dos cadernos já escritos e aguardando encadernação desenvolveu-se, adicionalmente, a norma da assinatura (letra ou número de ordem inscritos na margem superior ou inferior da primeira página de cada sucessivo caderno) e a do reclamo (palavra inicial do texto de cada caderno inscrita no fim do caderno anterior). A tipografia manual veio herdar todo este ritual codicológico, aplicando-o às folhas inteiras de papel sobre cujas faces se imprimiam várias páginas de texto que resultavam perfeitamente ordenadas uma vez dobrada a folha impressa em cadernos de duas, quatro ou oito folhas (são esses, respectivamente, os formatos mais comuns do livro antigo: in-folio, in-quarto e in-octavo). Manteve também as técnicas da assinatura e do reclamo, ainda com utilidade por as tarefas de impressão e encadernação serem desempenhadas por diferentes personagens em sucessivas oficinas: a do impressor e a do livreiro-encadernador. A dobragem simples ou múltipla da pele e da folha inteira de papel, que determinava a extensão do caderno, determinava também, como se viu, o formato do livro, manuscrito ou impresso. A evolução da produção codicológica e, mais tarde, da produção impressa veio estabelecer uma relação directa entre formatos grandes, médios e pequenos e conteúdos textuais específicos associados, também eles, a diferentes compradores e contextos de leitura. Em in-folio produziam-se, por exemplo, os livros do ofício divino, enquanto formatos inferiores, como o do in-quarto, in-octavo ou mesmo menores passaram a dirigir-se a quem procurasse o livro a preços acessíveis ou o desejasse para um consumo privado (o caso mais comum é o do livro de devoção, podendo um livro de horas atingir formatos liliputeanos). Não deve pois negligenciar-se o significado cultural e barato que a envergadura de um caderno pode ter, estando provado, por exemplo, que os códices de pequeno formato se generalizaram quando começou a ser praticada, no Ocidente, a leitura silenciosa (séculos XIV-XV), enquanto os impressos in-quarto e in-octavo serviram, no século XVII, para os impressores de Paris iludirem estrategicamente uma crise em que os precipitou a proliferação de oficinas, inadequada à capacidade do mercado do livro.{bibliografia}Henri-Jean Martin: Livres Pouvoirs et Société à Paris au
XVIIe Siècle, 1598-1701 (1969); Philip Gaskell: A New
Introduction to Bibliography (1972); Léon Gilissen:
Prolégomènes à la Codicologie (1977); Paul Saenger: "Prier
de bouche et prier de coeur", Roger Chartier (ed.): Les
Usages de l’Imprimé, XVe-XIXe Siècle (1987); José Martínez
de Sousa: Diccionario de Bibliología y Ciencias Afines
(1989).

2009-12-29 14:12:08
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