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JORNAL ÍNTIMO
CRÓNICA, MEMÓRIAS
JORNAL ÍNTIMO

p class=”MsoNormal”> Género literário autobiográfico, próximo do diário, em que o autor concentra a narração dos factos na sua vida pessoal quotidiana. O género aparece na Europa por volta do século XVIII, num momento em que os individualismos e os cantos da sensibilidade mais íntima ganham grande destaque. O que distingue um jornal íntimo de uma autobiografia ou de um livro de memórias é a sua actualidade, porque os acontecimentos devem ser descritos no presente vivido pelo sujeito narrador. Existe ainda uma grande flexibilidade, por vezes, desordenação dos factos narrados, na forma como as acções se sucedem, importando mais ao autor descrever o tumulto de sentimentos e os problemas da auto-consciência, que nem sempre obedecem a uma lógica discursiva de acordo com os padrões de organização de um jornal tradicional. Goethe e Tolstoi estão entre os grandes escritores que não resistiram ao género.{bibliografia}B.Didier: Le Journal intime (1976).

2009-12-24 09:03:17
2009-12-24 09:03:17
JOUISSANCE
ALTERIDADE, DIFERENÇA SEXUAL, IMAGINÁRIO, OUTRO, REAL
JOUISSANCE

1. A palavra arcaica anglo-francesa jouissance, retomada
e ampliada por Jacques Lacan no seminário sobre "Deus e a

jouissance de A mulher", sugere traduções
interpretativas tão subtis como "orgasmo", "gozo", "fruição"
"prazer", "satisfação", "posse", "apetite" ou "desejo". Em
português, o termo tem sido traduzido por "gozo", no entanto,
tal tradução carece de uma mais precisa definição: "Gozo" (do
espanhol goce, que, por sua vez deriva do latim

gaudium para "júbilo, fruição"), ao equivaler-se a
jouissance terá de traduzir gosto, prazer; posse ou uso de
alguma coisa de que advêm satisfação, vantagens, interesses;
deleite sexual, prazer, orgasmo. O sentido para onde também nos
arrasta o termo, significando zombaria, desdém ou menosprezo por
alguém, é antípoda do sentido lacaniano de jouissance,
que não encontra realização fora do contexto sexual.
Distingue-se de "prazer", porque este, segundo Freud, embora
motor de toda a actividade psíquica, é apenas um breve momento
entre o desejo e a satisfação do desejo, assinalando desta forma
um equilíbrio homoestático de um organismo submetido a uma
tensão, que ele procura manter a um nível o mais baixo possível.
A jouissance transgride este limiar de homeostase e
"coloca-se" para além do princípio de prazer. Em francês,
o termo tem ainda uma forte conotação sexual (que se perdeu em
inglês, por exemplo, onde hoje é normalmente traduzido por "enjoyment"),
significando literalmente "orgasmo", porém há uma diferença
entre ambos que se pode avaliar pela realidade quântica do
orgasmo em oposição à impossibilidade de se quantificar a

jouissance. Esta é precisamente o prazer que deixou de ser
possível quantificar e ficou em excesso. Se a jouissance
ordinária se atinge por ejaculação, a jouissance é uma
jaculação, isto é, um arremesso para o infinito e, ao mesmo
tempo, um arremesso interminável. Se o prazer é desejo que
obedece a um princípio de constância, a essa tendência do homem
para reduzir as suas tensões através da satisfação do desejo, a
jouissance é tudo o que não permanece e tudo o que não
permanece pré-ocupa-nos de tal forma que o prazer se torna numa
proibição para não irmos além de um certo limite de

jouissance. Isto conduz a um certa tensão que é aquele
sentimento de impotência perante a morte que todos
experimentamos e que ameaça tornar-se o centro da vida – em tudo
equivalente ao instinto de morte que Freud identificou como o
instinto por excelência por ser o que tende a reduzir
completamente todas as tensões por via da autodestruição. Este é
o caminho da jouissance original: a pulsão de Tanatos (a
personificação mitológica da morte a que Freud recorre para
ilustrar o instinto de morte) regula a actividade psíquica de
todo o sujeito em conflito consigo mesmo.

No citado seminário "Deus e a jouissance de A
mulher", Lacan afirma que A mulher não existe, isto é,
enquanto realidade sexual (a maiúscula do artigo, que traduziria
essa realidade, está anulada pela possibilidade universal que o
artigo definido lhe concederia, pelo que este surge
lacanianamente cortado), a mulher tem apenas o valor de uma
fantasia. Isto significa que a relação sexual assim entendida é
o resultado de um só indivíduo. Contraposta a esta posição
fantástica da mulher, Lacan propõe o conceito de jouissance,
esse momento em que a sexualidade é assumida como um excesso que
ultrapassa em significado o universo fálico. O Crime do Padre
Amaro, de Eça de Queirós, ilustra na perfeição o princípio
da jouissance da mulher. "Concupiscência", ou apetite
sexual ou desejo intenso de gozo, é o termo de Eça que
corresponderá à jouissance. As palavras que Eça destaca –
"gozo, delícia, delírio, êxtase" – são significantes da
jouissance e determinarão toda a dialéctica do desejo n’O
Crime do Padre Amaro. A seguinte cena dá-nos a linguagem da
jouissance: “Numa cela do seminário, tendo por testemunha
suspeita uma imagem da Virgem,

Amaro ficava todo nervoso: sobre o seu catre, alta noite,
revolvia-se sem dormir, e, no fundo das suas imaginações e dos
seus sonhos, ardia, como uma brasa, silenciosa, o desejo da
Mulher.” (O Crime do Padre Amaro, Obras Completas de Eça
de Queiroz, vol.4, Círculo de Leitores, Lisboa, 1980, p.29).

Este é, portanto, o tipo de comportamento que vemos em Amaro,
que deixa marcas profundas à medida que o romance progride. A
mais conseguida expressão da jouissance encontra-se na
frase dos «Cânticos de Jesus»: «Oh! Vem, amado do meu coração,
corpo adorável, minha alma impaciente quer-te!» (p.84), em que a
significação é dada pela tripla sequência: Vem > quer-te /
amado > adorável > impaciente / coração > corpo > alma. Aqui
vemos prefigurada a linguagem da pulsão sexual. Convém
esclarecer o termo "pulsão", fundamental para a sexualidade. O
que a leitura do «Cântico de Jesus» nos ensina é que a pulsão
pode ser sublimada, sendo o seu objecto indiferente, pois
é mais importante o processo de formação da pulsão do que
propriamente aquilo a que ela nos leva. Interessa-nos mais o
apelo transcendente transcrito dos «Cânticos» do que o objecto a
que ele se refere. A pulsão assim transmitida, começando na
forma apelativa "Vem" leva-nos a um nível de imensuralibilidade
que é precisamente o que Lacan chama jouissance (formada
do verbo do calão francês jouir, "vir-se") e Eça
repetidas vezes invocou como "concupiscência".

Falamos do mesmo êxtase que o maior arquitecto-escultor do
séc.XVII, o italino Bernini, esculpiu no famoso grupo O
Êxtase de Santa Teresa, na Igreja em Roma de Santa Maria
della Vittoria. Lacan, no citado seminário sobre a jouissance
de Deus e da Mulher, diz: “…
apenas temos que ir ver a estátua de Bernini a Roma para
compreender que ela [Santa Teresa d’Ávila] está a vir-se, não há
dúvida. E o que é a sua jouissance, o que é esse estar
a vir-se? É claro que o principal testemunho dos místicos é
o facto de estarem a sentir essa experiência sem saberem nada
acerca dela. (minha tradução a partir de Juliet Mitchell e
Jacqueline Rose, 1982, p.147).

A esta experiência chama Lacan uma "jaculação mística",
em que o apagamento do e está para a ausência do falo.
Ampliemos a leitura de Lacan: no sentido em que Santa Teresa de
Ávila experimenta um êxtase que é um sentir-se para além de,
o estado a que chega é o momento da jouissance, mas de um
estado perverso que confunde de propósito o olhar de Deus com o
olhar/sentir do sujeito humano extasiado. Santa Teresa contara
que um anjo lhe trespassara o coração com uma seta de ouro
flamejante: “A
dor foi tão intensa que gritei; mas ao mesmo tempo, senti uma
tão infinita doçura que desejei que a dor jamias acabasse. Não
foi uma dor física, mas mental, embora afectasse também, de
alguma maneira, o corpo. Foi a mais doce carícia da alma por
Deus. (Citado por H. W. Janson, História da Arte, 4ªed.,
Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1989, pp.513-514.)

Será difícil encontrar melhor definição de jouissance
feminina. A distinção entre exterior e interior, que é
necessária a toda a relação heterossexual, perde-se neste tipo
de jaculação mística, ao traduzir-se por um espasmo de
prazer que a linguagem da jouissance de Santa Teresa
verteu em "dor intensa", "infinita doçura", "dor mental" e "doce
carícia". Se esta jaculação é dada pela ausência do falo
não o é menos pelo desejo de ter Deus dentro de si, ou seja,
pelo desejo de ver preenchido um vazio superior, que pode
perfeitamente denunciar um sentimento de castração que importa
erradicar. Podíamos pensar, como o fizeram Charcot (fundador da
neurologia no final do séc.XIX), que o misticismo é apenas uma
questão de "vir-se". Não é tanto assim. Não é só assim. A

jouissance que Lacan reclama de feminina está presente na
linguagem, nessa instância em que significado e prazer se
combinam e a que Lacan chama signifiance. Por isso Lacan
sugere que se interprete essoutra face do Outro a que chamamos
Deus como a expressão da jouissance feminina. Assim
podemos ler a "doce carícia da alma por Deus" de Santa Teresa d’Ávila;
assim podemos ler o desejo da Mulher segundo a visão extasiada
do padre Amaro. A começar pela leitura tumescente [inchada] que
faz dos «Cânticos a Jesus» (p.84), a que aludimos no início
deste estudo. O tipo de êxtase que Amaro experimenta nessa
leitura não difere em nada do êxtase sexual de Santa Teresa d’Ávila
aos olhos de Lacan.
 

2.

Num outro sentido, Roland Barthes também utiliza o termo para
indicar o prazer que é possível extrair do texto.
Barthes
admitiu  em "Theory of the
Text” (artigo inicialmente publicado em Encyclopaedia
Universalis, 1973), que qualquer texto "textual"
conduz pela sua essência criativa à jouissance do autor,
seja literário ou não, isto é, conduz necessariamente não só a
um prazer de escrita como a própria escrita ou texto produzido é
uma espécie de clímax sexual – um têxtase. Se
reduzíssemos este princípio de textualidade e decidíssemos que
qualquer tentativa de levar o erotismo criativo da escrita para
além de certos limites significa entrar de imediato no limiar do
literário, então teremos encontrado um critério de definição da
literariedade. Do texto que seja resultado de um têxtase,
podemos dizer que é literário. O princípio do têxtase
textual está naturalmente sujeito ao livre arbítrio do leitor.
Em O Prazer do Texto (1973), Barthes sugere ainda que no
acto de leitura intervêm dois aspectos essenciais: o prazer
e a jouissance; e, para se poder estabelecer o valor de
um texto, avança com a ideia de que ele pode ser scriptible
(“escrevível, que se pode escrever, mas ainda não está escrito”)
ou lisible (“legível, que pode ser lido, mas não
escrito”). O escrevível obriga o leitor a cumprir um outro papel
para além do inevitável consumidor de textos: deve tornar-se, no
exercício da sua skepsis literária, um produtor. O
verdadeiro prazer do texto não está ligado a um simples acto de
leitura, mas a todo o investimento emocional que o leitor faz
sobre o texto, sobre o escrevível que se constrói para além do
princípio do prazer.{bibliografia}Alberto Eiguer: Des perversions sexuelles aux perversions
morales: La

jouissance et la domination (2001); Carlos
Ceia: Sexualidade e Literatura (2002); Didier Moulinier:
Dictionnaire de la

jouissance
(1999);
Jacqueline Rose: Feminine Sexuality: Jacques Lacan and the
École Freudienne, ed. por Juliet Mitchell e Jacqueline Rose,
(1982); Jacques Lacan: Seminário XX (Encore) (1972-3);
Jacques-Alain Miller: Percurso de Lacan – Uma Introdução
(2ª ed., Rio de Janeiro, 1988); Pierre Boudot: La
Jouissance de Dieu: ou, Le Roman courtois de Thérèse d’Avila
(1979).

2009-12-24 09:05:02
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JUVENILIA
JUVENILIA
JUVENILIA

Escritos da juventude. Diz-se dos primeiros textos escritos por um autor, ainda numa fase experimental e com traços próprios de um espírito jovem que se inicia nas letras. Uma juvenilia não é necessariamente uma obra menor ou de pouca divulgação. Pode tornar-se uma obra clássica ou um best-seller internacional, como nos casos de O Diário de Ane Frank (1945) e de O Diário de Zlata (1994). Quase todos os grandes escritores possuem juvenilias, que contêm já as sementes da obra futura que os há-de consagrar. O modo lírico é talvez o mais profícuo em juvenilias. Antero de Quental, ao prefaciar a sua juvenilia a que deu o nome de Primaveras Românticas (1872), justificou a oportunidade de tal publicação de um autor enquanto jovem em termos que servem a maior dos casos: “Se me perguntarem porque publico estes versos, marcos poéticos tão distanciados já no caminho da vida real, e cujo merecimento moral (salvo a moralidade íntima da intenção, a sinceridade no sentimento) é talvez ainda inferior ao merecimento literário — responderei: porque não me envergonho de ter sido moço. Ter sido moço é ter sido ignorante, mas inocente. A luz intensa e salutarmente cruel da realidade dissipa mais tarde as névoas doiradas da fantasiadora ignorância juvenil.”

2009-12-24 09:07:17
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