L

LADAINHA
LADAINHA
LADAINHA

Oração formada por uma série de invocações e respostas curtas e repetidas. No século XVI, tinha a variante de ledainha: “…chamando todos os cantos do Céu, em sua ajuda, por meio de uma ledainha, que devotamente rezou.” (Frei Luís de Sousa, Vida de D. Frei Bartolomeu dos Mártires, IV, 29, v.III, p.31, ed. de 1948). Por via culta, aparece no século XVII a variante litania: “Estava armado com as malhas da sua lógica, tão miúdas e intrincadas, que em algumas igrejas se cantava nas litanias.” (Manuel Bernardes, Nova Floresta, IV, 12, 2, §I, p.95). Neste sentido, trata-se de uma oração ou súplica à Virgem Maria e aos santos, invocando-os pelos nomes e atributos simbólicos, a fim de rogarem a Deus pelos fiéis, como em Almeida Garrett: “A procissão saía gravemente, entoando as ladainhas e preces públicas.” Na liturgia, a ladainha é uma oração à Virgem ou santos, com o responsório repetitivo: “Rogai por nós!”. São “tiradas” (declamadas) ou cantadas durante os terços, novenas, trios, etc. As Ladainhas Maiores, instituídas pelo Papa Gregório Magno (590/604) são rezadas no dia de São Marcos (21 de Abril) e as Ladainhas Menores, nos três dias imediatamente anteriores à Quinta-Feira da Ascensão. A sua popularidade advém certamente da crença nos poderes místicos da imprecação religiosa que tem origem longínqua. Regista-se ainda a variante ladairo, procissão de Penitência, por voto a algum santuário, termo que, no plural (ladairos), diz respeito às preces públicas por ocasião de calamidade, por exemplo, nas ladainhas de clamor, que, no Minho, se chamam: “arranzel” e “parlenda”. No Nordeste brasileiro, as ladainhas são os últimos vestígios dos ladairos. Os velhos “tiradores” de ladainhas, no sertão nordestino, têm vozes de alta expressão trágica, causando funda e inesquecível impressão nas almas, pela inflexão sonora e patética das invocações. A musicalidade das ladainhas tem atraído a atenção dos musicógrafos, na medida em que a simplicidade melódica, o dinamismo da reiteração monótona, acabrunhadora e melancólica, tem o poder de reduzir os ouvintes a um estado apático e doloroso de quietismo, resignação e arrependimento contrito. Um dos focos de irradiação das Ladainhas, no Brasil, foi o município de Minas Gerais, desde os tempos coloniais. Por analogia, com o tempo, os termos arcaicos “ladário” e “parlenda” (com o significado de ladainha) foram absorvidos pela língua portuguesa com vários significados: palavreado, palavra de dissimulação, discussão, desavença, rixa. O termo parlenda fixou-se como denominação de “cantigas de roda”, rimas infantis em versos de 5 ou 6 sílabas, para divertir, ajudar a memorização, etc. (“Amanhã é domingo / pé de cachimbo / Cachimbo é de ouro,… etc.”). A difusão do termo resultou ainda na lengalenda.

2009-12-30 14:40:03
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LAI
LAI
FÁBULA
LAI

Poema lírico ou narrativo de curta extensão inspirado em temas do ciclo bretão-arturiano e destinado a ser cantado com acompanhamento musical. A partir do séc. XII, os lais narrativos deixam de ser musicados. Segundo Hoepffner, na corte do Rei Artur já existiriam lais, ou seja, composições artísticas musicais, na sua maioria apenas instrumentais que, todavia, podiam acompanhar relatos de aventuras extraordinárias a fim de serem perpetuadas como recordação, ficando na memória por serem eventos notáveis.
Mais tarde, no séc. XII, um lai pode designar uma composição musical que acompanha um texto de carácter lírico em verso. Diferencia-se da canção, apesar dos temas abordados serem frequentemente de carácter amoroso, porque o lai apresenta estrofes numerosas, com extensão e métrica variável, fazendo com que, consequentemente, a melodia também varie de estrofe para estrofe. Os exemplares existentes são, na sua maioria, franceses, de autores conhecidos, como Thibaut de Champagne e Gautier de Coincy, ou de anónimos. Este tipo de lai, segundo Aires Nascimento, distingue-se de um outro, também de carácter lírico, mas inspirado em temas lendários arturianos, que sendo também um poema musicado, apresenta, porém, estrofes com o mesmo número de versos e sílabas métricas, caracterizando-se por surgir geralmente no meio da acção narrativa de textos em prosa e por algum arcaísmo verbal. São todos de origem anónima. No entanto, no séc. XII, o termo lai não se restringe apenas a uma composição estrófica musicada. Abrange também o lai narrativo que consiste num relato sem acompanhamento musical, composto por versos octossilábicos que não rimam entre si e que, por vezes, não apresentam qualquer corte estrófico. Distingue-se do romance cortês pela sua brevidade, sendo constituído por uma média de quatrocentos ou seiscentos versos, raramente ultrapassando o milhar e encontrando-se geralmente reduzido a um único episódio sem acções ou personagens secundárias. O lai narrativo conta uma aventura singular, de natureza feérica onde o humano se mistura com o sobrenatural, não se devendo confundir com a fábula que se desenvolve num meio popular, enquanto o lai decorre num ambiente cortês, reflectindo as opiniões e sentimentos da sociedade cortesã. Sendo inicialmente inspirado unicamente em temas da matéria bretã, acaba por alargar a sua designação a qualquer obra narrativa breve de tema amoroso ou aventureiro. Os Lais de Marie de France são o exemplo mais conhecido deste lai narrativo. São doze poemas dedicados pela autora, uma aristocrata que viveu na segunda metade do séc. XII, ao rei Henrique II de Inglaterra e que têm por temática fundamental o amor, sempre com inspiração nas personagens lendárias arturianas.
Já no séc. XIX , o termo começa a designar frequentemente um pequeno poema narrativo de carácter histórico e aventuroso, como por exemplo, as obras de Walter Scott, The Lay of the Last Minstrel e Macaulay, Lays of Ancient Rome .{bibliografia}Helena Miranda Monteiro do AMARAL: «O universo imaginário dos «Lais de Marie de France» – Dissertação de Mestrado em Literaturas Comparadas Portuguesa e Francesa apresentada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, 1988; Ernest HOEPFFNER: Les lais de Marie de France, Boivin & C., 1935;, Aires A. NASCIMENTO: “Lai” in Dicionário de literatura medieval galega e portuguesa, Organização de Giulia Lanciani e Giuseppe Tavani, Caminho, 1993; Carolina Michaelis de VASCONCELOS: edição crítica e commentada do Cancioneiro da Ajuda, II, Halle, 1904; Paul ZUMTHOR: Histoire littéraire de la France Médiévale, Slatkine, 1981.

2009-12-30 14:41:02
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LAMPOON
LAMPOON
SQUIB
LAMPOON

O mesmo que squib, embora geralmente conotado com formas de caricatura e ridicularização ainda mais virulentas, notoriamente grosseiras ou insultuosas (do verbo francês lamper e da respectiva forma ‘lampons’, usada como refrão de uma popular composição seiscentista significando originariamente ‘Bebamos, pois!’).

2009-12-30 14:42:41
2009-12-30 14:42:41
LANGUAGE POETRY
LANGUAGE POETRY

Designação pela qual se tornou conhecida uma prática poética que emergiu nos Estados Unidos ao longo dos anos oitenta. Na sequência das contribuições de William Carlos Williams, Charles Olson e John Ashbery, a language poetry tem colocado a ênfase no trabalho sobre a linguagem enquanto meio de comunicação, numa exploração metalinguística que a inserirá numa lógica pós-moderna. Entre os seus cultores e teorizadores destacam-se Ron Silliman, Jackson Mac Low, Clark Coolidge, Michael Palmer, Charles Berstein e Bob Perelman.

2009-12-30 14:43:34
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LANSONISMO
LANSONISMO

Gustave Lanson (1857-1934), autor de uma obra de referência para a sua época, Histoire de la littérature française (1894), desenvolveu um tipo de crítica literária positivista dominada pela descrição de factos históricos relacionados com a vida dos autores, pelo relato da história local e dos ambientes sociais em que os autores viveram, tudo confluindo para um estudo de influências que havia de determinar o perfil literário de um escritor. A essa metolodogia crítica deu-se o nome de lansonismo. Todos os mecanismos de interpretação e compreensão da obra de arte literária se fundavam na pesquisa de dados pessoais sobre os autores, pormenores das suas vidas, condições de produção das obras, leituras realizadas e que convívio com outros escritores contemporâneos. A este tipo de prática literária, base de trabalho da Histoire de la littérature française e dos vários estudos que Lanson realizou sobre Bossuet, Boileau, Corneille e Voltaire, deu-se o nome de lansonismo. O método exige uma pesquisa bibliográfica aturada para determinar as influências de um dado autor, algo que Lanson também quis sistematizar com o seu Manuel bibliographique de la littérature française moderne (1909-1914).

2009-12-30 14:44:12
2009-12-30 14:44:12
LAPIDÁRIO
LAPIDÁRIO

Género literário que na origem significa um tratado ou um catálogo em verso ou em prosa de peças de joalharia, de recolha de espécies minerais ou de dados astrológicos. Este último tipo de lapidário remonta ao antigo Egipto, em cuja capital cultural, Alexandria, se desenvolveu uma crença nos poderes místicos das pedras preciosas, capazes de ligar os seus possuidores aos deuses. Os lapidários são sobretudo textos científicos, de exploração das propriedades medicinais das pedras preciosas. Descrições literárias do simbolismo mágico destas pedras podemos encontrá-las desde os textos bíblicos (veja-se Êxodo, 28:9-12, “9- E tomarás duas pedras de berilo, e gravarás nelas os nomes dos filhos de Israel. 10- Seis dos seus nomes numa pedra, e os seis nomes restantes na outra pedra, segundo a ordem do seu nascimento. 11- Conforme a obra de lapidário, como a gravura de um selo, gravarás as duas pedras, com os nomes dos filhos de Israel; guarnecidas de engastes de ouro as farás. 12- E porás as duas pedras nas ombreiras do éfode, para servirem de pedras de memorial para os filhos de Israel; assim sobre um e outro ombro levará Arão diante do Senhor os seus nomes como memorial.”) aos textos medievais dos bestiários, por exemplo. Afonso X, o Sábio Rei de Castela e Leão, legou-nos um Lapidário, editado em 1981 pela Gredos (Lapidario: según el manuscrito escurialense H.I.15), manuscrito iluminado do século XIII. Plínio o Velho deixou-nos uma obra-prima do género na sua Historia Naturalis. Em termos profissionais, o lapidário é o artífice que lapida as pedras brutas e lhes dá o brilho que as tornam preciosas, é ele que “desnuda” a gema, para que se mostre por completo o esplendor das pedras.{bibliografia}J. Cardoso Gonçalves: O Lapidario del Rei D. Alfonso X el Sabio: estudo deste manuscrito iluminado do século XIII (1926).

2009-12-30 14:44:53
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LAUDA
LAUDA
BALADA
LAUDA

1. Também
escrita laude, do italiano para cântico ou hino de louvor
(plural laude ou laudi), a lauda é um tipo de
canção religiosa, não litúrgica, em regra dedicada à Virgem
Maria, a Cristo ou a santos de devoção. A obra de S. Francisco
Laudes creaturarum o Cantico del
Sole é considerada a
primeira do género e é dedicada aos elementos primordiais da
natureza. Jacopone da Todi, poeta franciscano, escreveu, no
século XIII, cânticos mais espirituais, laudi spirituali,
de forte impacte emocional e religioso, mas foi a sua lauda
latina Stabat mater dolorosa que se tornou famosa em
todas as cerimónias religiosas da Igreja católica romana. O
formato da lauda é próximo do da balada, para facilitar o
cântico em grupo, muitas vezes com um tom coloquial. É frequente
vermos a lauda integrada em moralidades e milagres (sacra
rappesentazione). Mais tarde, durante a Renascença italiana,
a lauda também encerra um carácter musical muito forte, mais
polifónica e popular, tornando-se apreciada quer nas
confraternizações (Laudisti) religiosas mais espontâneas
quer nas mais formais, como acontecia regularmente na
Congregazione dell’Oratorio, fundada por S. Filipe Neri, no
final do século XVI.

2. Também
se utiliza o termo no sentido estrito de página de um livro ou
para referir cada uma das faces de uma folha de papel.

2009-12-30 14:46:01
2009-12-30 14:46:01
LEAVISIANISMO
LEAVISIANISMO

Em Inglaterra, a revista de crítica literária Scrutinity, lançada em 1932 por F. R. Leavis (1895-1978) e sua esposa, legitimou e privilegiou um determinado método de análise do texto literário (close reading) que viria a ser conhecido por leavisianismo. Um seguidor dos métodos de F. R. Leavis é também chamado, de forma pejorativa, leavisite. Dando pouca importância aos valores apenas “literários”, a revista Scrutinity e os seus seguidores insistiam na avaliação das obras literárias sem atender à interpretação, mas antes privilegiando a descrição e análise dos pormenores textuais e linguísticos. A história contemporânea da crítica literária, do formalismo russo à desconstrução, foi atingida por diversas tentativas de neutralização da interpretação textual. O formalismo russo e a doutrina de F. R. Leavis propuseram programas anti-interpretativos do texto literário, embora nunca tenham teorizado contra a interpretação grosso modo. Uma universidade como Harvard ainda recentemente, através da sua Faculty of Arts and Sciences, mantinha recomendações de leitura cerrada, de acordo com padrões muito próximos dos métodos de Leavis. Veja-se o seguinte exemplo de como fazer uma close reading: 1. Read the text once, keeping in mind the question that you bring to it. That question may be formulated by your instructor, or it may be a question that you have formulated from the context of the course. As you read, try to locate key passages that relate to the question you have in mind. Key passages contain words or phrases that explain important ideas or convey important themes. 2. Read the text again, this time focusing on the key passages that you have identified. What words or phrases in these passages do you think are important? Underline, highlight, or take notes so that you can locate these passages easily. 3. Now examine these words and phrases closely. What patterns emerge? What ideas recur? You may have to read these words and phrases a few times to discover multiple meanings in the text: words that mean more than one thing, phrases that could yield a literal and metaphorical reading. 4. After you read these passages a few times and have discovered patterns within them, formulate a statement to answer your question. This statement should reflect your inferences and speculations about the meaning of the text; it should also reflect your ability to focus on one idea within the text, rather than to produce an essay merely of random impressions. 5. Structure your essay with your statement as a focus. Use quotations from the text to support your analysis. A close analysis of a few passages will produce a stronger text than a superficial commentary on many passages. A prática crítica de Leavis divide-se em duas fases: até à publicação de Scrutinity, influenciado pelo exemplo de T. S. Eliot, privilegiou o estudo da poesia inglesa, tendo publicado em 1932 uma obra dedicada a T.S. Eliot, Ezra Pound e Gerard Manley Hopkins: New Bearings in English Poetry. São contudo os seus livros ensaísticos sobre o romance que mais ajudaram a fixar o método da close reading. Em The Great Tradition (1948), canoniza como grandes romancistas autores como Jane Austen, George Eliot, Henry James e Joseph Conrad e garante que só D. H. Lawrence lhes pode suceder. A colecção de ensaios The Common Pursuit (1952) será uma das mais apreciadas pelos seus seguidores. O título é um empréstimo de The Function of Criticism, de Eliot, apresentado na abertura do livro como o objectivo fundamental do exercíco crítico: “‘The common pursuit of true judgement’: that is how the critic should see his business, and what it should be for him.” (The Common Pursuit, Penguin, Londres, 1993, p.v). O nome dos Leavis está intimamente ligado à crítica prática e à close reading (leitura cerrada, analítica, microscópica, exacta). A crítica prática significava um método que rejeitava a abordagem tradicional e não temia a desmontagem do texto; contudo, ela supunha também que o leitor pudesse julgar a “grandeza” literária com a atenção bem focalizada em poemas ou trechos isolados dos contextos cultural e histórico. A crítica prática significava uma detalhada interpretação analítica que proporcionava um antídoto valioso às leituras esteticistas. Mas parecia também deixar a impressão de que todas as escolas de crítica anteriores haviam lido apenas uma média de três palavras por linha. Pedir uma leitura atenta, ou close reading, significa mais do que insistir na atenção devida ao texto. Sugere uma atenção para com determinados aspectos do texto e não para com outros: para as palavras contidas na página e não para os contextos que as produziram e cercaram. O New Criticism tem aqui uma das suas palavras de ordem nesta noção de close reading (“leitura cerrada”), leitura analítica minuciosa do texto literário que é assumido como um tecido de linguagem autónomo em relação a quaisquer factores extrínsecos, e cujo processo artístico de construção pode ser revelado pela análise técnica. O crítico que assim procede aproxima-se do texto com objectividade e precisão, como um anatomista que estuda as células ao microscópio, embora sem esquecer o aspecto humano da obra. A ênfase está no objecto analisado, a obra, e não no sujeito que a analisa ou no estudo das suas fontes. Esta orientação para a leitura cerrada tornava-se desvantajosa, pois obrigava a uma análise indutiva, renovável a cada leitura, impedindo desta forma a criação de uma teoria e o estabelecimento de um modelo. Daí a quantidade de atributos apresentados como especificidade do texto poético. E mais: a ambiguidade, a tensão, o paradoxo, etc, passaram a representar as chaves da leitura cerrada. Faz parte da natureza do conhecimento o ser inesgotável. Faz parte da natureza do texto o ser indeterminado. A pluralidade que faz parte da natureza da textualidade não pode constituir um obstáculo à teoria, como defendeu F. R. Leavis numa célebre polémica com René Wellek, menos do que um texto resiste a interpretações definitivas. O facto de o tipo de resistência à teoria que F. R. Leavis assume vem de alguém que defendia ferozmente as suas próprias leituras como exactas. Não cabem na teoria da literatura visões religiosas da leitura. O que um texto nos deve pedir é exactamente que o dessacralizemos. Terry Eagleton tentou provar que os textos literários não são por definição resistentes à teoria, como sempre quis F. R. Leavis. Na introdução à sua Literary Theory: An Introduction (1985), Eagleton demarca-se da tradição leavisiana de tomar a busca do “literário” como uma espécie de busca do Santo Graal da literatura. Na teoria da literatura, não podem existir dogmas. O estudo do texto literário é o estudo da ideologia que o texto ensina, não se encontrando nela qualquer essência vital ou propriedade fundamental que por si só justifique tal estudo. Outro aspecto importante a reter a partir do marxismo literário de Eagleton consiste na contra-argumentação da tese de Leavis que sustenta que a multiplicidade de leituras reflecte de imediato a evasão de ideologia do texto. Para Eagleton, tal multiplicidade reflecte antes as contradições inscritas nas ideologias que produziram o texto. Que caminho devemos seguir para fundar uma textualidade essencialmente crítica? É claro que o facto de um texto estar permanentemente aberto a múltiplas leituras não significa que quem quer que seja se possa apropriar da ideologia desse texto somente para o esvaziar, como a doutrina leavisiana pretende sugerir; e também fica claro que esta multiplicidade não é ilimitada em termos de valor científico das leituras produzidas. Se um texto está aí para ser lido de múltiplas formas, nem todas as leituras têm o mesmo valor científico, pelo que é necessário existir um instrumento que meça o valor, o rigor, a coerência discursiva e argumentantiva de uma leitura. Esse instrumento só pode ser a teoria – sem ela, todos os leitores seriam iguais perante a ciência e não teríamos forma de distinguir entre o valor de uma leitura de F. R. Leavis e outra do nosso pior aluno de literatura. Da mesma forma, sem crítica, todos os textos seriam como as amêndoas e não saberíamos distinguir entre as amargas e as doces.{bibliografia}de F. R. Leavis: D. H. Lawrence: Novelist (1955), Education and the University: A Sketch for an "English School" (1943, 2d ed., 1948), English Literature in Our Time and the University (1969), The Great Tradition: George Eliot, Henry James, Joseph Conrad (1948), The Living Principle: "English" as a Discipline of Thought (1975), Mass Civilization and Minority Culture (1930), New Bearings in English Poetry: A Study of the Contemporary Situation (1932, 2d ed., 1950), Nor Shall My Sword: Discourses on Pluralism, Compassion, and Social Hope (1972), Revaluation: Tradition and Development in English Poetry (1936); F. R. Leavis and Denys Thompson, Culture and Environment: The Training of Critical Awareness (1933). Bib. sobre a obra e o método crítico de F. R. Leavis: Michael Bell, F. R. Leavis (1988); R. P. Bilan, The Literary Criticism of F. R. Leavis (1979); Ronald Hayman, Leavis (1976); M. B. Kinch, William Baker, and John Kimber, F. R. and Q. D. Leavis: An Annotated Bibliography (1989); Francis Mulhern, The Moment of "Scrutiny" (1979); New Universities Quarterly 30 (1975, nº especial sobre Leavis); P. J. M. Robertson, The Leavises on Fiction: An Historic Partnership (1981); Anne Samson, F. R. Leavis (1992); William Walsh, F. R. Leavis (1980). http://www.press.jhu.edu/books/hopkins_guide_to_literary_theory/f._r._leavis.html http://pubweb.acns.nwu.edu/~jem973/closereading.htm

2009-12-30 14:46:43
2009-12-30 14:46:43
LEGIBILIDADE
LISIBLE / SCRIPTIBLE
LEGIBILIDADE

Nos estudos literários, o conceito de legibilidade circunscreve dois campos fundamentais do questionamento teórico: o que se desenvolve na determinação das condições que o leitor deve possuir para o exercício de uma hermenêutica de máxima eficácia; e o que procura caracterizar o texto legível como produto de consumo, dado como «acabado» quanto às possibilidades do seu sentido. Assim, no primeiro caso legibilidade reporta-se ao para antitético legível/ilegível, e no segundo ao par legível/escrevível. Se, nesta segunda acepção, o conceito de legibilidade aponta para uma limitação ou mesmo para uma desvalorização dos textos que são entendidos como pertencendo à categoria, que assim é designada por Barthes (S/Z, 1970), dado que a participação do leitor não é por eles solicitada, na primeira acepção o mesmo conceito tem um forte sentido positivo. Podemos dizer que legibilidade, opondo-se a ilegibilidade, caracteriza o próprio fundamento da tradição hermenêutica que procura encontrar (e crê ser possível fazê-lo, segundo as perspectivas a que alguns críticos chamam “fundamentalistas”) o sentido unívoco (ou pelo menos o mais “poderoso”) do texto. Embora nem todas as modernas perspectivas teóricas convoquem directamente o conceito de legibilidade, podemos dizer que ele está presente num grande número delas de modo mais ou menos explícito. Se as condições de legibilidade são, como defende Angenot (1979), o conhecimento do código linguístico, a decifração do código artístico (ou sistema de modelização secundária) que o texto instaura, bem como o máximo de informação sobre as configurações ideológicas, pragmáticas e hermenêuticas, parece-nos justo reconhecer que o conceito aqui descrito se pode usar para designar o conjunto algumas preocupações da estética da recepção (Jauss), ou da teoria da leitura (Iser, Fish). Além disso, mesmo em teorias que colocam exclusivamente as obras ou os textos no centro das suas atenções, o conceito de legibilidade encontra-se implicado nelas por vezes de modo evidente. Está presente no estruturalismo, por exemplo, quando alguns dos seus teóricos falam de competência (domínio dos códigos) literária, ou na crítica psicanalítica, pelo modo como ela enfatiza a dimensão da interpretação.{bibliografia}Roland Barthes: S/Z (1970).

2009-12-30 14:47:55
2009-12-30 14:47:55
LEGITIMAÇÃO
LEGITIMAÇÃO

A legitimação é um conceito de origem político-jurídica que designa o reconhecimento, pelas instituições do poder e segundo articulações discursivas que esse mesmo poder domina, de determinados factos sociais, sejam eles processos ou objectos. Como produto social que sempre é, a literatura esteve, desde a origem, sujeita a essa mesma legitimação. Para recorrermos a um exemplo historicamente importante para os estudos literários, podemos dizer que a Poética de Aristóteles é um documento fundador do processo de legitimação literária. Silvina Rodrigues Lopes, na sua tese de doutoramento, A legitimação em literatura (1994), obra fundamental sobre a matéria deste artigo, acentua a como factores geralmente constituintes do processo legitimado e fundador da instituição literária, a crítica literária, a formação teórica, a opinião pública, os direitos de autor e – de modo decisivo – a integração da disciplina de literatura no sistema de ensino (p.124-127).
De um modo geral, todo o funcionamento da instituição literária assenta em modos e níveis diversos de sociabilidade: procura por parte do público leitor e/ou espectador (no caso do teatro), reconhecimento dos valores de determinados textos na prática do ensino, agrupamentos de praticantes (mais ou menos profissionais) e apreciadores em academias ou colectividades similares (associações, arcádias) e o lugar que a função autor ocupa na sociedade, e como a sua actividade se recorta em relação a outras funções e actividades reconhecidas nessa mesma sociedade (cf. Carlos Reis, 1995: 21-22 e 59-61).
Deve dizer-se, no entanto, que se todos esses aspectos eram reconhecidos desde a antiguidade até muito recentemente, a legitimação era praticada sem ser problemática em si. É a partir da posições teórica pós estruturalistas, porém, que a questão da legitimidade se integra explicitamente como problemática da teoria literária. Se, antes, ela era assegurada sem questionamento na tradição da mimesis (imitar um mestre era tão evidentemente necessário como imitar as acções do homem) e, posteriormente, num percurso que começa no século XVII e culmina com o romantismo se afirma a legitimidade (sem a questionar) através de discursos e instituições que já acima descrevemos, com o desenvolvimento das perspectivas da recepção (em que, neste caso, incluiríamos, algo abusivamente, o próprio desconstrucionismo), o conhecimento da objecto literário deixa de ser “evidente” (porque o objecto só se constitui pelo acto de leitura, pelo reconhecimento que lhe é dado pelo leitor ou intérprete, e pela que lhe atribuem as instâncias que o aceitam ou recusam) e a legitimação institui-se como problema. Basta lembramos a posição de Stanley Fish que, partindo duma posição pragmática questiona de modo empírico e experimental a noção de texto literário, para percebermos como dessa atitude, que dá ao leitor o pleno direito de qualificar e validar qualquer texto, se passa à problematização vertiginosa da legitimação literária: em princípio, o literário é o que funciona como literário para os código culturais de uma comunidade, mas nada nos garante que os códigos de uma comunidade sejam os de outra ou que uma comunidade tenha de os ter.
A legitimação tem, assim, dois campos fundamentais de interrogação: o que é que constitui o literário como literário?; o que é que pode legitimamente ser incluído como texto no campo literário?
{bibliografia}
Carlos Reis: O Conhecimento da Literatura (1995); Silvina Rodrigues Lopes: A Legitimação em Literatura (1994); Vítor Manuel de Aguiar e Silva: Teoria da Literatura (1988).

2009-12-30 14:49:19
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