Select Page

Uma das principais categorias do texto narrativo e do texto dramático, a acção indica um acontecimento dinâmico realizado por uma ou mais personagens. Inclui tudo que faz, o que diz e/ou o que verdadeiramente sucede a uma personagem, permitindo identificar este dinamismo numa sequência de acontecimentos, não necessariamente ordenados no tempo e no espaço. A acção narrativa tanto pode corresponder a um único acontecimento (por exemplo, o episódio de Santa Olávia, capítulo III de Os Maias, de Eça de Queirós, que nos apresenta a educação de Carlos da Maia por contraste com a educação de Eusebiozinho), como a um conjunto de acontecimentos (a história da decadência da família Maia, no mesmo romance). Porque os acontecimentos não têm todos a mesma dimensão e importância numa obra, costumamos distinguir acções secundárias (do tipo descrito em primeiro lugar), que se desenvolvem em torno da matéria central da obra de ficção e são, em regra, dispensáveis à consecusão do principal objectivo ficcional; e uma acção principal (a descrita em segundo lugar), que corresponde aos momentos fulcrais da história narrada, e cujos elementos constitutivos não são dispensáveis, sob pena de o fio narrativo perder a sua lógica interna.

O conceito de acção não se limita ao texto narrativo e ao texto dramático, onde está codificado desde o tratado de Aristóteles sobre a tragédia grega. De notar que qualquer texto que envolva uma matriz narrativa, como o texto épico, por exemplo, pode ser dividido em acções. O texto de ficção usa de maior liberdade na construção das acções do que o texto dramático. Se vários tratadistas clássicos consideram que um texto dramático pode ter até cinco acções secundárias dentro da matéria principal, Aristóteles, na sua Poética, apenas considera que as partes da acção (pragmata ou actus) devem ser apenas três: introdução ou pré-história que informa o espectador sobre os antecedentes da matéria representada; parte mediana ou história propriamente dita, onde se representa uma acção dinâmica complexa; fim ou conclusão da história representada, que implica a recuperação da harmonia inicial ou o refreamento da acção dramática. Entre as partes principias da acção dramática, podem ocorrer episódios, que apenas devem ser introduzidos segundo um criterio de necessidade. No texto da tragedia, podemos reconhecer várias estratégias para controlar o desenolvimento da acção, o que se testemunha através de peripécias (mudanda brusca dos acontecimentos) ou da anagnórise (ou reconhecimento de um facto decisivo que causa mudança brusca e radical no desenvolvimento da acção e no destino das personagens). Das três unidades constitutivas do texto dramático (acção, lugar e tempo), considera-se, desde esta visão classicista, que a unidade de acção é a mais importante.

No texto de ficção, estas regras são totalmente desrespeitadas. Não há tratados sobre a boa construção das acções de um texto narrativo e um escritor não está obrigado a obedecer ao mesmo padrão em todas as suas criações narrativas e ficcionais. A partir do romance modernista, no início do século XX, as técnicas têm variado tanto que podem ir da tendência para a sobreposição das acções até à anulação de qualquer movimento dinâmico no interior de um texto de ficção. Podemos encontrar um romance complexo como Ulysses, de James Joyce, onde fica evidente a dissimulação do fio da história narrada, os constantes recuos e avanços na acção e a inclusão de episódios estranhos a essa acção, rompendo com todos os cânones respeitados no século XIX por altura do domínio do romance realista; como podemos encontrar um anti-romance de Rayner Heppenstall, Connecting Door (1962), que é uma descrição passiva de edifícios, ruas e notações musicais, abolindo qualquer acção e negando ao próprio narrador uma identidade própria.