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Publicação
anual generalista e utilitária que, por norma, inclui um calendário
completo com referência a assuntos recreativos, humorísticos,
religiosos, científicos, literários e informativos. A provável origem
etimológica do termo remonta ao grego almenikhiaká, estando
sempre ligado ao interesse pela astrologia.; regista-se em latim
medieval como almanac, que deriva do árabe al-manakh, "o
calendário". A informação contida num almanaque é de carácter
enciclopédico, “útil para toda a gente”, não procurando aprofundar os
assuntos mas deles dando apenas notícia. Este tipo de publicação é
utilizado em áreas específicas, contribuindo para uma grande variedade
editorial. Distinguem-se, por exemplo, os almanaques astronómicos, os
naúticos, os agrícolas com previsões metereológicas, os gastronómicos,
etc.

            O
melhor texto teórico sobre a importância e a história do almanaque
continua a ser o prefácio que Eça de Queirós escreveu para o
Almanaque Enciclopédico
(1896), apesar dos elogios de encomenda que
o prefácio contém. Aí se descreve um dos aspectos mais sugestivos do
almanaque: o facto de conter um certo tipo de verdades reconhecidas por
determinados grupos como universais e essenciais: “o almanaque contém
essas verdades inciais que a humanidade necessita saber, e
constantemente rememorar, para que a sua existência, entre uma Natureza
que a não favorece e a não ensina, se mantenha, se regularize e se
perpetue. A essas verdades, chamam os Franceses, finos classificadores,
‘verdades de almanaque’. São as altas verdades vitais. O homem tudo
podia ignorar, sem risco de perecer, excepto o mês em que se semeia o
trigo.” (Notas Contemporâneas, Círculo de Leitores, Lisboa, 1981,
p.385). Lembremos que a época de Eça assiste a uma grande proliferação
de almanaques. É o tempo, por exemplo, dos célebres Borda d’Água
e Seringador, cuja publicação se estenderá até ao século XX. Um
outro aspecto importante ressalvado por Eça é o lado regulador do
almanaque: “O almanaque, com efeito, é o livro disciplinar que coloca os
marcos, traça as linhas dentro das quais circula com precisão toda a
nossa vida social. (…) Só com o almanaque, sempre presente e sempre
vigilante, pode existir regularidade na vida individual ou colectiva: e
sem ele, como uma feira, quando se abatem as barreiras e se recolhem as
cordas divisórias, o que era uma sociedade seria apenas uma horda e o
que era um cidadão seria apenas um trambolho.” (p.386).

            O
primeiro almanaque escrito em português (traduzido do latim) é o
Almanaque Perdurável para Achar os Lugares dos Planetas nos Signos

(c. 1321). Os primeiros almanaques portugueses impressos surgem apenas
na segunda metade do século XV, destacando-se o Almanach Perpetuum
(1496), de Abraão Zacuto, sobre matéria astrológica, que seria utilizado
na elaboração das tábuas solares náuticas durante as viagens portuguesas
da Expansão. François Rabelais publicou em 1533 um almanaque parodístico
com o título Pantagrueline Prognostication, que é uma crítica
divertida das predições astrológicas que eram cada vez mais populares no
Renascimento, sob vários títulos: almanaques, reportórios dos tempos,
lunários ou folhinhas de luas. Durante anos, este tipo de publicação foi
pretexto para divulgar todo o tipo de superstições, sobretudo de
natureza astrológica, mas também informações deturpadas sobre a vida da
realeza. É preciso esperar pelo século XIX para que o almanaque recupere
o seu prestígio.

           
Considera-se o almanaque um exemplo de literatura de cordel, pois
trata-se de uma publicação de interesse geral, de pequeno formato e
pouca erudição, atingindo grandes tiragens, pelo menos desde o século
XVIII. Em Inglaterra, nesta altura, já se editavam 300 000 exemplares
por ano. Almanaques antigos em várias línguas ainda se mantêm em
publicação, tais como o Old Moore’s Almanac (desde 1868), sobre
cultura geral, o Old Farmer’s Almanac (desde 1792), sobre
informações generalistas e o Almanach de Gotha (desde 1763),
sobre genealogias aristocráticas e estatísticas mundiais. A
Direcção-Geral de Educação de Adultos publica em Lisboa, desde 1981, um
dos melhores almanaques portugueses ainda activos, com o simples título:
Almanaque.

            O
almanaque tem também interesse literário, porque costuma incluir poemas
e contos de raiz tradicional bem como máximas populares. Na história
literária portuguesa, ficou célebre o Almanaque das Musas (1793),
inspirado no francês Almanaque des Muses. São seus promotores os
sócias da Academia das Belas Letras de Lisboa, que se notabilizou com o
nome de Nova Arcádia. Este almanaque tem um interesse literário
particular, pois inclui a primeira tradução portuguesa da Arte
Poética
(1697) de Boileau, feita pelo 4º conde da Ericeira, D.
Francisco Xavier de Menezes, falecido em 1743. Outra publicação de
interesse literário foi o Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro
(1851-1932), que teve a colaboração de Alexandre Herculano, António
Feliciano de Castilho, Bulhão Pato, Camilo Castelo Branco, António
Nobre, Olavo Bilac, Augusto de Lima, etc.

{bibliografia}

Bertino Darciano: “O tempo e os almanaques do povo. Retalhos de investigação etnográfica”, Boletim da Biblioteca Pública Municipal de Matosinhos, 1 (1954); Ernesto Soares: Almanaques, Prognósticos, Lunários, Sarrabais do Século XVIII em Lisboa (1946); Geneviève Bollème: Les Almanaches populaires aux XVII et XVIII siècles. Essai d’ histoire sociale (1969); Maria Carlos Radich: Almanaque: Tempo e Saberes (s.d.).