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Termo que traduz a
ocorrência de mais do que um sentido em palavras, frases, proposições ou
textos. Relaciona-se com as noções de ambivalência, anfibolia,

anfibologia, asteísmo, double entendre e equívoco.
Distingue-se das noções de indeterminação e de indefinição
(em inglês, vagueness; em espanhol, vaguedad). Por
exemplo, o "olhar" é um termo vago (quantos significados pode traduzir
um olhar?), mas não é ambíguo, pois cada um dos sentidos da ambiguidade
pode ser bastante preciso. Max Black, em "Vagueness: An Exercise in
Logical Analysis", defende esta distinção entre indefinição (vagueness)
e ambiguidade, pois a primeira refere-se a enunciados cuja aplicação não
está definida e a segunda tem sempre um quadro referência determinável.
C. G. Hempel, comentando a tese de Black em "Vagueness and Logic",
concluirá que nenhum termo da linguagem natural está totalmente isento
de indefinição. Note-se que um termo vago não implica que seja
desprovido de significação, circunstância que pode explicar outros
pontos de vista que tendem a ver a indefinição como um caso particular
de ambiguidade (tese sustentada, por exemplo, por I. M. Copilowish, em "Border-Line
Cases: Vagueness and Ambiguity"). Veja-se, por exemplo, o título do
famoso ensaio de Jacques Derrida “Le facteur de la vérité” (Poétique,
21, 1975), que é um comentário do ensaio de Lacan “Le séminaire sur ‘La
lettre volée’ ” (Écrits I, 1966), a propósito do conto “The
Purloined Letter”. O título de Derrida joga com a ambiguidade do termo “facteur”,
que em francês tem o duplo sentido de “carteiro” e “termo de uma
operação matemática ou produto”, ambos servindo o objectivo do ensaio:
questionar o postulado lacaniano de que uma carta chega sempre ao seu
destino e, consequentemente, analisar o problema da destinação da
verdade em psicanálise.

            A
ambiguidade na linguagem está associada aos fenómenos da conotação e da
polissemia, embora no quadro lógico-linguístico moderno esta
correspondência não seja aceite. O termo "vaga" é ambíguo porque pode
referir-se (1) a uma elevação da superfície do mar ou (2) a um lugar
disponível num hotel, escola, empresa, etc.. Quando um termo polissémico
possui diferentes etimologias nas suas aplicações possíveis, os
filólogos costumam tratá-lo como constituindo na realidade duas palavras
diferentes; os filósofos tendem a compreender esse termo como um só; e
os escritores exploram livremente todas as possibilidades de aplicação.
Quando tomamos o sentido (2) de "vaga" pelo sentido (1), por exemplo,
falamos de um equívoco. A ambiguidade lexical ocorre em certo tipo de
palavras que encerram múltiplos significados como a palavra-ômnibus,
por exemplo, "legal", e a palavra-portmanteau. Um exemplo
corrente desta última é o neologismo introduzido por Jacques Derrida:

différance – que significa ao mesmo tempo

"diferição", "retardamento", "adiamento" (do fr. différer,
"diferir") e "diferença", referindo-se ao acto de dissemelhança, ao
diferente (não exactamente ao diferido). O termo cunhado por Derrida é
propositadamente pronunciável da mesma forma nas expressões

différance e différence, porque a escritura não copia
exactamente a fala, pretende ser uma síntese deste duplo movimento de
ser diferente/dissemelhante e diferente/retardado. A ambiguidade desta
palavra-portmanteau resulta deste duplo sentido.

            O
mesmo é válido para a sintaxe e não apenas para termos isolados. Sejam
as frases: (3) A Joana vê televisão. e (4) O Manuel fixou o olhar na
Joana. Em (3) temos apenas um sentido, sem que certas informações sejam
reveladas (por exemplo, a que horas, onde, que programas, etc.) –
trata-se de uma frase indeterminada; em (4) temos várias possibilidades
de significado para o olhar do Manuel, que pode conotar desejo, ódio,
aprovação, reprovação, admiração, suspeita, etc. – trata-se de uma frase
ambígua. De alguma forma, podemos dizer que qualquer frase que traduza
uma realidade é indeterminada, pelo princípio de que não é possível uma
frase conter todas as informações ou variantes de sentido que essa
realidade suporta.

Em português,
existem exemplos típicos de ambiguidade sintáctica que podem ser
explorados didacticamente. Um problema conhecido é o do seguinte
enunciado: (1) Deixo os meus bens a minha irmã não a meu sobrinho
jamais será paga a conta do alfaiate nada aos pobres.
Verifica-se
que o apagamento da pontuação tornou a frase ambígua, não ficando
explícito a quem é que o sujeito deixou os seus bens. Diferentes
soluções de pontuação podem levar a diferentes atribuições desses bens: 
(1a) Deixo os meus bens a minha irmã. Não a meu sobrinho. Jamais será
paga a conta do alfaiate. Nada aos pobres.
(1b) Deixo os meus
bens a minha irmã? Não. A meu sobrinho. Jamais será paga a conta do
alfaiate. Nada aos pobres.
(1c) Deixo os meus bens a minha irmã?
Não. A meu sobrinho? Jamais. Será paga a conta do alfaiate. Nada aos
pobres
. (1d) Deixo os bens a minha irmã? Não. A meu sobrinho?
Jamais. Será paga a conta do alfaiate? Nada. Aos pobres
. Em termos
linguísticos, podemos dizer que a estrutura de superfície (1) oculta
várias estruturas profundas (1a; 1b; 1c; 1d), que constituem os sentidos
exactos da frase ambígua (1). Esta tetra-significação da frase (1)
mostra também que a ambiguidade não é uma circunstância fortuita da
linguagem; que é possível exercer um certo poder sobre a ambiguidade
(decidir por um dos destinatários); que não devemos desleixar o vazio
aparente de sentido de uma frase ambígua nem nos determos apenas num
sentido possível; que devemos excluir as hipóteses de sentido das
soluções que não estejam em correlação (por exemplo, em (1), seria de
excluir uma hipótese como (1e) Deixo os meus bens? Não a minha irmã e
a meu sobrinho. Jamais será paga a conta do alfaitate. Nada aos pobres
.,
porque nenhuma relação se estabeleceu entre os bens e os possíveis
destinatários, acrescentando-se uma nova ambiguidade: será que eu
quero deixar os meus bens a alguém?
).

Anfibolia,
anfibologia e ambiguidade são termos que têm sido confundidos, pelo
menos, desde Quintiliano, que em Institutio oratoria, assevera: "amphibologia
id est ambiguitas" (VII, 9). A anfibolia (do gr. amphibolia,
"ambíguo") é um termo da lógica que se refere a qualquer locução ou
proposição de duplo sentido, sendo, neste caso, sinónima de anfibologia.
Um exemplo de anfibolia na literatura portuguesa pode encontrar-se na
fala da personagem alegórica Alma, do Auto da Alma de Gil
Vicente, que diz: "Venho por minha ventura / amortecida." A palavra
"ventura" tem, nas épocas arcaica e clássica, o sentido duplo de "má
sorte" e "boa sorte". Neste caso, a anfibolia depende do contexto (não
da estrutura sintáctica) para poder ser descodificada num só dos
sentidos possíveis, que é, neste caso, "má sorte". Por sua vez, a
anfibologia (do gr. amphíbolos, "ambíguo") é uma forma de
ambiguidade do sentido numa construção sintáctica. Como termo lógico, a
anfibolia traduz também o uso transcendente dos conceitos, segundo o
sentido consagrado no sistema kantiano, falando-se então em anfibolia
transcendental
, conceito distinto, neste outro caso, do de
anfibologia. Esta distinção entre anfibolia e anfibologia não é aceite
por todos os dicionários, sendo a tendência geral o repúdio da forma

anfibologia. André Lalande, no seu Vocabulaire technique et
critique de la philosophie
(15ª ed., 1985), propõe "utilizar de
preferência ambiguidade para as palavras ou os termos,
anfibolia
para as frases ou as proposições, e equívoco no
sentido geral." A validade desta proposta está fundamentada na distinção
que o próprio Aristóteles faz nas Refutações Sofísticas entre
anfibolia e homonímia. Por regra, considerava que a anfibolia é uma
forma de expressão incorrecta, se não tiver um fim determinado, como
acontece nas sentenças oraculares. Pesando a relação entre anfibolia e
homonímia, Aristóteles assume primeiro que ambas são formas de refutação
e fornece exemplos como: 1) de homonímia: "São aqueles que sabem que
aprendem, porque os gramáticos aprendem as coisas que os seus discípulos
lhes são ditam
. Porque aprender é um termo ambíguo, pois é ao
mesmo tempo compreender por meio do conhecimento e também adquirir
conhecimento." (165b 1); 2) de ambiguidade: "Falar do
silêncio é possível
,  porque ‘falar do silêncio’ tem um duplo
sentido: pode significar que o locutor está em silêncio ou que as coisas
de que fala estão silenciosas." (166a 1). A homonímia será,
portanto, a ambiguidade de palavras e a anfibolia, a ambiguidade de
construções. As anedotas recorrem com frequência à combinação de ambos
os processos para obterem o efeito de cómico pretendido, por exemplo:
“Que juros cobra?”, “Vinte por cento… “, “É carinho!”, “Pois é, eu para
os amigos sempre fui muito carinhoso.”.

Um dos jogos de
palavras que mais se presta à construção de enunciados ou termos
ambíguos é o chamado pun, que James Joyce usou com abundância em
Finnegans Wake (1939). A ambiguidade do pun resulta em
particular de situações de homonímia, podendo ser relacionado com
o tropo da paronomásia. Duas formas correntes de pun são o
asteísmo e o equívoco. O asteísmo é uma figura de retórica
que recorre à ambiguidade para distorcer, conforme a conveniência da
situação discursiva, o verdadeiro sentido da mensagem. Está, pois,
relacionado com todas as formas de double entendre, que
geralmente comportam uma insinuação moderadamente irónica. O equívoco é
uma forma especial de jogo de palavras.

O discípulo de I.
A. Richards, William Empson, explicou a dificuldade da determinação do
sentido com uma teoria da ambiguidade, que relançou a questão na teoria
literária, sobretudo no interior do New Criticism. Empson publica
Seven Types of Ambiguity (1930) aos 24 anos, e adopta um estilo
de análise textual que recorre às leituras cerradas (close readings).
O principal resultado da investigação de Empson foi o de considerar que
a ambiguidade era afinal a primeira virtude da poesia, ao contrário do
que até aí se supunha. A ambiguidade é então a origem da eficácia
poética. Os sete tipos apresentados são: 1) A função multidireccional de
um termo ou estrutura gramatical; 2) A fusão de dois ou mais sentidos
num só; 3) A paronomásia, que determina que dois sentidos aparentemente
desconexos ocorram simultaneamente; 4) A não concordância de dois ou
mais sentidos que se combinam para tornar claro o estado de espírito do
autor; 5) A descoberta que o autor faz das suas ideias no acto da
escrita, ou quando não tem consciência imediata dessas ideias; 6) A
produção de enunciados contraditórios ou irrelevantes que obrigam o
leitor a inventar enunciados próprios susceptíveis de serem conflituosos
entre si; 7) A contradição completa de um enunciado, os dois valores da
ambiguidade, que marcam uma divisão na própria mente do autor. Enquanto
o New Criticism separava o texto do contexto social, Empson
insistiu em tratar a poesia como uma espécie de linguagem "comum", capaz
de ser racionalmente parafraseada – tese já defendida por Wordsworth no
prefácio à 2ª ed das Lyricall Ballads. Empson é um
intencionalista puro e confesso, que apenas se interessa pelo sentido
ditado pelo autor. Longe de existir como um objecto hermeticamente
fechado entre si, a obra literária, para Empson, é aberta: a compreensão
da obra envolve mais a compreensão dos contextos gerais, nos quais as
palavras são usadas socialmente, do que a identificação dos padrões de
coerência verbal interna. Esses contextos provavelmente serão sempre
indeterminados, pois, assim acredita Empson, a linguagem conota pelo
menos tanto quanto denota. No sentido em que a ambiguidade se pode
associar a toda a construção plurissignificativa da linguagem, Empson
pode dizer que a poesia é, por excelência, o lugar das "maquinações da
ambiguidade". A teoria de Empson depressa despertou discussões animadas,
sobretudo por causa do excessivo esquematismo da proposta. John Crowe
Ransom, em "Mr. Empson’s Muddles" (The Southern Review, 4, 1938),
conta-se entre os comentadores mais críticos.

Se oposta a
clareza, lucidez e inteligibilidade – atributos dos enunciados de
natureza científica -, a ambiguidade pode ser vista como um erro de
expressão e assim foi, pelo menos até ao modernismo. Contudo, quando
intencional, como no caso mais evidente dos enunciados poéticos, pode
funcionar como uma qualidade do discurso. A prática crítica de I. A.
Richards chamou a atenção para este facto e Empson teorizou sobre as
condições de ocorrência da ambiguidade sobretudo na poesia, na certeza
de não poder nunca funcionar como recurso retórico (não é, a rigor, um
artifício poético, como quer, por exemplo M. H. Abrams, que no seu A
Glossary of Literary Terms
(6ªed., Harcourt Brace College Pub., Fort
Worth, 1993), apresenta a ambiguidade como um "poetic device"), como
algo por que se possa optar arbitrariamente, porque se trata de uma
função natural da linguagem apenas realçada pelas plurissignificações
que relevam da poesia.

Para além da
poesia, outras formas de expressão utilizam a ambiguidade nas suas
várias realizações discursivas: o pun, o enigma, a adivinha e a
anedota são enunciados que baseiam a interpretação da sua mensagem em
representações indirectas de nomes, termos e ideias, jogando com
sentidos duplos. Por exemplo, na seguinte anedota: "Como é que se
distingue um pára-quedas alentejano?", "É o que abre com o impacte.", a
ambiguidade baseia-se no jogo de pré-conceitos colectivamente assumidos
por uma comunidade linguística (a falta de inteligência dos alentejanos
e a lentidão dos seus movimentos), que se concretiza num jogo de
palavras que leva o intérprete a esperar um determinado desfecho pelas
informações do enunciado introdutório, sendo depois surpreendido pela
impossibilidade lógica do segundo enunciado, criando um efeito de cómico.
Este esquema simples é comum a muitos textos humorísticos. O humor
depende invariavelmente de uma situação inesperada, o que se consegue
com a introdução de elementos ambíguos ou deslocando elementos para
contextos morfossintácticos diferentes.

{bibliografia}

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