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A definição de auto é problemática já em virtude de, na época medieval, o vocábulo ter sido tomado como sinônimo de qualquer peça de teatro. Um auto poderia denominar uma farsa, uma moralidade, um mistério, um milagre, uma tragicomédia etc. Com efeito, parece inútil o desejo de individuar, com rigorosa sistematização, suas características formais, temáticas e ideológicas. Deixando de lado tal pretensão desarrazoada, então, pode-se tratar das supostas peculiaridades que tomariam parte num seu conceito.

O auto seria, no mais das vezes, um gênero breve, muito embora deva ficar claro que a extensão não pode ser tomada como parâmetro para classificar um gênero dramático de auto. No que toca a sua temática, o auto tanto pode desenvolver um assunto religioso quanto um assunto profano. Entretanto, é preciso acrescentar que, na sua origem, os autos estiveram relacionados, sobretudo, com a encenação de “quadros edificantes tirados da Bíblia, sendo os mais antigos os autos de Natal e de Páscoa” (Roncari, 2002, p.88).

Encenados, de começo, dentro dos templos religiosos, depois, em suas portas de entrada e pátios, só posteriormente a representação dos autos ganhou os lugares menos “sagrados”, como as feiras, os mercados e as praças públicas. É nesse cenário, que eles tornam-se um gênero dramático de feição nitidamente popular, vocação esta que é lembrada em muitas das conceituações compulsadas para a redação deste verbete. Saindo da esfera da igreja, é normal que os autos também começassem a tratar de assuntos mais profanos. Do que ficou dito, pode-se ser levado a pensar que os autos apresentavam motivos bem compartimentados em religiosos e profanos. Não é o que ocorria: havia dramatizações nas quais coexistiam elementos sacros e seculares, cômicos e devocionais. Isso, na dramaturgia de um Gil Vicente (1465?-1537?), semelha “ligar-se à busca de compatibilização do riso, da alegria e da naturalidade com a fé” (Mongelli et al, 1992, p.177).

A unidade temática e formal – que alguns quiseram tomar como definidora do gênero – não é algo que sempre aparece nos autos, podendo-se citar, com certa tranqüilidade, composições em que inexiste essa unidade: é o caso do Auto da Lusitânia (1532), do Auto da Mofina Mendes (1515) e do Auto da Sibila Cassandra (1513), todos de autoria do português Gil Vicente (Cf. Bernardes, 1995, p.455).

Elegendo como paradigma ainda Gil Vicente, as personagens que povoam o mundo possível dos autos são planas, podendo se apresentar como tipos e caricaturas. Por sinal, muito do humor dos autos é engendrado pela tipicidade das personagens. Existe espaço ainda para personagens alegóricas. Quanto à linguagem que falam, observa-se um “coloquialismo variado” (Mongelli et al, 1992, p.186), fruto da heterogeneidade desses seres de papel. O cenário, quando existia, era extremamente simples. Poucas eram as marcações teatrais dos textos.

{bibliografia}

Demetrio Estébanez Calderón. Diccionario de Términos Literários (2006); José Cardoso Bernardes. “Auto em Portugal”. In.: Biblos, v.1. (1995); Lênia M. de Medeiros Mongelli et al. A Literatura Portuguesa em Perspectiva: Trovadorismo/Humanismo (1992); Luiz Roncari: Dos Primeiros Cronistas aos Últimos Românticos (2002); Massaud Moisés. Dicionário de Termos Literários (1995).