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Em crítica literária, o que nos permite distinguir o erro da verdade; o que nos diz se algo existe ou não; o que nos permite legitimar a correcção de uma palavra, um texto, uma ideia; o que nos permite distinguir todas as diferenças de um dado texto consigo mesmo e com outros textos.

Não é possível fazer verdadeiramente crítica literária sem critério e um erro comum na prática crítica da literatura reside no privilégio duma crítica judicativa fundada nas mais variadas razões sem ser no critério. É prática corrente concentrar a questão crítica nas qualidades de estilo e linguagem de um autor, fazendo acompanhar tal apreciação de certezas sobre a intenção do autor. Esta estratégia não pode ser epistemologicamente reconhecida como crítica literária, pois este exercício deve ser fundado exclusivamente no critério. As questões de gosto literário não são geralmente reconhecidas como questões de crítica literária, sobretudo nos meios académicos. A crítica literária genuína faz-se de comprovação da verdade não só na prática social para onde deve apontar a obra de arte como na demonstração lógica de todas as teses dessa obra. A investigação dos sinais de verdade de uma dada obra literária é a essência da crítica literária. É devido ao critério que alcançamos todas as interpretações que propomos sobre um texto literário. Ao contrário do critério universal e último da verdade dos filósofos, o critério do texto literário não pode ser nem universal nem último, porque não é possível enunciar um sinal que seja comum a todas as espécies de verdade possíveis de encontrar numa obra de arte literária. Por outras palavras, não há evidências; não podemos dizer de um dado texto que um dado sentido é nele evidente, dispensando demonstração.

A pretensão de a crítica literária necessitar de um critério de verdade para ser válida poderá ser contraproducente ao facto de o dogmatismo não fazer sentido numa era pós-estruturalista dominada pela instabilidade, pela indecidibilidade, pela indeterminação, pelo inacabamento e pela disseminação. O critério de verdade da crítica só pode ser entendido como princípio de investigação que aceita à partida a possibilidade de ser falível o exercício crítico em si mesmo, em termos de resultados, em termos de leitura crítica. Um caminho proveitoso é aquele que nos leva a agir como os cépticos gregos depois de Aristóteles, que substituíram o critério de verdade absoluta dos epicuristas pelo critério de verosimilhança. Quer isto dizer que, no estudo/apreciação de um texto literário, o critério a adoptar seria o de não aceitar a existência de evidências de compreensão desse texto, o que seria equivalente a emitir opiniões, mas aceitar a existência contingente de suspensões de juízos textuais (a epokhê dos pirrónicos gregos). É possível governar a lógica da leitura crítica com o critério do plausível, sem a pretensão de certezas dogmáticas. A ataraxia ou imperturbabilidade de toda a filosofia helenística não serve de termo de comparação nem à leitura textual nem ao leitor de hoje. Este tende, precisamente, a ser cada vez mais uma espécie de mineiro incansável do sentido, numa caverna-texto onde apenas se respira instabilidade.

Se os diálogos aporéticos de Platão nos ensinam que o essencial da filosofia deve ser conduzir a um elenkos que considere os prós e os contras de todos os assuntos, então o melhor critério a seguir na leitura crítica do texto literário deve ser também este mesmo: investigar os prós e os contras do sentido de um texto, segundo uma lógica determinada a encontrar as categorias válidas para a apreensão do texto como uma totalidade em permanente transformação.