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Se cremos com Nietzsche (1844-1900) que o que tem história não pode ser definido, optaremos por traçar, embora brevemente, a trajetória cronológica do enciclopedismo, na qual se vão pontuando sua natureza e importância.

A iniciativa de compor a Enciclopédie, escrita entre 1751 e 1772, de Denis Diderot (1713-1784) e Jean le Rond d’Alembert (1717-1783), parte de uma concepção coletiva de escrita, uma nova escrita, onde os colaboradores – “sábios”, cientistas, juristas, artistas, educadores, gramáticos, eclesiásticos, economistas e artesãos – realizam o esforço da síntese. Não que essa possibilidade de colaboração não existisse antes: as enciclopédias anteriores à inaugural obra coletiva do Iluminismo são de “aparente” autoria individual, mas nelas pulsa a possibilidade de colaboradores “invisíveis”. Então, o que marca a Enciclopédie é a digital do coletivo, a construção comum da “república dos colaboradores”, o que resguarda a filosofia da iniciativa, impossível, de ser realizada por um só autor, conforme postulou Diderot. A novidade da obra iluminista reside, então, no princípio da polifonia, da confluência de vozes, cada texto, entrada ou verbete integrando o todo, que tem maior possibilidade de lutar contra a finitude do conhecimento individual. Os enciclopedistas passam a existir na sua completude, incondicionalmente, numa polifonia com outros enciclopedistas e no concerto dessas vozes, que sintetizam o conhecimento produzido; por exemplo, os verbetes, que são traduções, estruturam um lugar na cadeia de produção de conhecimento, configurando o lugar da difusão. Aliás, a palavra “enciclopédia” vem do grego enkiklios paideia e significa “cadeia do conhecimento”. O primeiro trabalho, que reivindica essa característica em seu título, é a Encyclopedia Septem Tomis Distincta, de Johann Heinrich Alsted (Alstedius, em latim) (1588 – 1638) – filósofo, teólogo protestante e escritor alemão -, publicada em 1630, mais de 100 anos antes, portanto, da mais famosa de todas, a versão francesa, a Encyclopédie ou Dictionnaire Raisonné des Sciences, des Arts et des Métiers (Enciclopédia ou Dicionário Sistemático das Ciências, Artes e Ofícios). Talvez a grande novidade da edição da Enciclopédie seja a difusão de um conhecimento que se queira total; essa difusão e essa totalidade seriam, quem sabe, a base do próprio Iluminismo ou, pensando-se numa perspectiva inversa, a propulsora do Siècle des Lumières. Tenhamos em conta que o século XVII foi, também, o grande século de produção de dicionários normativos, da Academia Francesa e da Academia Espanhola, por exemplo (HAENSCH et alii, 1982, 112). Nesta linha cronológica, os antecedentes da Enciclopédie são os dicionários dos séculos XVI e XVII, situados na ante-sala da dicionarística italiana.

A polifonia da enciclopédia constitui-se no entrelaçado dos verbetes, que configuram o macro-texto da Enciclopédie, que é adensado a cada colaboração, não ficando mais invisíveis os colaboradores. A intenção da obra coletiva é agora um enunciado explícito. A relação discursiva que aí se forja está apoiada numa transtextualidade (MARIN, 2004, 164), que registra uma dinâmica própria da história das ciências. Os enciclopedistas responderam às questões do seu tempo, induziram uma leitura e, por detrás dessa proposta, foram instalando, paulatinamente, uma nova maneira de pensar. A partir daquele momento, um espectro social ampliado pôde encontrar respostas (não importa se isso é um projeto ingênuo aos nossos olhos de hoje, talvez arriscando-nos demais no horizonte da teleologia), tanto assim que a edição da Enciclopédie foi um êxito e mais de 30 compêndios análogos foram publicados na França do Antigo Regime, um número expressivamente maior do que os das enciclopédias autorais publicadas nos duzentos anos anteriores. Num século XVIII, em que já se percebiam os benefícios das campanhas calvinistas iniciadas pela Reforma, o conhecimento foi se fazendo mais acessível com a combinação de maior proporção de alfabetizados e uma textualidade mais atraente, distribuída em mais de 70 mil artigos, com possibilidades de consultas abertas a um maior espectro de leitores e não apenas aos letrados de antes, sob um regime apoiado na censura, contando, para isso, com um pilão, o Pilon de la Bastille, que literalmente fazia pasta de papel com as impressões que iam contra os princípios ideológicos do Estado absolutista (DARNTOM, 1987). “A Bastilha, enquanto símbolo da transição do ‘despotismo’ do Antigo Regime para uma nova era de ‘liberdade’, funciona como uma mesa giratória semântica” (REICHARDT, in DARNTON & ROCHE, 1996, 313). Cabe também ressaltar que, no Ancien Régime, essas idéias, formuladas pelos filósofos, chegaram até aos leitores graças ao trabalho de enciclopedistas, que compilaram, resumiram, vulgarizaram, colaboraram, enfim, com a difusão das idéias iluministas na sociedade francesa da época. Tais enciclopedistas – que Darnton chama de “pobres diabos”- conformam uma intelligentsia situada no under do mundo das idéias, não freqüentando os salões aristocráticos nem sendo beneficiados pelo mecenato nem pelas pensões do Estado. Eles conferem ao movimento um sabor alternativo, permitindo-nos entendê-lo como uma história social das idéias.

Por outro lado, as edições da Enciclopédie foram um êxito de mercado e o mercado mesmo a privilegiou, o que não é um dado menor, já que neste campo também havia um controle das palavras (DARNTON, 1987, 32), realizado pelas corporações de livreiros sobre obras produzidas pelos que não tinham privilégios das associações filosóficas.

Com seu afã enciclopedista, a Ilustração ou o Esclarecimento (em alemão, Aufklãrung; em inglês, Enlightenment; em italiano, Illuminismo; em francês, Siècle des Lumières; em espanhol, Ilustración ) propicia o ambiente intelectual para que o texto que busca descrever e conceituar as “coisas” da realidade, ou seja, o verbete, tome a forma que toma, inscrito numa seqüência textual “coletiva”, que é a Enciclopédia.

Um belo poema Al adquirir una enciclopédia, de Jorge Luis Borges (1899-1986), amante inveterado das enciclopédias, dá a dimensão do afã enciclopédico, presente em escritores e leitores de todas as eras, per omnia saecula saeculorum:

 

Aquí la vasta enciclopedia de Brockhaus aquí los muchos y cargados volúmenes y el volumen del atlas, aquí la devoción de Alemania, aquí los neoplatónicos y los agnósticos, aquí el primer Adán y Adán de Bremen, aquí el tigre y el tártaro, aquí la escrupulosa tipografía y el azul de los mares, aquí la memoria del tiempo y los laberintos del tiempo, aquí el error y la verdad, aquí la dilatada miscelánea que sabe más que cualquier hombre, aquí la suma de la larga vigilia. Aquí también los ojos que no sirven, las manos que no aciertan las ilegibles páginas, la dudosa penumbra de la ceguera, los muros que se alejan. Pero también aquí una costumbre nueva, de esta costumbre vieja, la casa, una gravitación y una presencia, el misterioso amor de las cosas que nos ignoran y se ignoran. (BORGES, 1981, 23)

{bibliografia}

 

BORGES, Jorge Luis. La cifra. Madrid: Alianza, 1981.

DARNTON, Robert. Boemia Literária e Revolução. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

DARTON, Robert & ROCHE, Daniel (org.) Revolução Impressa: A Imprensa Na França: 1775 – 1800. São Paulo: EDUSP, 1996.

HAENSCH, G. et alii. La lexicografía. De la Lingüística Teórica a la Lexicografía Práctica. Madrid: Gredos, 1982.

MARIN, Marta. Conceptos claves: Gramática, Lingüística, Literatura. Buenos Aires: Aique, 2004.

MONTENEGRO, Érica. “Enciclopédia Francesa: A internet do século 18”, in: http://historia.abril.com.br/cultura/enciclopedia-francesa-internet-seculo-18-435636.shtml (consulta em 10 de agosto de 2009).

Verbete com a participação de Geruza Queiroz Coutinho