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Sistema de relações que se estabelece entre os elementos de um texto, de forma a que cada elemento deve a sua significação à solidariedade ou ao vínculo que funda com os restantes. Termo de diversas aplicações nas ciências humanas e sociais (provém do latim structura, “construção”, numa acepção arquitectural, e partilha a mesma dificuldade de definição em outras línguas com termos como o alemão Gestalt e o inglês pattern), entrou na teoria da literatura através dos trabalhos dos formalistas russos (Jakobson e Tynianov, sobretudo) e da fenomenologia de Roman Ingarden, que concebiam a obra de arte como um sistema complexo constituído por diferentes níveis de significação, necessariamente relacionados entre si. Um dos problemas imediatos que esta noção de estrutura levanta para o estudo do texto consiste em saber a que nível se colocam as estruturas literárias: 1) ao nível de uma obra individual, 2) no conjunto das obras de um autor, 3) no horizonte de uma “época” ou 4) de um “género”? A noção de estrutura, segundo esta tradição dita estruturalista, baseia-se numa concepção estática do texto – visto como um conjunto dos signos que, correlacionados e hierarquizados, constituem um todo e determinam a significação do texto. Na origem desta teoria, está a noção de sistema que Saussure introduz no seu Curso de Linguística Geral (sem referir nunca o conceito de estrutura), porque a língua é pensada em termos puramente formais, quando se entende ser um sistema de entidades interdependentes. Da mesma conjuntura parte, por exemplo, Propp para as análises estruturais da narrativa, concluindo que os contos tradicionais possuem uma estrutura comum, que é imanente ao próprio texto narrativo, e que permite chegar a uma sistematização formal ou a um modelo de análise de aplicação universal. Os estruturalistas franceses da década de 1960 (Barthes, Greimas, Genette, Bremond, etc.) elevarão este tipo de análise a um nível pretensamente científico, de forma a alcançar uma espécie de língua ou gramática universal da narrativa.

Uma noção menos datada de estrutura leva-nos à simples organização interna do texto literário, que há-de incluir elementos interelacionados como as personagens, o espaço, o tempo, a acção ou a história. A análise puramente estrutural do texto literário faz-se por esta via recorrendo a outras funcionalidades como a perspectiva narrativa, a voz, os modos de expressão do discurso, a caracterização das personagens, os mecanismos de construção do tempo da narrativa, etc.

{bibliografia}

Anatol Rosenfeld: Estrutura e Problemas da Obra Literária (1976); Daniel Burke: Notes on literary structure (1982); Iouri Lotman: La structure du texte artistique (1973) ; Jurij Striedter: Literary structure, evolution, and value : Russian formalism and Czech structuralism reconsidered (1989); R. Bastide (ed.): Sens et usages du terme structure dans le sciences humaines et sociales (1962).