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De acordo com Aristóteles na sua Poética, o herói trágico é aquele que sofre um reverso na sua fortuna que o conduz da felicidade ao fracasso em consequência de um erro, de um juízo erróneo ou um passo mal dado, em suma uma falha trágica – hamartia.

Nas tragédias gregas uma forma comum de hamartia era também o pecado contra a hybris – aquele orgulho ou excesso de auto-confiança que conduz o protagonista a desobedecer aos avisos divinos ou a violar qualquer importante lei moral. A hybris conduz à queda e à inevitável punição.

Aristóteles sublinha que: “são os carácteres que dão aos homens as suas qualidades, mas são os seus actos que os tornam felizes ou miseráveis. Um “herói”, afirma, “é um homem cuja infelicidade o atinge não através do vício ou devassidão, mas em consequência de algum erro”. O que faz dele uma figura trágica é o facto de ter qualidades de excelência, de nobreza e de paixão; de possuir virtudes e dávidas que o elevam acima do comum dos mortais, mas que na tragédia se revelam insuficientes e lhe acarreta a auto-destruição.

A hamartia pode resultar, igualmente, de um mau julgamento, de ignorância, de fraqueza inata ou quaisquer outras causas. No entanto, ela define-se sempre como acção concretizada ou acto falhado.

Édipo mata o pai (ignorando-o), mas pratica a acção comandado por um impulso; Antígona resiste à lei do Estado por um acto de teimosia e provocação; e Fedra é consumida pela sua paixão por Hipólito.

Actualmente, a interpretação deste termo, assumido como falha ruinosa, representando ele próprio uma fraqueza, uma imperfeição; dilatou-se, e é hoje entendido também como um conceito que significa uma desmesura na composição do carácter; um excesso de valor ou de virtude que pode em certas circunstãncias ser considerado como hamartia.

{bibliografia}

Aristóteles: Poética (1990); Donald V. Stump, James Arieti, Lloyd Gerson e Eleonore Stung (eds.): Hamartia: The Concept of Error in the Western Tradition: Essays in Honour of John M. Crossett, (1983); Marco Mincoff:: “Shakespeare and Hamartia”, English Studies (Nijmegen, Holanda), n° 45, 1964; M- E. Grenander: “Hamartia, Hamlet, Othello”, Hypotheses: Neo-aristotelian Analysis, n° 7, 1993.