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Texto
programático de uma escola ou de um movimento literários ou de
um artista individual, que serve proposta para a fundamentação
de uma nova estética, para um protesto contra uma ideologia
vigente, ou para marcar uma posição política dentro de uma
determinada conjectura cultural. Apesar de em 1789, a Assembleia
Nacional de França ter anexado à sua constituição de 1791 uma
célebre Declaration des droits de
l’homme et du citoyen
,
que pode concorrer com o conceito de manifesto, a ideia
de texto de propaganda  adquiriu o seu sentido actual sobretudo
a partir do documento

Manifesto
do Partido Comunista,
publicado em 1848, por Marx e Engels, no qual se afirmam os
princípios básicos do movimento comunista. O tipo de discurso
inflamado, repleto de desafios da ordem prevalecente, o apelo ao
combate ideológico, o convite directo aos cidadãos para
participarem nesse combate e a linguagem desabrida são já
características do novo género literário. O excerto do final
desse manifesto testemunha estas características: “Finalmente,
os comunistas trabalham para a união e o acordo entre os
partidos democráticos de todos os países.

Os comunistas consideram indigno dissimular as sua ideias e
propósitos. Proclamam abertamente que os seus objectivos só
podem ser alcançados derrubando pela violência toda a ordem
social existente. Que as classes dominantes tremam ante a ideia
de uma Revolução Comunista! Os proletários não têm nada a perder
com ela, além das suas cadeias. Têm, em troca, um mundo a
ganhar. PROLETÁRIOS DE TODOS OS PAÍSES, UNI-VOS!”.

Na literatura, o conceito de manifesto é mais abrangente e não
está necessariamente ligado ao apelo à luta política. Qualquer
arte poética é, a rigor, um manifesto de intenções para fundar
uma nova estética e, assim sendo, conhecer-se-ão manifestos
desde a Antiguidade clássica. Mas é sobretudo a partir do
romantismo que melhor se define o género. O prefácio
programático à segunda edição das

Lyrical Ballads
(1800), de William Wordsworth e Samuel Taylor Coleridge, é o
melhor exemplo de um programa estético que procura introduzir
uma nova sensibilidade para o fenómeno da criação literária. No
início do século XX, registamos manifestos tão importantes como
o de Marinetti,

publicado na revista Le Figaro, em Paris, em 20 de
Fevereiro de 1909, para fundar o futurismo e defender um novo
ideal de vida marcada pelo mecanicismo da civilização
contemporânea, e os de André Breton, de 1924 e 1930, para
inaugurar o surrealismo, uma nova estética que se propunha
conciliar o real e o sonho e combater as antigas crenças no
humanismo e nas suas representações materialistas. Em Portugal,
ficou célebre poema satírico de Almada Negreiros, Manifesto
Anti-Dantas
(1916), como forma de protesto contra as
gerações anteriores de poetas sem fulgor e sem ideias novas:
"Uma geração que consente deixar-se representar por um Dantas é
uma geração que nunca o foi! É um coio d’Indigentes, d’indignos
e de vendidos e só pode parir abaixo do zero!".