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Termo que remonta ao mito de Fedro, contado por Sócrates, o qual serve de base ao conhecimento das ideias e ao método intelectual do platonismo. De acordo com este mito, a alma humana teria circulado pelo mundo das ideias como um carro puxado por dois cavalos alados. O carácter desordeiro de um desses cavalos, metáfora dos instintos sensuais e das paixões, e as dificuldades de condução do mesmo teriam levado à queda da alma e à correspondente incarnação no corpo. O homem incarnado perde o acesso às ideias contempladas pela alma na sua situação originária. Mas ao ver as coisas, estas fazem-no recordar as ideias vislumbradas na existência anterior. O homem parte das coisas para que elas lhe provoquem uma recordação ou reminiscência (anamnesis) das ideias já contempladas. Conhecer é recordar o que está dentro de nós, as ideias anteriormente vislumbradas.

Aristóteles considera a memória como a única fonte de recordação e de transmissão de conhecimento de pessoa para pessoa e de geração para geração. O mesmo pensador, na Poética, define a tragédia como imitação de uma acção completa, constituindo um todo com certa grandeza, porque o belo, segundo Aristóteles, consiste na grandeza e na ordem. A visão de conjunto torna-se imprescindível para a apreensão do belo e daí que o mito, princípio da tragédia, deve ter uma extensão bem apreensível pela memória. Encontramos, pois, a ligação entre a capacidade de memória e a apreensão do belo, assim como encontramos, em termos gerais, a memória intrinsecamente ligada ao mito, no fundo, à explicação fabulosa de um tempo perdido, onde impera o desconhecimento.

A detenção de uma memória divinizada caberia aos antigos poetas épicos que recorriam às Musas, filhas de Mnemosina (a Memória) e de Zeus, para que estas os informassem da verdade sobre os acontecimentos cantados nos poemas. O platonismo virá contestar esse poder dos poetas, favorecendo a filosofia. A separação da poesia da Mnemosina e a perda do carácter inquestionável, universal e profético (fontes de conhecimento) da Verdade recordada nos poemas são igualmente consequência do aparecimento da poesia lírica pela sua circunscrição ao indivíduo. Recusando a inquestionabilidade da Verdade expressa na poesia, a filosofia considera—a como mimese, prescrevendo-lhe uma série de princípios estéticos onde a verosimilhança seria o motor da representação do universal. O poeta não canta a Verdade, mas sim verdades possíveis. Segundo Aristóteles, o ofício do poeta é o de representar o que poderia acontecer, ou seja, o que seria possível de acordo com a verosimilhança, retirando assim à poesia a detenção da Verdade sobre o que realmente aconteceu.

Porém, as verdades da poesia revestem-se de um carácter indeterminado, enigmático, são verdades prometidas na linguagem do poema, passíveis de interpretação. A presença sensível dessas verdades enigmáticas leva a que a memória encerrada no poema seja reencontrada e reinventada. Assim, afastamo-nos do conceito de poesia como representação, porque a sua linguagem não representa, mas sim faz pressentir o indizível anterior à construção do poema. A poesia não é a expressão dos factos passados a partir de uma activação da memória, mas sim a suspensão desse indizível imemorial buscado pela linguagem poética. Estamos perante a inacessibilidade da Palavra originária.

Neste contexto do indizível, encontramos a ligação entre a memória e a tradição oral da literatura, constituindo-se esta última como uma aprendizagem transmissível de geração para geração. A transmissão oral implica a presença do destinatário, bem como a sua “visualização” do que é dito. Tal significa que a par do que é dito prevalece toda uma actividade motora desenvolvida pelo emissor, a qual corporiza e vivifica o dizer. A relação estabelecida entre os interlocutores é, portanto, marcada pela imaginação, prevalecendo a memória desses elementos indizíveis também eles constituintes da narrativa ou do poema.

Assim sendo, a memória é entendida como retenção de um dado conhecimento, mas também como activadora da imaginação e das capacidades de interpretação, problematização e reinvenção, as quais actuam sobre o que é recordado pelo sujeito. Nestes termos, é possível a aproximação à história literária, partindo dos conceitos de cultura, tradição e modernidade. Constituindo a modernidade um ideal de ruptura, esta implica a permanência do modelo com o qual pretende romper. A modernidade existe porque existem também os modelos tradicionais que a mesma deseja substituir. Se, por outro lado, os modelos modernos tendem a tornar-se tradicionais, no sentido em que são passíveis de reformulação por ideais de modernidade futuros, poder-se-á então falar do destino tradicional da modernidade e entender a falência dos vários movimentos vanguardistas da história literária. Assim, a memorização destes novos movimentos e a sua consequente aceitação como normas de gosto virão a impor novos movimentos de ruptura. Resumindo, qualquer movimento de modernidade recorre à memória e à tradição para se afirmar como ruptura face às mesmas e, simultaneamente, recorre à memorização para se impor como norma de gosto, deixando em aberto possibilidades de renovação futura. Por outras palavras, a modernidade é efémera.

Muitas vezes, porém, a modernidade é afirmada como um regresso a um passado perdido, a uma plenitude ancestral, cuja restauração permitirá, por sua vez, a recuperação dessa totalidade esquecida e, neste ponto, regressamos à ideia de uma linguagem em busca da Palavra originária, perdida no tempo, a uma linguagem que se busca a si própria. A memória é encarada como reminiscência utilizada na construção do futuro e, desta forma, a tradição e a modernidade coexistem na reinterpretação do arcaico, pela recuperação da memória esquecida.

Este conceito de modernidade como recuperação de uma plenitude perdida vai ao encontro da concepção freudiana do Homem como ser de desejos que constrói a cultura para substituir o objecto perdido. No entanto, sendo uma das características da cultura a sua acção como modelo (como estandarização das maneiras de pensar, sentir e agir), esta despertará o desejo de ruptura, de emergência de movimentos vanguardistas, não encarados obrigatoriamente como ruptura definitiva face ao modelo, mas como reinterpretação a partir do que ficou esquecido nas atitudes uniformizadas por esse mesmo modelo. Daí que uma das funções da cultura seja a proposta de modelos que têm no seu cerne a adaptação da tradição a novos modos de vida. Desta forma, estabelece-se um acordo entre o passado e o presente, visando o futuro e, neste projecto, a memória tem um papel preponderante como reminiscência e não apenas como memorização de várias experiências.

Quando aplicado no plural, o termo memória relaciona-se muitas vezes com a autobiografia, o diário e com a literatura confessional, em geral. Nestes casos, a narrativa é escrita na primeira pessoa e o relato das experiências pessoais funciona frequentemente como auto-revelação, na sequência do humanismo antropocêntrico do período renascentista que, encorajando a análise e a exploração da subjectividade, influenciou a produção de autobiografias. As memórias constituem-se igualmente como artifícios ficcionais, sendo o autor uma personagem de um universo essencialmente fictício. O romance Robinson Crusoe (1719) de Daniel Defoe é apontado como percursor deste artifício, pelo qual a autobiografia se torna ficção. O mesmo se poderá aplicar a Les Confessions (1781) de Rousseau, obra inserida no vasto género da literatura confessional que se caracteriza pelos relatos pessoais e subjectivos das experiências, crenças, sentimentos, ideias e estados de espírito, não deixando estes de se revestir de carácter ficcional. Assim, o romance confessional sugere um tipo de autobiografia ficcional, onde o autor poderá assumir uma personalidade que não é a sua. É o caso de La Chute (1956) de Camus.

{bibliografia}

Adriano Duarte Rodrigues: “Tradição e Modernidade”, Revista da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas — Identidade, Tradição e Memória, n.o9 (1996); Andreas Huyssen: Twilight Memories (1995); Aristóteles: Poética, trad. de Eudoro de Sousa (1990); Cassiano Reimão: “A Cultura Enquanto Suporte de Identidade, de Tradição e de Memória”, Revista da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas — Identidade, Tradição e Memória, n.o9 (1996); José Augusto Mourão: “Tradição Oral e Literatura Bíblica”, Revista da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas — Identidade, Tradição e Memória, n.o9 (1996); Julián Marías: História da Filosofia (1987); Karen Hobbes: “Memory”, Rethoric Resources at Tech. (1996); Silvina Rodrigues Lopes: “A Poesia, Memória Excessiva”, Revista da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas — Identidade, Tradição e Memória, nº 9 (1996).