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Do grego polemiké, “a ciência da guerra”, e terá provavelmente entrado no léxico português através do francês, durante o século XIX. Polémica traduz quaisquer atitudes opostas daqueles que defendem ideologias diversas e que as expressam de modo controverso. Ao longo da história da literatura portuguesa são várias as polémicas que foram surgindo.

O carácter explicitamente polémico das cantigas de escárnio e mal-dizer do trovadorismo continha já um forte acento de disputa e fricção. A sátira aos costumes, aos motivos políticos expressaram e provocaram alguma polémica nos espíritos da época. Desde essa altura, não faltam exemplos de disputas ideológicas na história da polémica nacional. As divergências motivadas e aceleradas por posições opostas facilmente se transformavam em pequenas guerras pessoais. Estas tinham a sua maior divulgação através do panfleto, do jornal e das revistas que rapidamente se tornaram os veículos privilegiados destas contendas, ao mesmo tempo que rapidamente alimentavam um estilo voraz, certeiro e por vezes violento. Surgiram quase sempre coincidentes com o florescer de uma nova escola literária, que tentava impor-se no terreno nacional. Foram nesses períodos de convivência de dois movimentos literários, de duas idades, que surgiram as maiores e mais acesas polémicas nacionais.

Aquele contra quem se escreve, e a quem se é oposto, ditava o estilo de combate. Exemplo é a contenda do Cuidar e Suspirar que abre o primeiro volume do Cancioneiro Geral, coligido por Garcia de Resende e publicado em 1516. Os defensores de uma e de outra causa usaram de vários recursos para fazer ganhar a mais reveladora expressão do verdadeiro amor, que para uns era o suspirar do amor e para outros o cuidar do amor. É evidente o encontro do idealismo medieval da tradição com o naturalismo do renascimento. Outro duelo oratório foi o que teve lugar em 1544 nas Escolas Gerais de Paris, entre o português António de Gouveia ao francês Pierre de la Ramée, sobre o valor da filosofia aristotélica. O primeiro procurava defender a obra do filósofo, o segundo atacava Aristóteles sustentando que o conteúdo vazio de uma doutrina nada podia juntar ao saber humano. O primeiro saiu vitorioso, bem como a cultura portuguesa.

Em 1746, com a publicação do Verdadeiro Método de Estudar de Luis António Verney, surgiu mais uma das grandes polémicas portuguesas, foi um projecto ambicioso que pretendia renovar mentalidades e perspectivas, e que rapidamente gerou controvérsias. Defendia uma Retórica, Poesia e História despidas de fantasias, mais próximas da realidade das coisas. Defendia o engenho e o juízo. Mas não foi só esta nova ideia de literatura que suscitou polémica, uma vez que a obra abrangia variadíssimos temas que igualmente a suscitaram, como a geografia, a filosofia, a teologia, o direito canónico e civil e a medicina. No fim não houve vencidos nem vencedores. Embora os Jesuítas tenham sido expulsos, a reforma proposta por Verney não foi implementada.

No século XIX, Alexandre Herculano, a quem Oliveira Martins apelida de “ caturra de génio” (Portugal contemporâneo, 1881) provocou várias polémicas no seio da sociedade portuguesa. Contudo, só duas provocaram o impacte suficiente para se tornarem publicamente discutidas e reconhecidas. A primeira, em 1850, com a História de Portugal, onde no Tomo I nega a veracidade da aparição de Cristo a D. Afonso Henriques, na Batalha de Ourique. Esta controvérsia entre Herculano e a Igreja dura três anos. A segunda acontece em 1865 gerada pela introdução do chamado « casamento civil » na nossa legislação. A polémica surge no seio da comissão revisora, à qual Herculano pertencia, entre aqueles que defendiam o « casamento civil » obrigatório e os que defendiam o « casamento civil » facultativo, como era o caso de Herculano, que o fazia em nome dos postulados em que assentava a nova ordem liberal.

Ainda na mesma época, Camilo Castelo Branco deixa vir a público o seu carácter polemista; várias foram as polémicas em que se envolveu, como por exemplo, Eu e o Clero, com Alexandre Herculano em 1850.

Uma das mais famosas polémicas portuguesas surge em 1865, e ficou conhecida pela designação de « Bom Senso e Bom Gosto » ou « Questão Coimbrã », foi desencadeada pela publicação do poema «D.Jaime» de Tomás Ribeiro (1862), com prólogo de António Feliciano de Castilho defendendo um puritanismo vocabular e a tradição do antigo. Em resposta a esta perspectiva, surge o opúsculo de dezasseis páginas escrito por Antero de Quental intitulado Bom Senso e Bom Gosto – Carta ao Excelentíssimo Senhor António Feliciano de Castilho.

Castilho, apoiado por Ramalho Ortigão entre outros, espelhava e encarnava o medo à inovação, sob o pretexto de se conservar a tradição. Quental , apoiado por Teófilo Braga e Vieira de Castro, defendia a revolta contra a estagnação e a passividade, a favor de uma nova orientação de acordo com o espírito da época. A Questão dura seis meses, e durante seis meses abala o Portugal literário, e chegou mesmo a provocar um duelo à espada no jardim da Arca de Água, no Porto, entre Ramalho Ortigão e Antero. Também aqui a vitória foi de Antero de Quental.

Também em Eça de Queirós transparece o espírito polemista, embora nunca com adversários bem definidos e individualizados, mesmo quando se defende da acusação de ter plagiado o livro de Zola La Faute de l’abbé Mouret no Crime do Padre Amaro , não o faz contra ninguém em particular. No entanto, a sua produção a partir de 1870 revela o intuito polémico da crítica aos defeitos e vícios da ordem moral, social e estética estabelecida.

Na segunda década do século XX Almada Negreiros escreve O Manifesto Anti-Dantas o que provoca uma polémica com Júlio Dantas, representante de uma filosofia decadentista, burguesa, ultrapassada, à qual o grupo do Orpheu determinadamente se opunha.

Também na Europa se desenrolaram polémicas que de alguma forma têm um certo paralelismo com as que se passaram em Portugal, como por exemplo, a questão Des Anciens et des Modernes, em França, no fim do século XVII.

{bibliografia}

Artur Anselmo (dir.): As Grandes Polémicas Portuguesas (1964-1967); Dominique Bouhours: Pensées ingenieuses des Anciens et des Modernes (1971); Alexandre Cabral: As Polémicas de Camilo (Recolha e Perfácios) (1962-1967).