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Deriva do grego rhythmós, associado ao verbo reÎn (correr), proveniente do movimento dos rios. Ritmo significa, de uma maneira geral, a repetição periódica de elementos no tempo ou no espaço, mas, enquanto termo científico, designa um movimento apresentado de uma maneira particular.

Em todas as línguas a fala possui ritmo, embora o seu ritmo dependa da natureza de cada língua. O português, o francês, ou o espanhol, por exemplo, integram-se no ritmo silábico no qual todas as sílabas tendem a articular-se durante um tempo aproximadamente igual. A língua inglesa pertence a um sistema rítmico cuja unidade mínima é o pé, constituído por uma ou mais sílabas. Neste caso são os pés que se pronunciam numa duração mais ou menos regular, o que significa que, por exemplo, num pé de quatro sílabas cada uma delas deva ser mais breve do que a sílaba, obviamente mais longa, de um pé monossilábico. O ritmo da fala inglesa apresenta-se assim num movimento de velocidades diferentes, percorrendo períodos semelhantes de tempo, mas cria-se também na tensão entre os acentos de intensidade – equivalentes ao ictus da prosódia clássica – que surgem, de uma maneira sistemática, na primeira sílaba de cada pé. Segundo M. A. K. Halliday, o pé descendente constitui um elemento da estrutura fonológica inglesa. Este acento pode também ser silencioso, mantendo-se o ritmo, de um modo sub-vocálico, tanto na consciência do falante como na do ouvinte: o chamado “silêncio rítmico”.

A prosa é também provida de ritmo e Aristóteles afirma mesmo que o ritmo da prosa deve organizar-se em pés jambos – uma sílaba breve e uma longa – pois a cadência resultante da repetição desta alternância – a cadência jâmbica – seria a mais apropriada ao ritmo da fala.

Nas línguas românicas não existem vestígios de oposição quantitativa, e o ritmo poético baseia-se, sobretudo, nas posições tónicas e átonas, nos retardamentos, nas modulações, nas pausas, nas correspondências fónicas, ou seja, num movimento cuja dinâmica pode variar, ainda que inserida num padrão fixo, como é o caso da poesia em versos isossilábicos.

Segundo os Formalistas Russos, o ritmo não pertence ao domínio da contagem e o próprio verso resulta da impulsão rítmica que lhe é anterior: o ritmo do discurso poético. Este assenta nas leis do ritmo da fala e executa-se em performance criadora de uma sintaxe e de uma semântica próprias, visto que a um ritmo novo correspondem novos sentidos.

Ezra Pound crê no “ritmo absoluto” – o mais adequado à emoção que só através dele se pode expressar – e defende que o ritmo – marcado também por toda uma estrutura prosódica – deve fluir de verso para verso, a não ser que se pretenda uma pausa significativa.

O poeta vitoriano Gerard Manley Hopkins (1844-1889) é o grande precursor deste desígnio de restituir à poesia a força de uma expressividade, por vezes perdida, e de a libertar da submissão à métrica clássica que não contempla todas as propriedades rítmicas do discurso poético em língua inglesa. O termo “ritmo abrupto”, por ele cunhado, designa a sistematização de um ritmo cujas principais características são análogas às do ritmo da fala, nomeadamente, confronto entre pés monossilábicos, ritmo descendente nos pés polissilábicos, acentos de silêncio e pés que não terminam no final de um verso, completando-se no início do verso seguinte.

{bibliografia}

T. S. Eliot (ed.): Literary Essays of Ezra Pound (1968); Peter Jones (ed): Imagist Poetry (1972); O. Brick: “Ritmo e Sintaxe”, Teoria da Literatura II – Textos dos Formalistas Russos Apresentados por Tzvetan Todorov (1978); Derek Attridge: The Rhythms of English Poetry (1982); Giuseppe Tavani: Poesia e Ritmo (1983); M. A. K. Halliday: An Introduction to Functional Grammar; Edward Stephenson: What Sprung Rhythm Really Is (1987); Philip Hobsbaum: Metre, Rhythm And Verse Form (1996).