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Um romance ou uma novela de ditadura e/ou de ditador é um subgénero ou um tipo narrativo que é centrado numa ditadura (em relação ao tema, estrutura, estilo, etc.), ou na personagem do ditador, e que está normalmente relacionado com o universo literário hispano-americano e caribenho. É um tipo narrativo que vem evoluindo desde o século XIX e que foi delineando um conjunto de idiossincrasias específicas relacionadas com os regimes repressivos vividos naquela zona do mundo. Em relação à evolução deste tipo ou subgénero, vários ensaístas enveredaram já pelo estudo minucioso das obras que o representam. Juan José Amate Blanco, no seu artigo «La novela de dictador en Hispanoamérica» (1981) relata os motivos históricos e sociológicos que terão contribuído para a existência de um subgénero literário reservado à ditadura e à figura do ditador. Assim, explana os contextos históricos dos países da América Latina e do Caribe com vista a construir um elo de associação entre o que é registado na História e o que é criado na Literatura: desde Bernal Díaz del Castillo e Bartolomé de Las Casas com as suas crónicas no século XVI, à literatura do século XIX que, com os títulos Facundo o civilización y barbárie (1845) de Domingo Faustino Sarmiento, Amalia (1851) de José Mármol e El Matadero (1871) de Esteban Echevarría, dará conta do tema da ditadura na literatura hispano-americana. Curioso é observar que o tema da ditadura se consolida, na verdade, com Tirano Banderas (1926) do autor galego Ramón del Valle-Inclán; sendo continuada nas obras que surgem a partir de 1946, sobretudo El señor Presidente (1946) de Miguel Ángel Asturias, La fiesta del rey Acab (1959) de Enrique Lafourcade, El Gran Burundún-Burundá ha muerto (1973) de Jorge Zalamea, Yo el Supremo (1974) de Augusto Roa Bastos e El otoño del patriarca (1975) de Gabriel García Márquez.

O termo «ditadura», embora possua hoje um significado restrito, varia consoante o contexto histórico: em Roma uma ditadura era um breve período de governação política (um semestre) para uma negociação única, feita por alguém eleito pelo senado romano, sendo apenas requisitada tal magistratura para casos imprevistos. Contemporaneamente, sabemos que é diferente: a ditadura é entendida nos dias de hoje, e desde a era moderna, como um regime de poder absoluto, concentrada num único indivíduo ou num pequeno grupo. Na América Hispânica, as ditaduras «fueron propiciadas por circunstancias políticas comunes en la historia de la mayoría de los países desde la Independencia hasta nuestros días, si bien evolucionaron de manera diferente», sendo que a tendência demarcada que existe na literatura em seguir e abordar a vida social e política que abalou alguns países pode dever-se aos longos períodos ditatoriais que alguns atravessaram ou ao papel fulcral que esses regimes tiveram sobre as vidas de longas gerações de criadores literários (Kadiköylü, 2012: 222). O caudillismo é um tema omnipresente nestas obras, evidente na obra La sombra del caudillo (1929) de Martín Luis Guzmán, e que Adriana Sandoval, em Los dictadores y la dictadura en la novela hispanoamericana 1851-1978 (1989), também analisa. Além disto, Jorge Castellanos e Miguel Martinez (1981) afirmam que estas narrativas são detentoras de um carácter marcadamente panfletário, o que não as destitui de riqueza narrativa:

 

A más de su contribución cívica a la lucha por la democracia, se le deben algunos aportes al desarrollo estrictamente literario del género. Acaba por fijar el tipo del dictador de ficción. Particularmente la figura de Gómez, al ser trasladada a la obra literaria, ha servido para cuajar una serie de estereotipos que luego han de ser utilizados por los novelistas del 70 para la composición de sus dictadores sincréticos […] (Castellano e Martinez, 1981: 81)

 

O núcleo temático dos romances de ditadura evolui durante todo o século XX e inicia outra etapa com o já referido Tirano Banderas de Valle-Inclán, obra que introduz novos elementos de caracterização dos temas e motivos a serem adoptados pelos escritores que se lhe seguiram. É indubitável que Tirano Banderas transformará a índole deste tipo de obras: «Valle-Inclán coloca la dictadura en el centro mismo de la obra. […] traslada la acción a un país imaginario, una suerte de nación ersatz, construida con elementos geográficos, raciales, lingüísticos e históricos de distintos países hispanoamericanos» (Castellanos e Martinez, 1981: 81). A centralidade da narrativa na ditadura e no ditador e a indeterminação do país onde se desenvolvem os acontecimentos são dois desses elementos. Outro é a construção de um mundo com atributos religiosos que se configura como um mundo do avesso, onde o ditador aparece como figura demoníaca ou com qualidades sobrenaturais, como podemos observar nas obras El señor Presidente (1946) de Miguel Ángel Asturias, e El otoño del patriarca (1975), de Gabriel García Márquez.

De facto, é a partir de 1950 que o conteúdo temático deste tipo de obras se enriquece consideravelmente, depois da publicação de Tirano Banderas e El señor Presidente, sendo que as que mais directamente beneficiam disso são El Gran Burundú-Burundá ha muerto (1952) de Jorge Zalamea, e La fiesta del rey Acab (1959) de Enrique Lafourcade, pautadas pela ironia, sátira e elementos caricaturescos em que o trágico e o cómico se fundem com o terror da ambiência narrativa. A partir do decénio de 70, com a publicação da tríade composta por Yo, el Supremo (1974) de Augusto Roa Bastos, El recurso del método (1974) de Alejo Carpentier, e El otoño del patriarca (1975) de Gabriel García Márquez, já se pode falar sobre romance de ditador, no entender de alguns autores. Aspectos como a indefinição espacial, a solidão e o anonimato, em simultâneo com a divinização do ditador, subsistem nos três romances. É frequente surgirem referências e elementos do Barroco e Neobarroco nas obras, seja no estilo narrativo ou na estrutura. Destaque-se uma questão importante: pese embora o tema da ditadura ser sempre tratado directa e indirectamente, até então os ditadores nunca tinham sido os centros da narrativa, permanecendo como personagens secundárias do enredo, daí que alguns estudiosos distingam o romance de ditadura (mais evidente na fase pré-1950) e o romance de ditador (sobretudo a partir dos anos de 1970):

 

El número de novelas que, directa o indirectamente, se refieren al tema dictatorial es enorme. Curiosa y (en apariencia) contradictoriamente, por larguísimos años el dictador no ha sido protagonista de estas obras. […] No es sino en la década del 70 de este siglo, con las novelas dedicadas a este tema por Alejo Carpentier, Augusto Roa Bastos, Gabriel García Márquez y Arturo Uslar Pietri, cuando el dictador ocupa el centro de la atención del autor y su personalidad es examinada en todas sus aristas. (Castellanos, 1981: 79).

 

Das margens, os ditadores passam para o centro narrativo, colocando uma interrogação directa e uma crítica ao poder instituído enquanto se desmascaram os seus actos. É com estas obras também que se consolida a relação entre o poder e a solidão o que, no entender de Ángel Rama, se encaminha para a construção de um arquétipo latino-americano, isto é, de uma chave interpretativa do imaginário e realidade dessa região do mundo.

 

No es necesario recurrir a una explicación religiosa sobre constantes colectivas actuando en el inconsciente humano para reconocer que el “imaginario” de los pueblos maneja imágenes que están cargadas de significación, donde se superponen diversos sentidos que responden a incitaciones personales o grupales o incluso colectivas de conformidad con el sistema de valores de una cultura. En ese venero pueden rastrearse esos “arquetipos” entre los cuales está la imagen del “Caudillo”, del “Padre”, del “Sabio”, del “Señor Presidente”, del “Primer Magistrado”, del “Supremo”, del “Patriarca”, del “Bienhechor”, del “Generalísimo”, del “Conductor”, del “Guía”, del “Jefe”, del “Protector”, del “Comandante”, del “Déspota Ilustrado”, serie vastísima que se ordena sobre un eje paradigmático autorizando las incesantes variaciones de un modelo. (Rama, 1976: 11-12)

 

Há igualmente uma mudança drástica no lugar que o narrador ocupa, que se torna notória quando equiparamos a perspectiva diegética entre romance/novela de ditadura e romance/novela de ditador, sendo aquela definida por uma contemplação passiva da figura do ditador, e esta última definida a partir da própria consciência e voz do ditador:

 

En los casos de novelas sobre dictadores, comprender es dar un salto en el vacío, sobre esa inmensa distancia entre el ejercitante del poder y los hombres gobernados que lo han contemplado desde afuera. […] En los textos de Asturias y de Zalamea es visible esta lejanía que los obliga a contemplar desde afuera a esas figuras enigmáticas […]. Los nuevos narradores, en cambio, dan el salto en el vacío: […] se instalan con soltura en la conciencia misma del personaje y de ese modo ocupan el centro desde donde se ejerce el poder y ven el universo circundante a través de sus operaciones concretas. Se trata de una drástica inversión de le visión. Por eso, sean cuales fueren los rasgos particulares que adoptan los diversos dictadores, la unidad de los actuales textos narrativos sobre ellos radica en que interrogan directamente el poder omnímodo, ven su pleno funcionamiento, descubren los motivos ignorados de sus acciones, las benéficas y las perversas, diseñan los mecanismos de su terca y en apariencia ilógica continuidad histórica. (Rama, 1976: 15-16)

 

Uma das obras mais recentes à qual se estabeleceu ligação com este tipo de romances é La fiesta del chivo (2000) de Mario Vargas Llosa. Baseando-se também em Rafael Leónidas Trujillo (tal como La fiesta del rey Acab), trabalha o tema do poder e da literatura a partir das tragédias individuais que compõem a tragédia colectiva que dá corpo à obra, em diferentes planos temporais e linhas narrativas.

Em relação ao estudo do arquétipo latino-americano que se constitui a figura do ditador, Francisca Noguerol Jiménez (1992) levanta parâmetros de análise, especificando que, embora sendo uma personagem e um lugar comum da literatura hispano-americana, não é, contudo, tratada como uma personagem específica desse universo literário: «El dictador no se origina como personaje específico de la literatura latino-americana, pero […] se ha constituido en foco de atención permanente para los escritores de esta zona del mundo.» (Jiménez: 1992, 92). Os parâmetros tornam-se, assim, características que melhor definem o arquétipo à luz de uma especificação e diferenciação do mesmo de entre os variados romances de ditador: messianismo (quando o ditador se iguala ou é igualado a Deus ou a deuses), patriotismo salvacionista (quando o ditador se considera a figura-chave para o progresso nacional), megalomania (vaidade, egocentrismo, soberba), tanatofilia (a desmesurada afeição por matar e aniquilar), misantropia (a aversão ao outro e consequente culto da solidão), retórica do vazio (a devoção pela elaboração de discursos às multidões), interesses nacionais hipotecados ao imperialismo estrangeiro, o fomento do mito (o ditador vai-se revestindo de uma capa mítica diante do povo que governa – aproxima-se do messianismo, porém sem associação a Deus), o nepotismo (favorecimento de familiares ou amigos), liberticídio (transversal a todos os ditadores – é a supressão de forças opostas ao regime através da censura, prisão, assassinato, tortura, etc.), e, por último, o apoio de que dispõem (o séquito de defesa pessoal, o grupo de conselheiros e todos aqueles que asseguram o apoio e a manutenção do poder).

Apesar de existirem demarcadas diferenças entre o romance de ditadura e o romance de ditador, que alguns estudiosos (embora não a maioria) consideram tratar-se apenas de uma evolução do subgénero, e não de distintas categorias, ambas pertencem a um tipo narrativo em constante evolução e consolidação, já que o tema da ditadura é transversal a variadas geografias culturais e políticas, pelo que se prevê, sobretudo no campo dos estudos literários comparados, a agregação de obras de ficção literária de outros horizontes para um estudo mais rico e mais amplo sobre este subgénero.

 

Bibliografia

  • Amate Blanco, Juan José. “La novela del dictador en Hispanoamérica.” Cuadernos Hispanoamericanos nº 370, 1981: 85-104. Agencia Española de Cooperación Internacional. Documento PDF acedido através de URL <https://dialnet.unirioja.es/servlet/articulo?codigo=159680>. 28 de Setembro de 2016.
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  • Carpentier, Alejo. Literatura e Consciência Política na América Latina. Trad. Manuel Palmeirim. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1971.
  • Fernández García, María Jesús. “La novela del dictador Salazar: Dinossauro Excelentíssimo de José Cardoso Pires.” Anuario de estudios filológicos vol. 23, 2000: 123-142. Universidad de Extremadura: Servicio de Publicaciones. Documento PDF acedido através de URL <https://dialnet.unirioja.es/servlet/articulo?codigo=58994>. 28 de setembro de 2016.
  • Fuentes, Carlos. Valiente Mundo Nuevo – épica, utopía y mito en la novela hispanoamericana. 2ª ed. 1ª edição em 1990. México: Fondo de Cultura Económica, 1992.
  • Kadiköylü, Neslihan. “La evolución del tema de la dictadura y la figura del dictador en la literatura hispanoamericana.” Cuadernos Americanos 140 2012/2: 221-238. Centro de Investigaciones sobre América Latina y el Caribe de la Universidad Autónoma de México. Documento PDF através do URL <http://www.cialc.unam.mx/cuadamer/textos/ca140-221.pdf> 28 de Setembro de 2016.
  • Kristal, Efraín (ed.). The Cambridge Companion to the Latin American Novel. Cambridge: Cambridge University Press, 2005.
  • Noguerol Jiménez, Francisca. “El dictador latinoamericano (aproximación a un arquetipo narrativo).” Philologia hispalensis nº 7, 1992: 91-102. Universidad de Sevilla: Facultad de Filología. Documento PDF através do URL <https://dialnet.unirioja.es/servlet/articulo?codigo=169111>. 28 de Setembro de 2016.
  • Orduña, Eva Leticia. “La Novela de la Dictadura.” Archipiélago – Revista Cultural de Nuestra América 2012: 49-53. Vol. 20, nº 76. Universidad Nacional Autónoma de México. Documento PDF acedido através de URL <http://www.revistas.unam.mx/index.php/archipielago/article/view/55930/49619> 28 de Setembro de 2016.
  • Rama, Ángel. Los dictadores latinoamericanos. México: Fondo de Cultura Económica, 1976. Infelizmente não consegui ainda obter acesso à obra.
  • Reis, Carlos e Ana Cristina M. Lopes. Dicionário de Narratologia. Coimbra: Almedina, 1996 (1987).
  • Sandoval, Adriana. Los dictadores y la dictadura en la novela hispanoamericana 1851-1978. México: Universidad Nacional Autónoma de México, 1989.