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A criação do termo steampunk é atribuída ao escritor americano de ficção científica K. W. Jeter, que endereçou uma carta à revista de especialidade Locus: The Magazine of The Science Fiction & Fantasy Field, em Abril de 1987, para categorizar as obras literárias de que era responsável, a par de Tim Powers e James P. Blaylock, inspiradas nas descobertas científicas e tecnológicas do século XIX: “Personally, I think Victorian fantasies are going to be the next big thing, as long as we can come up with a fitting collective term for Powers, Blaylock and myself. Something based on the appropriate technology of that era; like ‘steampunks,’ perhaps…” (Usher, 2011). Para além de ser aplicado à literatura, o neologismo – que visa transmitir uma perspectiva irreverente sobre as potencialidades da tecnologia da era do vapor – ganhou popularidade a partir da década de 90 do século XX no âmbito de diversas representações culturais, estando também associado a uma subcultura urbana.

Existem inúmeras definições de steampunk, sintomáticas do seu cunho ecléctico, tendo Jeff VanderMeer proposto a seguinte equação, de modo a sublinhar a natureza simultaneamente retro e futurista que caracteriza não só a ficção, mas também a tendência cultural a que deu origem: “STEAMPUNK = Mad Scientist Inventor [invention (steam x airship or metal man / baroque stylings) x (pseudo) Victorian setting] + progressive or reactionary politics x adventure plot” (2011: 9). Fica assim patente a associação ao sentido de aventura e de descoberta, bem como o reconhecimento da importância das tecnologias do passado na construção do futuro.

Os enredos literários são protagonizados quer por inventores e cientistas (muitas vezes loucos), aventureiros e exploradores, mágicos e espiritistas, tanto reais como fictícios, quer por personagens de obras literárias canónicas (Drácula, Dorian Gray, Sherlock Holmes, entre muitas outras), numa confluência de factos históricos e de fantasia. A energia a vapor e os mecanismos de relógio – ­­seja em locomotivas, dirigíveis e outras aeronaves, submarinos, máquinas do tempo e diversos tipos de armas, seja em engrenagens (inspiradas nos projectos do matemático e cientista vitoriano Charles Babbage), motores e aparelhos de ordem vária, incluindo próteses metálicas mecanizadas que contribuem para a criação do homem-máquina – são elementos recorrentes na ficção steampunk, que constitui um sub-género da ficção científica, tal como sucede com o cyberpunk e o biopunk.

Contudo, ao passo que estes dois sub-géneros exploram as tecnologias da informação e a biotecnologia na sociedade do futuro, o steampunk privilegia a modernidade da chamada oficina do mundo e o olhar contemporâneo para o contexto vitoriano. Nessa medida, dá particular incidência às repercussões do Império britânico, jogando transtemporalmente com regressos ao passado e projecções no futuro, sobretudo tendo em conta o desenrolar dos dois conflitos mundiais que marcaram o século XX. Com efeito, a literatura steampunk explora com frequência o tópico da realidade alternativa e do(s) universo(s) paralelo(s) ou multiverso, levantando a questão “E se?” (What if?), característica da História alternativa (alternate/alternative History), razão pela qual os textos podem ser caracterizados como ficção especulativa.

Sendo ele próprio um sub-género literário, o steampunk apresenta variantes, tais como clockpunk, dieselpunk, mannerspunk, boilerpunk e stitchpunk, que se centram, respectivamente, na tecnologia baseada em engrenagens e mecanismos de relógio, nas consequências muitas vezes bélicas e apocalípticas da utilização de combustíveis e de energia nuclear, nas tensões resultantes da perspectiva aristocrática da hierarquização da sociedade, nas experiências dos trabalhadores que enchiam de carvão as caldeiras para produzir o valioso vapor e na importância da colaboração de tecelões, artesãos e metalúrgicos na Revolução Industrial. Também podem ser identificadas tendências como gaslight romance, que qualifica, de um modo geral, as versões romantizadas da estética e do modo de vida vitorianos, e raygun Gothic, que se baseia na utilização retrofuturista de foguetões, armas de feixes de luz e elementos característicos da ficção científica convencional.

Sem menosprezar o contributo ímpar de Frankenstein (1818), de Mary Shelley, é indiscutível a influência de obras pioneiras como De la Terre à la Lune (1865) e Vingt Mille Lieues sous les Mers (1870), de Jules Verne, e The Time Machine (1895) e The Invisible Man (1897), de H. G. Wells, na literatura steampunk. Para além de K. W. Jeter, autor de Morlock Night (1979) e Infernal Devices (1987), os escritores americanos Tim Powers, com The Anubis Gates (1983) e James P. Blaylock, com Homunculus (1986) e Lord Kelvin’s Machine (1992), são apontados como os fundadores da vertente literária, precedida por textos como os de Keith Laumer, Worlds of the Imperium (1962), Ronald W. Clark, Queen Victoria’s Bomb (1967) e Michael Moorcock, The Warlord of the Air (1971).

Paul Di Filippo foi o primeiro autor a utilizar o neologismo no título The Steampunk Trilogy (1995), tendo este sub-género literário sido desenvolvido por obras tão diversificadas quanto as de William Gibson e Bruce Sterling, The Difference Engine (1990), Kim Newman, Anno Dracula (1992), Neal Stephenson, The Diamond Age (1995), Philip Pullman, His Dark Materials: Northern Lights/The Golden Compass (1995), Jeff Noon, Automated Alice (1996), Philip Reeve, Mortal Engines Quartet (2001), Joe R. Lansdale, Flaming London (2006), Jonathan Green, Pax Britannia: Unnatural History (2007), Nick Gevers, Extraordinary Engines (2008), Scott Westerfeld, Leviathan (2009), Cherie Priest, Boneshaker (2009), George Mann, The Immorality Engine (2011), Kevin J. Anderson, Clockwork Angels (2012), Gail Carriger, Timeless (2012), Melissa Ann Conroy, Steam on the Horizon (2013) e as seis obras de Mark Hodder que constituem a série Burton & Swinburne, iniciada com The Strange Affair of Spring-Heeled Jack (2010) e terminada com The Rise of the Automated Aristocrats (2015).

O movimento literário associado ao steampunk tem inspirado uma estética que se tornou parte da cultura popular, encontrando-se representada no âmbito do cinema, da banda desenhada, das belas-artes, da joalharia e das tendências de moda. De entre os precursores mais significativos, podem ser evocados filmes como a trilogia Back to the Future (1985, 1989, 1990),  assim como Brazil (1985), a distopia de Terry Gilliam que satiriza o totalitarismo e a era industrial moderna, e The City of Lost Children (1995), cujo guarda-roupa é da autoria de Jean Paul Gaultier. O filme Wild Wild West (1999), baseado na série televisiva dos anos 60, é geralmente indicado como uma obra pioneira, ao recriar o western com uma componente steampunk. Mais recentemente, destacam-se The League of Extraordinary Gentlemen (2003), baseado na banda desenhada de 1999, Steamboy (2004), um filme de animação japonês passado na Grã-Bretanha vitoriana, Sky Captain and the World of Tomorrow (2004), Van Helsing (2004), The Prestige (2006), The Golden Compass (2007), Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street (2007), City of Ember (2008), Sherlock Holmes (2009), Alice in Wonderland (2010), Hugo (2011) e Snowpiercer (2013).

A influência da imagética e de pressupostos temáticos e estéticos associados ao steampunk é visível em séries de televisão como Doctor Who (1963- ), Warehouse 13 (2009-14), Lantern City (2014- ), Jekyll and Hyde (2015) e Penny Dreadful (2014-16). São igualmente de destacar curtas-metragens como Aurora (2011) e Airlords of Airia (2013), bandas desenhadas como Gotham by Gaslight (1989), Steampunk (2000-2002), Grandville (2009- ) e The Thrilling Adventures of Lovelace and Babbage (2015), jogos de vídeo como The Chaos Engine (1993), Arcanum: Of Steamworks and Magick Obscura (2001), Nostalgia (2008), Neo Steam: The Shattered Continent (2009) e The Order: 1886 (2015), bem como os grupos de música The Men That Will Not Be Blamed for Nothing, Unextraordinary Gentlemen, The Clockwork Quartet, Abney Park e Professor Elemental, entre outros.

Ao ser identificado como uma subcultura, o steampunk relaciona-se com as culturas urbanas retrofuturistas. Trata-se de uma (sub)cultura marcada por uma forte componente estética, imprescindível para a construção de uma performatividade e de uma identidade visual que recorre a um vestuário ecléctico, inspirado em tendências de gosto romântico e vitoriano, que manifestam um revivalismo gótico e punk aliado a elementos característicos de pulp fiction e de filmes catalogados como série B. A utilização, recorrendo sempre a um toque personalizado, de casacas militares, camisas de safari, blusões de aviador, cartolas e corpetes é muito comum, tanto em steampunks do género masculino como feminino, bem como a exibição de instrumentos como goggles, astrolábios, sextantes e outros acessórios, para além do indispensável relógio de algibeira. O tratamento individualizado de objectos produzidos em massa verifica-se, a título de exemplo, no modo como uma pen é revestida por um invólucro de cobre trabalhado, um computador apresenta teclas de uma antiga máquina de escrever, e caixas de madeira ou de metal encastradas com engrenagens de antigos relógios são utilizadas para se guardar o iPhone ou o iPad.

O impacto do steampunk como um movimento à escala global tem-se feito sentir sobretudo graças à dinâmica contemporânea da cultura participativa, patente nas redes sociais. O legado punk, associado ao conceito do-it-yourself (DIY), articula-se deste modo com o conceito do-it-together (DIT). É de notar que a comunidade em Portugal conta com a Liga Steampunk de Lisboa e a edição do Almanaque Steampunk, inspirados pela realização da convenção EuroSteamCon Portugal, em 2012. Embora seja possível identificar traços de um ideário utópico nos steampunks, estes não se limitam a sonhar com um modo de vida alternativo e escapista em relação ao mainstream. O desejo de utopia alia-se ao impulso pragmático em comunidades não só de artesãos e artistas, mas também de inventores e cientistas que cultivam o estilo DIY, transformando projectos virtuais em acções e objectos do domínio do quotidiano. Assim sendo, o steampunk incentiva o desenvolvimento da criatividade, da ciência aplicada e da tecnologia sustentada no século XXI.

Em suma, o steampunk integra-se, por um lado, em tendências vintage e retro devido ao gosto nostálgico por uma época de ouro, evocando o tempo passado em que o vapor permitiu à Grã-Bretanha tornar-se a oficina do mundo e a detentora do maior Império da era moderna. Por outro lado, expressa uma reinterpretação futurista da era vitoriana, valorizando não só a modernidade dos novos desafios enfrentados pela Grã-Bretanha oitocentista na complexidade das relações interpessoais e sócio-profissionais, mas também o carácter pioneiro dos homens e das mulheres de todas as classes sociais que corporizaram o desenvolvimento da ciência e possibilitaram a liderança do progresso tecnológico. Acima de tudo, os steampunks tiram partido das novas tecnologias para questionar e reavaliar os valores individualistas e utilitaristas da Revolução Industrial, recriando-a na era da Revolução Digital. Pode dizer-se que, como movimento literário e cultural, se apropria de representações e de objectos de uma época passada, desconstruindo-os e adaptando-os a uma nova realidade. Como tal, o steampunk evidencia traços comuns ao neovitorianismo, sendo em geral identificado como uma das suas tendências mais relevantes.

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