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Se o texto, mormente o texto literário, deve sempre reinventar o
seu próprio  cânone,
cumpre buscar possíveis definições do que seja “texto”, signo
que perambula, solene e interdisciplinarmente, por campos vários
do saber, como a filologia, a filosofia, a filosofia da
linguagem, a didática, a lingüística, a semiologia, a semiótica,
a psicologia, a teologia, as ciências jurídicas e históricas, a
teoria literária, a crítica textual, onde se imbricam sentidos,
engendrando outros sentidos. Muito
grosso modo, o termo
“texto”, derivado do étimo 

latino textus,
que produz a significação de “tecido”, 
 é usado para 
referir  algo que
pode ser lido para fazer sentido: assim, teoricamente, o mundo é
um texto social. Citando 
os formalistas russos Yuri Lotman (1922-1993) e Boris A.
Uspenskij: “Nas mais diversas culturas surge periodicamente a
tendência para considerar o mundo como um texto, e,
conseqüentemente, o conhecimento do mundo é equiparado à análise
filológica desse texto: à leitura, à compreensão e à
interpretação” (SEGRE, 1989, p. 171), Cesare Segre considera que
“esta metáfora do mundo (ou da cultura) como texto foi retomada
recentemente e com argumentos mais fortes” (p 172)
 Embora o significante
“texto” pareça privilegiar textos escritos, enunciados
analisáveis, conjunto de palavras escritas, dotado de certa
coerência, o que configura um grafocentrismo e um logocentrismo
– Paul Ricoeur acolhe a definição corrente de texto, quando diz
que texto é tout discours
fixe par l’écriture
 (1986,
p. 137) -, texto é, sob o prisma semiológico, algo
plurissemiótico, seqüência significante,
 um sistema de signos,
constituído em forma de palavras – orais e escritas -, imagens,
sons, gestos;  constrói-se
e interpreta-se  o
texto, objeto cultural,  com
referência às convenções de gênero e como um meio particular de
comunicação, sendo produto, ou produtividade, de representação e
figuração, tanto de seu 

emissor quanto de seu 
receptor ou destinatário, levando-se em conta
propriedades semióticas da enunciação e do enunciado.

O signo “texto”  enuncia-se
 de forma ampla,
articulada a outros termos também amplos, tais como: enunciação,
sentido, significação, contexto, interpretante e outros que, de
uma ou de outra maneira, estão  ligados
aos mecanismos da organização textual responsáveis pela
construção do sentido; enunciado qualquer, oral ou escrito,
longo ou breve, antigo, moderno ou contemporâneo, 

concretiza-se numa cadeia sintagmática de extensão muito
variável, podendo circunscrever-se tanto a um enunciado único ou
a uma “lexia”, quanto a um segmento de grandes proporções: são
textos, seja  uma mera 
interjeição, seja  uma
narrativa, de qualquer extensão.

  Segundo Greimas e
Courtés, em seu
Dicionário de semiótica
, texto e discurso equivalem-se,
podendo, por conseguinte, “ser empregados indiferentemente para
designar o eixo sintagmático das semióticas não-lingüísticas: um
ritual, um balé podem ser considerados como textos ou como
discursos” (p. 460). Outra analogia pode-se também 

fazer entre texto e fala (parole),
no jargão saussureano, se se concebe o texto como atualização do
sistema específico da língua (ou
langue, segundo
Saussure). Será por meio do texto que o discurso se manifesta.
Tomando o texto “como uma unidade de uso da língua em uma
situação de interação e como uma unidade semântica”, Charaudeau
e Mainguenau assumem, no
Dictionnaire d’analyse du discours
, a definição de texto, de
acordo com M.A.K. Hallyday e R. Hasan: “A
text is best thought of not as a grammatical unit at all, but
rather as a unit of a different kind: a semantic unit.

The unit that it has is a unity of meaning in context, a texture
that expresses the fact that it relates as a whole to the
environment in which it is placed”
(2002, p. 571).

Umberto Eco, em sua obra
Conceito de texto
, postula  que
um dos momentos de indefinição da semiótica contemporânea
acontece  justamente com
a crise da noção de signo, já que se afirmava: “o signo não
existe”. “E o que existe, ao menos no que diz respeito às
semióticas verbais, é o texto. Se podia ser obscura a noção de
signo, também pode ser obscura a noção de texto” (1984, p. 4)
Esse famoso semiólogo, nascido em Alexandria, no Egito, 
 considera a noção de texto, pelo modo como tem sido
 elaborada nos últimos
anos, de enorme  importância,
porque permite entender, de maneira muito mais ampla, alguns
mecanismos da significação da comunicação. Para ele, é um
suicídio construir uma semiótica do texto, sem relacioná-la a
uma semiótica do signo, na medida em que se trata, sempre, de
 um sistema semiótico bem
organizado. Na apresentação do volume, Cidmar Teodoro Pais
conclui que  “todo 

signo  é um
texto virtual – ou uma virtualidade de textos e (que) todo texto
é a expansão de um signo, inscrito num universo sígnico em forma
de enciclopédia” (p. IX-X); 
no processo de comunicação, portanto,
 um texto nada mais é que
a expansão da virtualidade de um sistema de signo. Estaria aqui
inscrita a questão do texto no que refere à cibernética, lugar
par excellence da
metáfora da rede para representar o texto em suas infindas
virtualidades e funções, de que o hipertexto 
é exemplo cabal.

  Lugar de
manifestação da linguagem e dos sentidos, estrutura única ou
aberta  de significados
 (CEIA, 1999, p. 114),
enunciado em sua materialidade, estabilização precária do
discurso, o texto – aberto ou   fechado,
no momento,  em sua
própria situação de enunciação -, mantém, necessariamente,
relação com outros textos, antigos, contemporâneos ou até
posteriores, de que exibe ou esconde indícios, se se tem em
mente a alegoria do mundo como universo de linguagem ou imenso  
texto, de que cada texto se constitui parte, conformando
corpora do
Corpus, ou,
barthesianamente falando,  urdindo-se
“a mandala de toda a
cosmogonia literária” (BARTHES, 1996, p. 49). 

Comportamento lingüístico, seqüência de enunciados, orais
ou escritos, submetidos à análise, o texto comporta uma
estrutura que oscila face à leitura, às leituras, às
possibilidades de leitura, a uma “semiose ilimitada” e a uma
intersemiose sem limites, que indiciam a natureza
 de transformação e
abertura de todo texto.

 Em “A teoria do
texto”, Roland Barthes (1915-1980), depois de considerar o texto
como “um fragmento de linguagem, colocado numa perspectiva de
linguagens” (2004, p. 268), 
oferece a seguinte definição: “O texto é uma prática
significante, privilegiada pela semiologia, porque o trabalho
por meio do qual ocorre o encontro entre sujeito e língua nele é
exemplar: é ‘função’ do texto ‘teatralizar’ de algum modo esse
trabalho” (p. 269). Segundo esse seminal semiólogo,
 existe uma materialidade
e uma sensualidade do texto – ou escritura (écriture)
-, que constitui o único meio de se superar a ideologia: mais do
que uma semiologia, necessita-se de uma semioclastia, porque no
texto, constituído de signos, habita o “monstro” da ideologia.

Preferindo inscrever  « texto »,
ao invés de « literatura », Barthes, amigo do psicanalista
francês Jacques Lacan (1901-1980) e « texto » jamais por ele
analisado,  enuncia,
em S/Z, instigante
leitura semiológica da novela
Sarrasine (1830 ), de
Balzac (1799-1850) : « Neste texto ideal, as redes são múltíplas
e se entrelaçam, sem que nenhuma possa dominar as outras ; esse
texto é uma galáxia de significantes, não uma estrutura de
significados ; não tem início ; é reversível ; nele penetramos
por diversas entradas, sem que nenhum possa ser considerada
principal ; os códigos que mobiliza perfilam-se
a perder de vista,
eles não são dedutíveis (o sentido, nesse texto, nunca é
submetido a um princípio de decisão, e sim por lance de dados) ;
os sistemas de sentido podem apoderar-se desse texto
absolutamente plural, mas seu número nunca é limitado, sua
medida é o infinito da linguagem » (p. 39-40). « Lexia »
alongada, esse enunciado barthesiano gira, apontando o horizonte
 infinito da linguagem, que se faz texto, texto literário,
hipertexto,  literatura,
enfim, ao mesmo tempo que prolonga o próprio sentido do texto,
tornado trama de significantes, unidade semiótica, entidade
semiológica  a deslocar
códigos, ao invés de  ser
regida por esses mesmos significantes, na medida em que, porque
plural, o texto « ideal » não tem princípio, muito menos fim.
Abre-se o texto e, inclusive, os sentidos de texto
metamorfoseiam-se. Com relação, por exemplo, a texto literário,
Carlos Ceia, precisamente no duplo
 verbete « Texto
literário/Texto não literário », inscrito neste
Dicionário 

Eletrônico de Termos Literários, apóia-se em Roland
Barthes para circunscrever, na medida do possível, 
o que seja literariedade : « Quando
um texto nos apresenta sinais, sugestões ou elementos que
revelem o gozo (no sentido da lacaniana jouissance
) que o seu autor experimentou ao criá-lo, podemos introduzir um
outro critério — ainda discutível — para a definição da
literariedade de um texto e assim distingui-lo de um texto não
literário. A criação de um texto literário é a mais erótica de
todas as criações textuais. Mas será que um texto não literário
não pode arrastar consigo sinais de gozo de quem o criou? Roland
Barthes admitiu  em ‘Theory
of the Text’ (artigo inicialmente publicado em Encyclopaedia
Universalis
, 1973), que qualquer texto ‘textual’
conduz pela sua essência criativa à jouissance do autor,
seja literário ou não, isto é, conduz necessariamente não só a
um prazer de escrita como a própria escrita ou texto produzido é
uma espécie de clímax sexual – um têxtase. Se
reduzíssemos este princípio de textualidade e decidíssemos que
qualquer tentativa de levar o erotismo criativo da escrita para
além de certos limites significa entrar de imediato no limiar do
literário, então teremos encontrado um critério de definição da
literariedade. Do texto que seja resultado de um têxtase,
diremos ser literário.

 Nem mesmo o princípio de
têxtase pode ser sistematizado, em face da sua sujeição
ao livre-arbítrio do leitor. O têxtase não se diz –
escritura-se
”.
Retomando   a
etimologia e a denotação do significante “texto”, a semiologia
barthesiana   explora,
prazerosamente,  a
conotação de trama, tessitura, trança: 

a estrutura textual desloca-se, mobiliza-se,
metamorfoseia-se, recriando, na rede textual, 
avatares.

  No livro,
significativamente intitulado O prazer do texto (prazer
de quem escreve, prazer de quem lê), Barthes compõe uma lexia,
esplêndida entre tantas: “Parece que os eruditos árabes,
empregam esta expressão admirável: o corpo certo. Que
corpo? Temos muitos: o corpo dos anatomistas e dos
fisiologistas; aquele que a ciência vê ou de que fala: é o texto
dos gramáticos, dos críticos, dos comentadores, dos filólogos (é
o fenotexto). Mas nós temos também um corpo de fruição feito
unicamente de relações eróticas, sem qualquer relação com o
primeiro: é um outro corte, uma outra nomeação; do mesmo modo o
texto: ele não é senão a lista aberta dos fogos da linguagem
(esses fogos vivos, essas luzes intermitentes, esses traços
vagabundos dispostos no texto como sementes e que substituem
vantajosamente para nós as ‘semina aeternitatis”, os ‘zopyra’,
as noções comuns, as assunções fundamentais da antiga
filosofia). O texto tem uma forma humana, é uma figura, um
anagrama do corpo? Sim, mas de nosso corpo erótico. O prazer do
texto seria irredutível a seu funcionamento gramatical (fenotextual),
como o prazer do corpo é irredutível à necessidade fisiológica.
O prazer do texto é esse momento em que meu corpo vai seguir
suas próprias idéias – pois meu corpo não tem as mesmas idéias
que eu” (1996, p. 25-26).

Meditando essa fulgurante lexia (que não se pode, absolutamente,
 sob pena de sacrilégio e
crime de lesa majestade estética, recortar, tampouco
parafrasear) como não pensar em Susan Sontag (1933-2004), a
excelente pensadora nova-iorquina, amorosa leitora de Barthes,
que propõe, na geléia geral das interpretações,
contra-interpretações, super-interpretações,
 uma “erótica da
interpretação”?

Mas Barthes não se arroga como um dândi inconseqüente ou um
esteta apenas, dado que fundamenta seu pensamento contundente,
vazado na retórica da  écriture
artiste
, como, por exemplo, em sua
Aula, inauguradora,
em 7 de janeiro de 1977, 

da cadeira de semiologia literária no
Collège de France,
onde enuncia, discreta, porém solenemente: “Se a semiologia de
que falo voltou então ao Texto (note-se: Texto, sempre com
maiúscula, observo eu,  leitor
atento aos arabescos textuais) é que, nesse concerto de pequenas
dominações, o Texto lhe apareceu como o próprio índice do
despoder. O Texto
contém nele a força de fugir infinitamente da palavra gregária
(aquela que se agrega) (…)” (s.d., p. 35).

Tratando da questão da ideologia do texto e, mais
particularmente, da ideologia literária, distinta da ideologia
histórico-política, Carlos Ceia, no fulcral livro
A Literatura Ensina-se?
Estudos de Teoria Literária, postula que “o que distingue
ainda a ideologia literária de todas as outras ideologias é que,
servindo-se de situações histórico-políticas, pode aplicar-se e
ficar a pertencer a qualquer outro momento histórico” (p. 112);
e continua:  “A prática
da textualidade há-de privilegiar não só o texto como toda a
realidade cultural sob a jurisdição do autor, se for caso disso”
(p. 114). Nosso Autor pode, então, concluir: “É a esta
‘ideologia do texto’, cujo nascimento decorre ao mesmo tempo da
produção do texto, que eu chamo ideologia literária” (p. 115).

  Como exemplos de
texto, quase concluindo-se en beauté,
transcrevem-se, aqui e agora, dois belíssimos
 poemas;
 o primeiro, do supremo
árcade  Bocage (Manuel
Maria de Barbosa l’Hedois du Bocage:
1765- 1805), 

articula, em suas Rimas,
de 1791,  dois
poetas fundamentais da Literatura Universal:

Camões, grande Camões, quão semelhante

Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!

Igual causa nos fez, perdendo o Tejo,

Arrostar co’o sacrílego gigante;

Como tu, junto ao Ganges sussurrante,

Da penúria cruel no horror me vejo;

Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,

Também carpindo estou, saudoso amante.

Ludíbrio, como tu, da Sorte dura

Meu fim demando ao Céu, pela certeza

De que só terei paz na sepultura.

Modelo meu tu és, mas… oh, tristeza!…

Se te imito nos transes da Ventura,

Não te imito nos dons da Natureza.

         
Já o segundo poema é do contemporâneo curitibano Paulo
Leminski (1944-1989), mulato brasileiro de origem polaca, que
exara um manifesto poético, onde o texto da poesia entra em
tensão e harmoniza-se, ao mesmo tempo,
  com o texto da vida: 

Uma poesia ártica,
claro, é isso que eu desejo.
Uma prática pálida,
três versos de gelo.
Uma frase-superfície

onde vida-frase alguma
não seja mais possível.
Frase, não, Nenhuma.
Uma lira nula,
reduzida ao puro mínimo,
um piscar do espírito,

a única coisa única.
Mas falo.
E, ao falar, provoco
nuvens de equívocos
(ou enxame de monólogos?)
Sim, inverno, estamos vivos.

         
Trata-se, sempre,  de
possíveis do texto, de formas do texto, de
 performances
do texto, em que autor e leitor configuram-se, ao fim e ao
cabo, como estratégias textuais no “infinito da linguagem”.

{bibliografia}

BARTHES, Roland. S/Z. Trad. Léa Novaes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992. BARTHES, Roland. O prazer do texto. 4.ed. Trad. J. Guinsburg. São Paulo: Elos, 1996. BARTHES, Roland. Aula. Trad. Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Cultrix, s.d. BARTHES, Roland. Inéditos, I: teoria. Trad. Ivone Castilho Benedetti. São Paulo: Martins Fontes, 2004. CEIA, Carlos. A Literatura Ensina-se? Estudos de Teoria Literária. Lisboa: Colibri, 1999. CHARAUDEAU, Patrick e MAINGUENEAU, Dominique. Dictionnaire d’analyse du discours. Paris: Seuil, 2002. ECO, Umberto. Conceito de texto. Trad. Carla de Querioz. São Paulo: EDUSP, 1984. GREIMAS, A.J. e COURTÉS, J. Dicionário de semiótica. Trad. de Alceu Dias Lima et alii. São Paulo: Cultrix, s.d. RICOEUR, Paul. Du texte à l’action. Paris: Seuil: 1986. SEGRE, Cesare. Texto. In: Enciclopédia Einaudi. Trad. Joana de Abreu Monteiro Quintino. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1989, v. 17, p. 152-175.