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Palavra ou expressão colocada na abertura de um texto literário ou não literário, para o identificar quanto ao assunto, tema ou natureza literária. A escolha de um título é normalmente decisiva para a boa compreensão de um texto ou de uma obra de arte. A criatividade exigida para a sua redacção não é exclusiva de um escritor em especial, pois pode aplicar-se a qualquer área do conhecimento.

A inspiração para escolher um bom título não é programável e nenhum guia nos poderá ajudar verdadeiramente. Há autores que confessam não começar a escrever um livro sem antes terem um título (por exemplo, José Saramago) e outros que o título é precisamente a última decisão que tomam a propósito de qualquer obra escrita. Há sempre momentos de reflexão que não se situam num tempo preciso durante a produção de uma obra. A própria obra pode incorporar um reflexão metaliterária sobre a escolha do título, como neste exemplo:

“Hesitei muito antes de dar um título ao que vai seguir-se. Há pessoas que julgam os títulos de somenos importância, coisa que depois terá sua razão de ser na continuação da leitura (…). Não foi portanto fácil a escolha deste título ou, mais verdadeiramente, não teria sido fácil se ele fosse verdadeiramente um título. O que vai ler-se é apenas uma narrativa daquilo que não aconteceu, como deve ser em todos os romances. Chama-se portanto aquilo que é, embora não seja costume.” (António Pedro, Apenas uma Narrativa, 2ª ed., Estampa, Lisboa, 1978, pp.15-16).

Formalmente, um título conciso pode ser uma qualidade apreciada em algumas áreas, mas em outras pode ser sinónimo de imperfeição. A verdade é que um título não se mede pela sua extensão, mas antes pelo seu poder sinonímico, metafórico, expressivo ou evocativo. Uma regra certamente valorizada em qualquer área do saber é a economia das palavras significativas: um título não deve conter palavras desnecessárias. A par desta regra simples, a personalização de um título não deve ser excessiva, sobretudo quando a sua descodificação pressupõe um exercício impossível de adivinhação do sentido. A história literária nem sempre respeitou esta regra. Há, por exemplo, uma tradição de subtítulos de romances que constituem, em si mesmos, variações narrativas do título principal. Entre os muitos exemplos, David Copperfield (1850), de Charles Dickens, tem como subtítulo: The Personal History, Adventures, Experience and Observation of David Copperfield the Younger of Blunderstone Rookery (which he never meant to publish on any account), que é um dos 14 subtítulos inventados pelo próprio escritor. Até ao século XX, romances e outras obras não literárias exploraram frequentemente esta narrativização dos títulos das suas obras, para que o leitor pudesse identificar de forma rigorosa, logo na capa, a matéria concreta dos livros.