Prefácio

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Prefácio

O primeiro leitor insatisfeito com um dicionário que acaba de ser construído e publicado, tenho hoje a certeza disto, é o seu inventor e organizador. Uma obra dicionarística é sempre uma obra inacabada. E a grande (des)vantagem de um E-Dicionário de Termos Literários é ainda a de nunca poder ambicionar ter registado todos os termos literários em uso corrente e particular numa dada comunidade científica. Por exemplo, mesmo sendo esta obra um dos trabalhos mais exaustivos publicados em língua portuguesa, nesta área da terminologia literária, o leitor-crítico não deixará logo de apontar umas boas dezenas de termos que gostaria de ter encontrado no Dicionário. Um Dicionário de Termos Literários que nasça completo e capaz de satisfazer todos os seus potenciais leitores é certamente um dicionário imperfeito, porque se fechou já a si próprio e sobre si próprio. Por isso tenho agora a certeza de que este E-Dicionário de Termos Literáriosapenas se encontra na sua infância. O que lhe falta acrescentar é uma vida inteira de estudo e aperfeiçoamento, que os futuros leitores decidirão em grande parte. Uma tal obra, que esconde vários anos de investigação, quando chega a publicar-se já está de alguma forma desactualizada, por isso um dicionário, qualquer que ele seja, deve ser sempre uma obra a reescrever. A sua publicação gradual na Internet, em formato electrónico, permite essa actualização permanente. A última das missões de um E-Dicionário de Termos Literários deve ser, na minha opinião, a de querer ser normativo quer no uso dos termos quer na definições propostas. É sempre mais realista querer ser uma primeira ajuda para tentar resolver um problema literário, se assim entendermos que a consulta de um dicionário deste tipo se faz pela necessidade de esclarecer o uso técnico de uma palavra em contexto literário ou paraliterário.

A base terminológica de 1700 entradas abrange um elevado número de termos actuais e mesmo não dicionarizados ainda em nenhuma outra língua. Inclui também muitos termos estrangeiros que fazem parte da linguagem técnica da literatura, que no mundo lusófono se utilizam de forma variada. A base terminológica inicial continha um pequeno número de termos, escolhidos com base na frequência do seu uso na gíria literária e ensaística no campo dos estudos literários. Aceitando que os dicionários disponíveis em Português deixavam de fora centenas de termos em uso e que se justificava plenamente uma actualização dos conceitos e definições conhecidas e da bibliografia sempre crescente, impôs-se o desafio de fazer um levantamento mais exaustivo daquele que estava registado em obras do género (Dicionário de Termos Literários, de Massaud Moisés, 1ª ed. 1974; 8ª ed. 1997)

O processo de selecção dos termos foi, inicialmente, realizado a partir de todas as obras de referência que se encontram listadas na bibliografia. Excluíram-se todos os casos de uso muito restrito de um termo, em particular os inúmeros termos presos ao uso local ou muito especializado numa dada língua estrangeira: do alemão, por exemplo, Marienklage, do provençal retroencha, do irlandês séadna, do turco seci, do japonês sedoka, do castelhano cuaderna via, do inglês cup-and-saucer drama, do chinês lu-shih, etc. Em relação a certos grupos específicos (teatro, retórica, linguística, versificação, crítica feminista, psicanálise, filosofia, etc.) que possuem dicionários próprios, com ampla informação lexical, e que constituem o conjunto de termos de uma especialidade no campo dos termos ditos genericamente literários, fez-se uma selecção dos termos mais correntes ou que julgámos de maior interesse público.

Considerou-se como uma das condições para inclusão de um termo o grau de utilização que tem nas bibliografias da especialidade. Por oposição, quando um termo identificado possui uma utilização muito restrita, como Entkunstung (um neologismo alemão cunhado por Theodor Adorno, que aparece pela primeira vez em “On Jazz” (1953); trata-se de um termo intraduzível, que significará algo como a “negação da dimensão estética da arte”), sem nenhuma bibliografia reconhecida ou sem nenhum registo em obras da especialidade, optou-se por não o incluir.

Não se incluem informações etimológicas para todos os termos, porque tais informações podem ser recolhidas em dicionários etimológicos, mas optou-se por deixar uma informação sumária nos casos em que se entendeu poder ser útil abrir o verbete com essa informação, sobretudo se se tratar de um termo cuja etimologia contribui decisivamente para a fixação do seu sentido actual.

Um dos critérios mais difíceis de justificar é o do equilíbrio da extensão dos verbetes. O leitor especialista num dada área  sentirá certamente que os termos aqui tratados são muito breves, se comparados com outros para os quais não aceitará que sejam tão extensos. A responsabilidade da extensão dos verbetes é partilhada, naturalmente, pelos autores e pelo coordenador da obra, a quem devem ser pedidas explicações em último caso. O coordenador de um dicionário destas dimensões deve respeitar o bom senso público, digamos assim, que determina a extensão natural de um dado verbete. Mas também me parece justo reconhecer que alguma liberdade lhe assiste em alguns casos — aqueles em que exercita a sua sensibilidade, intuição ou ciência — para decidir que termos como convenção, ideologia, pós-modernismo ou raça, por exemplo, merecem um tratamento ensaístico, para além da mera descrição dos significados fundamentais. Por outro lado, optou-se por apenas reservar um espaço breve aos termos que possuem dicionários específicos, onde estarão devidamente desenvolvidos (por exemplo, ícone esigno para a semiótica, fonologia e morfologia para a linguística, encenador e mimo para o teatro, praticamente todas as figuras de retórica que são apenas referenciadas, porque informações completas poderão ser encontradas nos vários dicionários de retórica disponíveis, etc.). São normalmente estas decisões que, para o bem ou para o mal, concorrem para o perfil público da obra.

O leitor comentará, decerto, que falta na listagem o termo A ou o termo B ou o termo C que considera fundamental no campo literário; dirá também que o tratamento ensaístico dado ao termo D não é meritório se comparado com o termo E que ficou registado de forma muito sucinta; argumentará que a definição proposta para os termos F, G, H, e I são muito discutíveis e não representam um consenso sobre a matéria; e poderá ainda arrazoar sobre as falhas bibliográficas dos artigos J e K, etc. Pobre do dicionário que nasça e viva sem discussão, pobre do dicionário que nasça perfeito, pobre do dicionário que não provoque diferentes leituras e, sobretudo, que não fique aberto a correcções e averbamentos. Consideramos que estas negatividades previstas constituirão uma forma saudável de construir um instrumento de trabalho para os estudos literários que não se quer acabado, que não está acabado e que nunca se fechará sobre si mesmo.

Em nenhum momento se optou por registar graficamente os estrangeirismos de forma a ficarem mais próximas da língua portuguesa. Não achamos nenhuma vantagem no aportuguesamente de um termo técnico-científico que tem um uso particular, sem falarmos do acto fantástico de procurar uma pronúncia que fosse bem recebida por todos os utilizadores. Como é norma entre a comunidade nacional e internacional de estudiosos da literatura e da cultura, tais termos devem ocorrer na sua língua de origem e registados em itálico. Um dicionário técnico que optasse pelo aportuguesamento de um conjunto de termos estrangeiros teria, obviamente, que justificar, em todos os casos, a opção realizada. Este tipo de opções são, nesta área, quase sempre problemáticas e de imediata refutação, tornando-se impossível alcançar o consenso necessário ao seu registo dicionarístico. A maior parte das tentativas conhecidas nesse sentido terminaram em desastres linguísticos do tipo escolher diferição para traduzir o neologismo proposto por Derrida différance, o que podemos ler na edição portuguesa do Glossário da Crítica Contemporânea, de Marc Angenot. Contudo, o aportuguesamento justifica-se nos casos em que existe uma correspondência directa na língua portuguesa para a expressão estrangeira, de tal forma que a tradução proposta não oferece dúvidas e se apresenta como evidente. Neste caso, por exemplo imasculinização (immasculation) ou horizonte de expectaivas (Erwartungshorizont), decidiu-se deixar sempre o nome original entre parêntesis para que o leitor saiba que está perante uma tradução directa, que possui já alguma abonação na literatura da especialidade.

Os colaboradores deste E-Dicionário de Termos Literários são, na sua maior parte, professores universitários de Portugal e do Brasil. Esta obra não teve nenhum apoio financeiro ou de outra espécie. A sua existência deve-se à solidariedade científica de todos os colaboradores e à convicção de quem acredita que é possível ir juntando ordeiramente ideias ao longo de vários anos, arrumando-as em estantes de palavras, ensaiando cada palavra até lhe encontrar um lugar digno, limpando-lhes o pó das dúvidas que todos os dias se acumulam, até ao dia em que a biblioteca de palavras ganha um rosto a que se chama, provisoriamente, dicionário.

Este e-livro não é um cardápio de termos críticos para uso comum e arbitrário de quantos se servem da investigação literária. Não é certamente um dicionário onde se pode verificar a acepção normalizada para um dado conceito e assim aplicá-lo conforme as conveniências. Não é uma fonte onde se possa beber indiferentemente a ideologia que nela corre. Não é um manual de condução. Não é uma enciclopédia onde possamos encontrar toda a informação objectiva que nos interesse sobre um dado assunto. Fica então alguma coisa para este e-livro ser?

Todos os termos aqui apresentados fazem parte da metalinguagem dos profissionais da literatura (críticos jornalísticos, escritores, professores, investigadores) e são do conhecimento comum, com poucas excepções. Contudo, não existia em Portugal uma obra que fizesse a história individual de cada um dos termos nucleares que esses profissionais usam (e abusam). Não se trata de fazer uma simples história ou relato da evolução epistemológica de conceitos teóricos: pretendeu-se realizar não só uma história conceptual mas também uma história crítica acompanhada de uma reflexão pessoal sobre tais conceitos. A tarefa foi entregue de propósito a jovens profissionais, na sua maioria, e praticamente todos inéditos em livro. Na prática, tudo começou num seminário de mestrado de Teoria da Literatura, subordinado ao tema “Pós-estruturalismo e Literatura – Teoria e Prática da Textualidade”, que orientei na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, cujos participantes foram convidados a realizar esta obra colectiva sob minha orientação. Seguiram-se dois cursos de pós-graduação para professores do ensino secundário, que continuaram a trabalhar na mesma área, e várias edições do mestrado em Estudos Anglo-Portugueses, até 2005. Seleccionados os melhores artigos, chegámos a este e-livro, ainda em construção, que quer continuar a ser um pretexto para a reflexão mais do que uma reflexão sem qualquer pretexto.

Um e-livro desta natureza, que reúne trabalhos de vários profissionais sob a mesma orientação e de indivíduos sem currículo editorial, não é muito comum em Portugal, onde se privilegia o costume: a cada livro sua cabeça. Acredito que a tarefa a que nos propusemos só podia concretizar-se colectivamente. O resultado alcançado é mais do que tudo uma introdução aos estudos literários, à crítica literária e à teoria da literatura, apresentando criticamente termos primários e secundários para tais estudos. A  era pós-estruturalista provocou a aparição de muitos títulos colectivos defendendo criticamente filosofias tão diferentes entre si como a desconstrução, o marxismo literário, a psicanálise, as estéticas da recepção do leitor, o feminismo, a hermenêutica negativa, etc. Um e-livro deste género pode ajudar a compreender a linguagem destas filosofias que, muitas vezes, fazem da negação dos modelos alheios o problema central da seu próprio trabalho especulativo.  Sobretudo, um tal e-livro não quer deixar o leitor indiferente à sua própria diferença perante as crenças discutidas, para isso o convida, nas entrelinhas, a reflectir ele próprio sobre as reflexões apresentadas. A bibliografia essencial (com registo de informação mínima, não só para condensar os verbetes como porque é hoje mais fácil descobrir um título pelo nome do autor e ano de edição), que acompanha cada um dos termos, pode também ajudar a ampliar o estudo do leitor e a sua participação num processo que cada mais não pertence a nenhum indivíduo em particular, porque a ninguém reconhecemos a faculdade de possuir a verdade absoluta sobre o que quer que seja.

Carlos Ceia

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