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1. Tradução livre do termo checo aktualisace, em inglês geralmente traduzido por foregrounding, e que pode ser visto como um desenvolvimento do conceito proposto por Viktor Shklovsky de desfamiliarização. O termo checo foi apresentado pelos linguistas da Escola de Praga para designar o uso de artifícios susceptíveis de colocar a expressão linguística no primeiro plano (daí a tradução inglesa), de forma a criar um feito metalinguístico por oposição a todas as automatizações que caracterizam em geral a expressão artística. Como observa o linguista checo Jan Mukarovský "A função da linguagem poética consiste na máxima actualização da manifestação linguística. (…) O seu objectivo não é servir a comunicação mas sim trazer para primeiro plano o próprio acto da expressão." ("Linguagem-padrão e linguagem poética" (1932), in Escritos sobre Estética e Semiótica da Arte, Ed. Estampa, Lisboa, 1990, 1ª ed., 1975, p.322). Registada, pois, sobretudo na função poética da linguagem, a actualização pode ser vista como um desvio da norma linguística, como a violação de convenções discursivas, o que pode ser testemunhado, pelo menos, desde as experiências poéticas modernistas. A metáfora, como desvio semântico abundantemente utilizado na poesia, é um exemplo literário de actualização. O processo pode ser também encontrado na ficção, por exemplo, quando um autor recorre a estratégias metanais, como em Tristram Shandy (1760-67), de Sterne, que procura ir explicando ao leitor a construção narrativa da sua própria obra. Neste processo, procede-se sempre a uma deslocação da atenção sobre o conteúdo ("o que é dito") para a forma ("o como é dito"). A principal diferença entre a aplicação do conceito à prosa e à poesia consiste no facto de na primeira a actualização se realizar ao nível dos temas, dos enredos e das personagens, e, na segunda, ao nível puramente linguístico. A diferença formalista entre automatização e actualização é descrita pelo linguista checo Bohuslav Havránek nestes termos: a automatização é "o uso de artifícios linguísticos, que podem ocorrer isoladamente ou em combinações (…), sem que a própria expressão seja alvo de atenções"; a actualização é "o uso de artifícios linguísticos que visam atrair a atenção, sendo vistos como incomuns, como desprovidos de automatização, como desautomatizados, tal como uma metáfora poética viva (em oposição a uma metáfora lexicalizada, que é automatizada)." ("The Functional Differentiation of the Standard Language" (1932), in A Prague School Reader on Esthetics, Literary Structure, and Style, ed. por Paul Garvin, 1964).

Em inglês, a consagração do termo foregrounding levou à concepção do seu oposto natural: backgrounding, para dizer o processo de ocultação de certos elementos textuais. Este processo é típico da literatura policial, que deve a sua significação à arte de dissimular as pistas necessárias à compreensão do desenlace da história narrada. O conceito de backgrounding aproxima-se, portanto, do recurso retórico conhecido por elipse.

2. Na linguística jakobsoniana, trata-se do momento em que uma palavra deixa a sua realidade linguística, enquanto termo de um dicionário vivo, para fazer parte de um discurso. No sistema linguístico saussuriano, por exemplo, podemos dizer que a fala é uma actualização da língua. Num sentido geral, a pragmática pode ser definida como um estudo de actualizações. O conceito está próximo de outras noções de Jakobson, apresentadas nos Essais de linguistique générale (trad.de N.Ruwet, Éd. de Minuit, Paris, 1963), como as de referência, que coloca a palavra em relação àquilo que representa, e embraiagem, que se refere à presença das marcas do sujeito da enunciação. Opõe-se à virtualização e à abstracção na linguagem.

3. Termo utilizado num modelo narrativo proposto por Claude Bremond ("La Logique des possibles narratifs", Communications, 8, 1966), que entende uma narrativa como constitutiva de funções que permitem duas possibilidades: a de actualização e a de não-actualização.

{bibliografia}

David S. Miall e Don Kuiken: "Foregrounding, Defamiliarization, and Affect: Response to Literary Stories", Poetics, 22, 5 (Amesterdão, 1994); M. H. Short: "Some Thoughts on Foregrounding and Interpretation", Language and Style, 6 (Flushing, Nova Iorque, 1973).