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Palavra-chave da poética barroca, que se refere às subtilezas de um texto, ao serviço da argumentação ou da persuasão, no caso da oratória, ou como simples estilização poética. Um soneto barroco anónimo português, “A uma ausência”, é um bom exemplo do tipo de raciocínios subtis, verdadeiras acrobacias de conceitos, da agudeza. A primeira quadra resume-a: “Vida que não acaba de acabar-se, / Chegando já de vós a despedir-se, / Ou deixa, por sentida, de sentir-se, / Ou pode de imortal acreditar-se.”

Lorenço Gracián (de nome verdadeiro, Baltasar Gracián, que é o que a história registará), em Arte de ingenio, tratado de la agudeza en que se explicam todos los modos y diferencias de conceptos (1ªed., 1642; Agudeza y arte de ingenio, é o título da versão definitiva em 1648), apresenta a agudeza como um dos processos para atingir esse ideal literário barroco chamado “discurso engenhoso”. A obra de Gracián é o texto de referência para o conceptismo espanhol do século XVII. Alguns comentadores entendem que a obra de Gracián se inspira directamente (ou chega a plagiar) o tratado do italiano Matteo Peregrini: Delle acutezze che altrimenti spiriti, vivezze e concetti volgarmente si appelano […. . .] trattado di Matteo Peregrini, bolognese (1639). Adolphe Coster defende esta tese; E. Sarmiento tenta demonstrar a originalidade de Gracián. Comentando as duas posições, António José Saraiva concluiu que “a Arte de ingenio é um panegírico magnífico da agudeza, enquanto o Trattato de Peregrini combate os excessos do estilo conceptista, dando por vezes a entender que a agudeza é própria de espíritos frívolos. (…. . .) Peregrini pretendeu dar-nos um tratado delle acutezze; Gracián quer dar-nos não só um tratado de la agudeza, mas também uma arte de ingenio.” (O Discurso Engenhoso, Gradiva, Lisboa, 1996, pp.165-167). Mesmo na definição do conceito as duas posições são diferentes, segundo António José Saraiva: Peregrini refere-se sobretudo ao antigo conceito de sententiae e ao que Cícero chamava de dicta breve, portanto a acutezza “é um pormenor do discurso, um esmalte que se acrescenta, um ornato” (ibid., p.168); para Gracián, mais do que um pormenor do discurso, a agudeza “é a alma de todo o discurso” (ibid., id.).

O tratado de Gracián define agudeza como “un acto de entendimiento que exprime la correspondencia que se halla entre los objectos” (2ª ed., p.240), e apresenta as várias espécies: da agudeza de perspicácia, que se concentra sobre verdades científicas e que, portanto, tem uma função pragmática, à agudeza de artifício, que se realiza por conceitos, palavras ou acções e tem a função de deleitar. Na obra de Gracián, ficaram codificadas as regras do conceptismo, cujo fundamento era a agudeza.

Aplicada ao estilo culto ou cultismo dos séculos XVII-XVIII, a agudeza concretizada nos jogos de palavras, imagens e construções foi criticada pelo Padre António Vieira, nomeadamente no Sermão da Sexagésima. A mesma crítica, ainda mais severa, foi feita por Luís António de Verney, nos seus Estudos Literários. Depois de ler o Tratado de Gracián, comenta: “Querer ensinar a dizer graças e agudezas é o mesmo que querer ensinar a mudar a natureza: quem não é próprio para estas coisas, não as pode aprender. As graças, pela maior parte, têm beleza respectiva: em boca de uns, têm graça; na dos outros, não. A agudeza, quando não é pura, é o mesmo. Pela maior parte, as que passam com este nome não merecem este título: são meros jogos de palavras, que agradam infinitamente aos ignorantes.” (Verdadeiro Método de Estudar, vol.II, Liv. Sá da Costa, Lisboa, 1950, p.234).

{bibliografia}

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(1913); António José Saraiva: O Discurso Engenhoso (1980); E.
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