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Figura de retórica (amplificatio) que consiste no desenvolvimento de um facto ou de uma ideia, destacando ainda mais as suas particularidades. A amplificação é um recurso estudado pelos retóricos antigos, desde Aristóteles a Cícero e Quintiliano, sempre com o sentido de “realçar uma ideia, para a fazer valer”. Só na Idade Média o conceito também denota “o desenvolvimento de um assunto”. Trata-se de um recurso frequente na épica, na tragédia e na oratória, bem representado, por exemplo, nos sermões do Padre António Vieira: "Todos repugnam, todos reclamam, todos se alteram, todos se unem, e conjuram em ódio, e ruína do inimigo. A memória, sem já mais se esquecer, representa o agravo: o entendimento pondera a ofensa: a fantasia afea a injúria: a vontade implora, e impera a vingança. Salta o coração, bate o peito, mudam-se as cores, chameam os olhos, desfazem-se os dentes, escuma a boca, morde-se a língua, arde a cólera, ferve o sangue, fumeam os espíritos, os pés, as mãos, os braços, tudo é ira, tudo fogo, tudo veneno." (Sermão da Primeira Sexta-feira da Quaresma, cap.II, 1649). A amplificação pode ainda ser tomada literalmente como mero exercício linguístico de expansão de texto. Falamos neste caso de desenvolvimento de um tema, de uma ideia, de uma tese, de um argumento, etc. Por este motivo, podemos dizer que a amplificação é uma forma de expressão contrária à concisão, é um fenómeno oposto ao da contracção de texto. Quando utilizada ao serviço da argumentação complexa ou de qualquer circunstância literária que obrigue à persuasão do leitor, a amplificação não pode ser vista como mero artifício para empolgar o discurso. Note-se ainda que, mesmo nos casos em que a amplificação surge de forma caótica, tal forma de expressão não é arbitrária mas esteticamente controlada pelo autor, como foi frequente, por exemplo, na poesia futurista: “O mundo inteiro não existe para mim! Ardo vermelho! / Rujo na fúria da abordagem! / Pirata-mor! César-Pirata! / Pilho, mato, esfacelo, rasgo! / Só sinto o mar, a presa, o saque! / Só sinto em mim bater, baterem-me / As veias das minhas fontes! / Escorre sangue quente a minha sensação dos meus olhos! / Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!” (Álvaro de Campos, “Ode marítima”, ed. crít. de Teresa Rita Lopes, Círculo de Leitores, Lisboa, 1993). A amplificação é facilmente confundível com a acumulação, porque com ela partilha o recurso à enumeração de palavras ou ideias, porém a amplificação depende de uma lógica de progressão significante que a acumulação não respeita. Se a amplificação se concentra no desenvolvimento ou consolidação de uma ideia, apresentando-a sobre todos os pontos de vista possível, pode tomar o nome antigo de auxese, uma forma de hipérbole.

Podemos distinguir as seguintes três formas básicas de amplificação: 1) antitética, quando se põem em confronto uma proposição considerada ideologicamente fraca e uma outra que se quer amplificada por ser ideologicamente forte (“Não, não é cansaço… / É uma quantidade de desilusão / Que se me entranha na espécie de pensar / (…) // Não, cansaço não é… / É eu estar existindo / (…) // Não. Cansaço porquê? / É uma sensação abstracta / Da vida concreta”, Álvaro de Campos, nº156, Livro de Versos, ed. cit.); 2) anafórica, quando se repetem certos termos secundários num mesmo contexto, para servir a capacidade amplificante do(s) termo(s) principal(is) (“A espingarda! Onde está a espingarda?… / (…) / Talvez na palavra Amor, / Talvez na palavra Ódio, / Talvez na palavra Medo, / Talvez na palavra Morte, / Talvez na palavra Merda.”, José Gomes Ferreira, Cidade Inexacta, XX, in Poeta Militante, vol.3, Moraes, Lisboa, 1978); 3) sinonímica, quando se recorre a uma gradação de sinónimos ou de ideias correlatas (“Não é preciso disfarçar-se pra se ser salteador, basta escrever como o Dantas! Basta não ter escrúpulos nem morais, nem artísticos, nem humanos! Basta andar com as modas, com as políticas e com as opiniões! Basta usar o tal sorrizinho, basta ser muito delicado, e usar coco e olhos meigos! Basta ser Judas! Basta ser Dantas!”, Almada Negreiros, «Manifesto Anti-Dantas», in Obras Completas, vol.VI, “Textos de Intervenção”, IN-CM, Lisboa, 1993); 4) argumentativa, quando se acumulam argumentos em defesa de uma tese (em Uma Campanha Alegre, reapreciando a decadência do teatro nacional, Eça de Queirós desenvolve assim a sua tese: “Esta decadência tem causas diferentes: A primeira é a própria literatura dramática. (…) Outra causa da decadência: o público. (…) Outro motivo de decadência: os actores. (…) Outro motivo da decadência dos tempos: a pobreza geral. (…) Tal é o perfil do estado geral dos nossos teatros, a largos traços.”, Obras Completas, vol.XIV, Círculo de Leitores, Lisboa, 1980).

{bibliografia}

Albert
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