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Interrupção violenta ou progressão inconsistente da sequência lógica de uma frase, que continua ou finaliza em termos substancialmente diferentes do seu início. Por esta razão, também se chama ao anacoluto frase quebrada. Por exemplo: “O dia, esse bojo de linfa, uma vertigem de hélio – arcaicamente / como pretexto para luzirem / cortejos: animais, bárbaros crânios de ouro; / um branco suspiro, extenua as gargantas dos áruns; / pálpebras no granito despedem-se do mundo.” (Herberto Helder, Última Ciência, 1988, in Poesia Toda, 1990).

O anacoluto é comum na linguagem coloquial e também frequente na poesia e na oratória. Nas situações discursivas da oralidade que não respeitam as regras de concordância verbal ou a sintaxe, o anacoluto é considerado uma corrupção gramatical. São muitas as construções orais que constituem anacolutos, por exemplo: “O avião, não te disse, está atrasado.”, em vez de: “Não te disse que o avião está atrasado?” Este tipo de anacoluto não funciona, naturalmente, como recurso estilístico, por isso tende a ser considerado um mero problema de solecismo. Portanto, em termos restritos, pode-se considerar anacoluto apenas um problema de concordância: um sujeito inicial que fica sem predicado, para concentrar a atenção num segundo já acompanhado de predicado que não serve o primeiro. A tradição gramatical define ainda o anacoluto apenas como a utilização do pronome relativo sem antecedente, situação muito frequente nos provérbios: “Quem escuta de si ouve.” e na poesia: “Que uma coisa pensa o cavalo; / outra quem está a montá-lo.” (Alexandre O’Neill, “A história da moral”, Poesias Completas, IN-CM, Lisboa, 1990).

{bibliografia}

Albertina Fortuna Barros: “Anacoluto”, Revista de Portugal, 31
(1966); Eunice Pontes: “Anacoluthon and ‘Double Subject’ Sentences”, in
Proceedings of the XIIIth International Congress of Linguists (Tóquio,
1983)/Cadernos de Linguística e Teoria da Literatura, 7 (Belo
Horizonte, 1982); Ludger Hoffmann: “Anakoluth und sprachliches Wissen”,
Deutsche Sprache: Zeitschrift fur Theorie, Praxis,
Dokumentation
, 19, 2 (Berlin, 1991); Nils Erik Enkvist: “A Note on
the Definition and Description of True Anacolutha”, in Duncan Rose
Caroline e Theo Vennemann (eds.): On Language: Rhetorica, Phonologica,
Syntactica
(1988).