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A linguagem é um jogo. A arte é lúdica. Como arte, a linguagem joga os signos, joga com os signos, embaralha os significantes. É precisamente na linguagem que o homo ludens pratica sua melhor capacidade de jogar: a partir do código da língua, a linguagem mistura  os signos, desloca as palavras, revela combinações verbais, surpreende os termos, considerando que em uma só palavra – “ave, palavra!”, pode-se cantar com Guimarães Rosa (1908-1967), alquimista da linguagem – estão todas as palavras. O dicionário, realização do código da língua, será o paradigma de onde os sintagmas fazem a reverberação, a reversibilidade, o transtorno do eixo vertical, resultando uma salada, uma macedônia, um coquetel de letras. Cada verbo tem um verso e um reverso, como o espelho e a lua, que preservam, ciosamente, o segredo de seu outro lado. No vasto elenco das figuras de linguagem, o anagrama surge como o espaço em que melhor se opera o jogo da linguagem;  anagramaticamente, ouve-se o desafio: decifra de quantas palavras cada palavra está grávida! Em Writing, a poeta estadunidense Emily Dickinson (1830-1886)  extasia-se e nos faz extasiar-nos: 

I know nothing in the word

that has as much power as a word.

Sometimes I write one, and I

look at it,  until it begin to shine.

 

À força de olhar uma palavra, poderosa palavra, ela se vira de costas, volta-se do avesso, reverte-se, como o verso do poema. Um verso contém o Universo. Será o anagrama o nome do brilho que cada palavra, olhada insistentemente, emite. O contemplador da palavra força-a a dizer seus múltiplos nomes, seus nomes secretos, seus segredos significantes. Por seu turno, a poeta carioca Cecília Meirelles (1901-1964) exclama, num jogo intrincado de   paradoxos e oxímoros, em “Palavras aéreas”, poema inserido no épico Romanceiro da Inconfidência (1953):

Ai, palavras, ai, palavras, que estranha potência, a vossa! Ai, palavras, ai, palavras, sois de vento, ides no vento, no vento que não retorna, e, em tão rápida existência, tudo se forma e se transforma!

Sois de vento, ides no vento,

e quedais, com sorte nova!

Ai, palavras, ai palavras,

que estranha potência, a vossa!

Todo o sentido da vida

principia à vossa porta;

o mel do amor cristaliza

seu perfume em vossa rosa;

sois o sonho e sois a audácia,

calúnia, fúria, derrota…

A liberdade das almas,

ai! com letras se elabora…

e dos venenos humanos

sois a mais fina retorta:

frágil, frágil como o vidro

e mais que o aço poderosa!

Reis, impérios, povos, tempos,

pelo vosso impulso rodam…

Detrás de grossas paredes,

de leve, quem vos desfolha?

Pareceis de tênue seda,

sem peso de ação, nem de hora…

– e estais no bico das penas,

– e estais na tinta que as molha,

– e estais nas mãos dos juízes,

– e sois o ferro que se arrocha,

– e sois o barco para o exílio,

– e sois Moçambique e Angola!

Ai, palavras, ai palavras,

leis pela estrada afora,

erguendo asas muito incertas,

entre verdade e galhofa,

desejos do tempo inquieto,

promessas que o mundo sopra…

Ai, palavras, ai, palavras,

mirai-vos: que sois agora?

-Acusações, sentinelas,

bacamarte, algemas, escolta;

– o olho ardente da perfídia,

a velar na noite morta;

– a umidade dos presídios,

– a solidão pavorosa;

– o duro ferro de perguntas,

com sangue em cada resposta;

– e a sentença que caminha,

– e a esperança que não volta,

– e o coração que vacila,

– e o castigo que galopa…

Ai, palavras, ai, palavras,

que estranha potência, a vossa!

Perdão podíeis ter sido!

– sois madeira que se corta,

– sois vinte degraus de escada,

– sois um pedaço de corda…

– Sois povo pelas janelas,

cortejo, bandeira, tropa…

Ai, palavras, ai palavras,

que estranha potência, a vossa!

Éreis um sopro na aragem…

– sois um homem que se enforca!

 

Já a poeta gaúcha Lia Luft tem na palavra seu mistério de silêncio: “Nem acredites se pensas que te falo: palavras são meu jeito mais secreto de calar”.

Qual será o anagrama do anagrama? A um menino, que surfa as ondas todas  de Saquarema-RJ, perguntei, por mero acaso, o que era anagrama, ao que me respondeu, incontinenti: “Há na grama”. Portanto, o anagrama guarda em si mesmo a sua desconstrução, reconstruindo novas significâncias, pois que toda palavra é um seio úbere: matrix/motrix.

Para empreender uma pesquisa mais virtual sobre o anagrama (antes da era da informática, pesquisava-se em dicionários de anagramas; agora, programas de computador, como Anagram Genius”, “anagram servers“, “anagram solvers” ou “anagrammers“, oferecem uma potencialidade infinda  muito mais rápida do que o papel e a caneta…), recorri ao Internet Anagram Server, inscrevendo o termo “anagrama”, de que   encontrei as quinze variáveis infra, onde chama a atenção a recorrência do substantivo “man” (“homem”, “ser humano”), do artigo indefinido “a” (“um”, “uma”) e de “am” (“sou”),  primeira pessoa do presente do indicativo do verbo to be (“ser”), o que leva a uma  significação abscôndita: “eu sou um ser humano”, identificando, pois, a palavra ao ser de linguagem, homo loquens:.

Raga Man Agar Man A Mag Ran A Gram An A Nag Ram A Nag Mar A Nag Arm A Rang Ma A Rang Am A Rag Man A Gar Man Rag Ma An Rag Am An Gar Ma An Gar Am An

Buscando, no mesmo sítio,  anagramas para o meu nome completo – Latuf Isaias Mucci -, obtive esta resposta: “4086 found. Displaying first 1000”, uma lista quase infindável, que se inaugura com este florido  sintagma: Acacia If Stimulus. Já para o meu primeiro prenome – Latuf, adjetivo árabe, que se traduz, em vernáculo, por “gentil”, “meigo”, “doce”, “generoso” (quanto investimento batismal do meu pai libanês!) –  obtive apenas um par de correspondentes: fault e at flu; o primeiro anagrama muito me agradou, porque muitas vezes assino “Latufalho”, num gesto búdico, que considera o ser humano como falho por natureza; mas a segunda versão me fez pensar em resfriado, gripe, ou, quem sabe, na abreviatura do time de futebol carioca “Fluminense”. Definitivamente, o anagrama demonstra que há muitíssimo mais coisas dentro de um nome do que possa imaginar nossa vaidade semiológica. O anagrama reforça, ainda, o postulado da cultura árabe, segundo o qual no nome da pessoa está inscrito o seu destino, um maktub. Em minhas elucubrações anagramáticas, descobri, fascinado,  que as datas de nascimento e morte de Jorge Luis Borges são exatamente correspondentes, bastando trocar de lugar  os números, revirar  de cabeça para baixo o 6, que vira 9:  1899-1986.  Note-se que o título do sítio de buscas – Internet Anagram Server, anagramaticamente,  Rearrangement Star Vein” ou “Vegetarians Remnant Err   surge dançando na tela iluminada e configura uma frase: I, rearrangement servant (“eu, servidor dos rearranjos”), que estrutura uma  mise en abyme dos signos, ao mesmo tempo que demonstra a disponibilidade infinita da Internet – nova Biblioteca de Alexandria e incomensurável Babel, feita de letras, números, programas, ícones…

Um anagrama (do  grego ???/ana-, “para trás”, e ???????/graphein, “escrever”)   é um jogo de palavras, um artifício lingüístico, um estratagema  literário,  que consiste em rearranjar as letras de uma ou mais palavras e obter uma ou mais novas palavras diferentes, sem adicionar ou subtrair letras. Sem empreender uma  incursão pelos  complexos aspectos matemáticos e informáticos dos anagramas (do ponto de vista da matemática, da informática e da teoria da linguagem, uma palavra, uma locução ou uma frase é um elo ou, equivalentemente, uma disposição com repetição em torno do alfabeto das letras que a compõem. A relação “ser anagrama de” é uma equivalência. Para os matemáticos e os pesquisadores da informática, Roma é anagrama de Roma), convém frisar que, foco da atenção de psicanalistas, poetas, antigos e contemporâneos, Ferdinand de Saussure (1857-1913),  paralelamente ao trabalho teórico, postumamente publicado na obra Cours de Linguistique Générale (1916),  realizou, entre 1906 e 1909, um outro estudo que é comumente chamado de Cahiers d’anagrammes, onde  perscrutou um corpus de poemas clássicos para tentar provar a existência de um mecanismo de composição poética – “un secret de fabrication”-, baseado na análise fônica das palavras, mecanismo este formado pelo anagrama e pelo hipograma: o hipograma, fundado, não mais na letra, mas na sílaba, subjacente,  palavra-tema, é o nome de um deus ou de um herói diluído foneticamente no poema. O anagrama, por sua vez, é o processo que propicia a diluição do hipograma nos versos, a disseminação do que estava, até então, dissimulado. O anagrama seria o princípio de base da técnica poética indo-européia ; com efeito, encontram-se anagramas nos poemas romanos, que proferem o elogio dos mecenas e dos heróis ; o lingüista genebrino criou também o paragrama, espécie de anagrama livre : o texto, de acordo com Saussure, é uma matriz de significantes, que permite significações infinitas, accessíveis por chaves ; o anagrama é uma figura de estilo que joga com o sentido oculto. Contrariamente ao anagrama tradicional, baseado na letra, são os fonemas o elemento fundamental nos anagramas saussurianos  Os anagramas fônicos  têm, na poesia homérica,  na poesia e na prosa latinas,  um papel mais importante do que a rima e a aliteração, por exemplo. No poema The Raven (1845), de Edgar Allan Poe (1809-1849), o refrão « Nevermore » tem no advérbio de tempo « never » um anagrama de « raven », título do poema. O Corvo (Raven) repete, ao longo do poema, no lamento monótono do refrão, a expressão  Never more (Nunca mais). Ora, raven (RVN), demonstra Jakobson, é a inversão fonológica perfeita de Never (NVR). Nessa medida, a palavra Never, desolado refrão que o pássaro imutavelmente repete, constitui numa imagem invertida da própria palavra Raven (Corvo). O corvo não podia dizer outra coisa a não ser virar seu próprio nome pelo avesso Em Les mots sous les mots, les anagrammes de Ferdinand de Saussure (1971),  Jean Starobinski estuda os anagramas saussurianos; a preposição francesa “sous” (“sob”) remete a palimpsesto, vale dizer, sob cada palavra há  palavras, camadas de palavras; outra preposição seria “dans” (“dentro”), indicando que, no bojo de cada palavra, moram outras palavras. J. Starobinski cita estes versos de Le cimetière marin (1871), de Paul Valéry (1871-1945) : “la mer toujours recommence!/ Ô recompense après une pensée, “onde o segundo verso se constrói sobre a imitação fônica de “recommencée”.  William  Camden (1551-1623), historiador e antiquário inglês, define, canonicamente, em sua “miscelânia” Remains Concerning Britain, o anagrama :  “Anagrammatisme is a dissolution of a name truly written into his letters, as his elements, and a new connection of it by artificial transposition, without addition, subtraction or change of any letter, into different words, making some perfect sense applyable (i.e., applicable) to the person named”.

Perde-se na noite dos tempos, a gênese do anagrama, cuja criação, segundo consta, se atribui ao poeta grego do século III a. C. Licofrón de Cálcis, autor de anagramas encomiastas a  reis; havia, inclusive, nas cortes, o cargo de anagramatista oficial. De acordo com Celspirius, teólogo luterano, em seu tratado De anagrammatismo (1713):  “Deus é o pai do anagramatismo”. Na Cabala judia, que joga com os mistérios e segredos entretecidos nas letras, encontram-se anagramas no Sefer Ha Zohar (Sefer ha-Zohar Sefer ha-ZoharThe Book of Splendour: O livro dos esplendoresWhat is The Sefer ha-Zohar? The Zohar [radiance] is the greatest classic of Jewish mysticism.;  Zohar – irradiação – é o maior clássico do misticismo judaico; trata-se de um It is a mystical commentary on the Torah, written in Aramaic, and is purported to be the teachings of the 2nd century Palestinian Rabbi Shimon ben Yohai. comentário místico  sobre a Torah, escrito em aramaico, que se  supõe  ser o ensinamento, no século II, do  rabino palestino Shimon ben Yohai, que viveu no século I ou II da era cristã. Legend relates that during a time of Roman persecution, Rabbi Shimon hid in a cave for 13 years, studying Torah with his son; During this time he is said to have been inspired by G@d to write the Zohar.Refere a lenda  que, durante um tempo de perseguição romana, o rabino Shimon escondeu-se, por  treze anos,  em uma caverna, estudando a Torah com seu filho. Durante esse tempo, ele  diz ter sido inspirado por Deus  para escrever o Zohar. However, there is no real mention of this book in any Jewish literature until the 13th century. No entanto, não existe, até o século XIII, referência autêntica  a esse livro em qualquer literatura judaica.  In the 13th century, a Spanish Kabbalist by the name of Moses De Leon [1240-1305] claimed to discover the text of the Zohar, and the text was subsequently published and distributed throughout the Jewish world. No século XIII, um espanhol Kabbalist, conhecido  pelo nome de Moisés De Leon [1240-1305] afirmou ter  descoberto o  texto do Zohar, que foi posteriormente publicado e distribuído em todo o mundo judeu). However de Leon denied authorship his entire life. Na França, Pierre Ronsard (1524-1585)  criou, em Amours (1552),  um dos mais célebres anagramas, inserido num epigrama, em homenagem à Virgem Maria: « Marie, qui voudroit vostre beau nom tourner / Il trouveroit aimer: aimez-moi donc, Marie  », em que o substantivo próprio « Marie » (« Maria ») eclode o verbo « aimer » (« amar »). Ainda na rubrica do panegírico  religioso, reza-se, na liturgia católica : « Ave Maria, gratia plena, Dominus tecum” (« Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco » ), que se  « anagrama » em “Virgo serena, pia, munda et immaculata” (« Virgem serena, piedosa, pura e imaculada »). A lenda dá conta, segundo São Jerônimo (347-c.420), o tradutor da Bíblia do grego antigo e do hebraico para o latim – a Vulgata -, de que, quando Pilatos perguntou a Jesus Quid est veritas ? (« O que é a verdade ? »), obteve uma resposta que é um anagrama : « Est vir qui adest » (« É o homem que está diante de ti »). Também foi usado o anagrama para se evitarem problemas com a Inquisição, como no caso da correspondência entre Galileu Galilei (1554-1642) e Johannes Kepler (1571-1630), em que o físico, matemático, astrônomo e filósofo florentino inseria anagramas para comunicar ao colega astrônomo seus descobrimentos astronômicos – como o de que Vênus tem fases como a Lua -, contrários à ortodoxia da Igreja Católica.

 O anagrama presta-se, ainda, a ocultar o nome do autor de uma obra literária ; no rol dos pseudônimos anagramáticos, são famosos : Gabriel Padecopeo, nome com que  Lope de Vega Carpio (1562-1635) assinou seus Soliloquios amorosos (1629) ; em Gargantua et Pantagruel (1532-1552), François Rabelais (1494-1553) utilizou o pseudônimo Alcofribas Nasier ; já Marguerite Yourcenar (1903-1987), primeira mulher a ser membro da Académie Française de Lettres, lançou mão de um anagrama para assinar toda a sua obra, visto que seu nome completo é, precisamente, Marguerite Cleenewerck de Crayencour, onde o último sobrenome transforma-se em Yourcenar. Outros anagramas célebres : François Marie Arouet, mais  conhecido como Voltaire (1694-1778) ; Arovet L.I, isto é,  Arouet le Jeune (U=V, J=I) ; Boris Vian (1920-1959) : Bison ravi ou Brisavion ; Jean-Paul Sartre (1905-1980) : Jean Sol Partre ; Jim Morrison (1943-1971) : Mr Mojo Risin ; Salvador Dalí (1904-1989) : Avida dollars (apelido pejorativo, dado por  André Breton, 1896-1966) ; Raymond Queneau (1903-1976) : Don Evané Marquy ou Rauque Anonyme ; Pablo Picasso ( 1881-1993 ) : Pascal Obispo.

Já no campo conturbado da política, registra-se o caso do nome do rei da Itália, Vittorio Emmanuelle Secondo, para quem os partidários criaram o anagrama « Roma ti vuole e Dio consente «  (« Roma te quer e Deus o consente »), ao passo que seus inimigos forjaram um outro anagrama : « Ne Dio ne Roma te vuole costì » (« Nem Deus nem Roma te querem aqui »).

Na prolífera e profícua família das figuras de Retórica, o anagrama é irmão, quase gêmeo, do  quiasmo (segundo Ana Paula Rocha, “do grego Khiasmus, «cruzamento», é uma figura de estilo que se traduz pela inversão da ordem das palavras – o que poderá conduzir à repetição das mesmas – e de duas frases que se opõem, permitindo não só diversificar o ritmo frásico, bem como levar à obtenção de certos efeitos semânticos, a partir da posição que as palavras ocupam no enunciado: «Pleasure’s a sin, and sometimes sin’s a pleasure.» – Byron).,  e do palíndromo (de acordo com essa mesma pesquisadora, “classifica-se deste modo uma palavra, frase, linha em verso, ou número, que – se ignorados os espaços entre as palavras e/ou a pontuação -, permitam a sua leitura, mantendo sentido unívoco, uma vez lidas da esquerda para a direita, ou da direita para a esquerda. «Ovo», «Atai a gaiola saloia gaiata», «525», são exemplos de palíndromos. Alguns escritores poderão recorrer aos versos palíndrómicos como um mero exercício verbal que permita ao leitor o entretenimento mental, não são no entanto considerados como uma técnica que vise a enriquecer a literatura. Jogando com «One TS Eliot» obtemos «étoile steno», e outros exemplos seriam: «Go hang a salami, I’m a lasagna hog.» ou «I made tart surf net, for often frustrated am I»).

Eis uma lista, mais ou menos aleatória, mas totalmente curiosa,  de anagramas: em português : Iracema/América (Iracema, de 1865,  é o título de famoso romance romântico de José de Alencar, 1829-1887) ;  Diana/Nádia ; Raul/Luar (palíndromo, também) ; ator/rota ; Roma/amor ;  Milão/limão.  Em espanhol : Roldán/Ladrón ; Monja/jamón ; lámina /animal. Em francês : baiser/braise ; cirque/crique ; nacre/carne ; Marion/romain, manoir, minora ; aimer/Marie/maire/ramie ; aube/beau ; chien/niche/Chine ; ordinateur/ rudération/ on durerait/ dorerait nu/dur notaire/ ration dure ; imaginer /migraine ; parisien/aspirine ; soigneur/guérison ; les misérables/ on les embrasse ; révolution française/un véto corse la finira ; Pierre de Ronsard/Rose de Pindare ; Napoléon Empereur des Français/un pape serf a sacré le noir démon ; Albert Einstein/rien est établi. Em inglês : Em inglês : God/dog ; Alan Smithee/ The Alias men ; semolina/ is no meal ; orchestra / carthorse; Eleven plus two / Twelve plus one; A decimal point / I’m a dot in place;  The Germans soldiers/ Hitler’s men are dogs ; Astronomers/no more stars; Funeral / real fun; George Bush/He bugs Gore; Madonna Louise Ciccone / Occasional nude income; William Shakespeare / I am a weakish speller; Roger Meddows-Taylor / Great words or melody; Margaret Thatcher / That great charmer;  Alec Guinness /Genuine Class; Elvis Aaron Presley /Seen alive? Sorry, pal!; listen/ silent. Em italiano : attore /teatro; bibliotecario / beato coi libri.

Dado que toda palavra é uma senha, o cinema, no quadro do suspense e do enigma, joga com a potência misteriosa de toda  palavra, que, com sua oblicuidade, remete a signos outros. Em seguida, alguns poucos exemplos do amplo espectro de anagramas cinematográficos :  em  Matrix (1999),  dos irmãos  Wachowski, o herói  Neo sabe que é o « eleito » (One, em inglês). Em O segredo da pirâmide, “eh tar”,  guru da seita “rame tep”, é o anagrama de sua verdadeira identidade : Rathe. Em O bebê de Rosemary (1968),  título de um romance publicado em 1967, de autoria de Ira Levin e adaptado ao cinema   por Roman Polanski e William Castle, a heroína descobre que o nome de Steven Marcato, encontrado em um livro de bruxaria, é o anagrama do nome de seu vizinho Roman Castevet. Em O código de Da Vinci, filme, de 2006,  baseado no livro homônimo (2003) e  dirigido por Ron Howard, a maior parte dos segredos e enigmas resolve-se através de anagramas : no solo da grande galeria do Louvre, aparece a mensagem: “O, Draconian Devil!. Oh, lame Saint“, que significa “Leonardo Da Vinci, The Mona Lisa (A Mona Lisa); no quadro    Mona Lisa encontra-se  a frase : “So Dark The Con of Man” (Madonna of the Rocks). Cabe mencionar que no  livro também  aparecem anagramas, como o nome do editor, Jonas Faukman, que é anagrama de  Jason Kaufman.

O anagrama coloca, ainda, a problemática do sagrado na língua, algo próximo do esoterismo, que o usa muito, bem como as práticas mágicas e os vaticínios. ; nos poemas do monge beneditino e teólogo alemão, autor, inclusive do cântico « Veni, Creator Spiritus » (utilizado na 8a. Sinfonia de Gustav Mahler)  Rabanus Maurus Magnentius (c. 780-856) « De laudibus sanctae crucis « (« Em louvor da santa cruz ») por exemplo,  a palavra incorpora louvor e verdade sagrada. Concebida como combinatória, a escritura dir-nos-á algo sobre Deus, sobre o universo, sobre nós mesmos. A já citada Cabala judia liga-se, na Renascença, à Cabala cristã, e confere uma grande importância às transposições, às  migrações e aos deslocamentos de letras : o nome de Deus é uma condensação do movimento e da mutação das letras, bem como haverá uma analogia entre os átomos que compõem o universo e as letras do alfabeto.

Este verbete abriu-se tratando da potência e do brilho das palavras, que se convertem em outras, que se metamorfoseiam, que se deslocam, no jogo montado e remontado pelo anagrama. Mister é também apontar o sêmen e o sangue que cada palavra contém. Verdadeiro pharmakon, a palavra é, ao mesmo tempo, salvação e perdição. Do caráter extremamente venenoso da palavra, dá conta o extraordinário  filme-documentário  francês La langue ne ment pas ( Idiomas não Mentem, na versão brasileira), de 2003, de Stan Neumann, cujo enredo é o seguinte: durante o Terceiro Reich, como ficou conhecido o período entre a ascensão de Adolf Hitler até sua derrota no final da Segunda Guerra Mundial, a língua alemã passou por uma transformação. O dia-a-dia dessa mudança foi percebido e registrado em um diário por Victor Klemperer, então professor de Filosofia Românica na Universidade de Dresden; judeu, o professor-escritor   sobreviveu ao holocausto graças a seus estudos. Narrado de forma como se ele próprio lesse seu diário, o filme intercala fotografias pessoais e imagens históricas a fim de  contar como o governo de Hitler usou o idioma como um objeto de manipulação pública. Na época, todos os alemães – dos camponeses aos industriais, passando pelos oficiais do exército e até aos judeus reclusos nos campos de concentração – começaram  a usar palavras ou expressões criadas e modificadas pelo governo. Tratava-se de sutis interferências, que foram inseridas ao longo dos anos com um único e claro propósito: difundir a ideologia nazista e disseminar o anti-semitismo na Alemanha. Se a linguagem é um jogo, se a arte é um jogo, se cada palavra é um jogo, esse jogo, lingüístico, artístico, literário pode ser vital ou letal. O uso decidirá o caráter e a finalidade da palavra, divina e diabólica, ao mesmo tempo. Quantos mistérios  se incrustam na palavra, que o anagrama (re)vela! 

{bibliografia}

CAMDEN Wiliam. Remains concerning Britain (1657). MEIRELES, Cecília. Romanceiro da Inconfidência (1953). STAROBINSKI, J. Les mots sous les mots (1971).

http://wordsmith.org/anagram/anagram.cgi?anagram=anagram&t=1000

http://www.servantsofthelight.org/QBL/Books/Zohar_1.html