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Diz-se da obra de arte sem assinatura, que não traz a identificação do seu autor. Tal circunstância resulta do facto de o autor não querer revelar o seu nome ou então por não existir qualquer documentação que prove a autenticidade do texto anónimo. A partir do século XVI, muitos autores escolheram manter o anonimato, em princípio pelas mesmas razões que, a partir sobretudo do século XIX, outros tantos preferiram esconder-se por detrás de um pseudónimo. As razões podem ser diversas: insegurança de principiante que não quer ver a sua obra julgada pela crítica, insegurança pelo arrojo da obra criada, simples capricho artístico, receio de defraudar o público, autodefesa (por exemplo, em face de censura ou perseguição políticas), etc. Em 1814, Walter Scott viu-se obrigado a publicar sob anonimato os três volumes de Waverly, que inauguraria o género do romance histórico; por medo da censura, regista-se um caso famoso entre 1515 e 1517, quando Crotus Rubianus publica anonimamente as Epistolae obscurorum virorum, cartas de apoio a Reuchelin na luta contra os dominicanos de Colónia.

Todas as literaturas possuem um vasto corpus de obras anónimas. Ao tempo dos primeiros poetas gregos, toda a poesia era assumidamente anónima e assim acontece com muita literatura clássica e medieval. Muitos textos tidos por clássicos nas várias literaturas são anónimos: Batracomiomaquia (atribuída a Homero, depois a Pigrés de Halicarnasso e depois a outros autores mais recentes), As Mil e uma Noites (clássico da literatura oriental), Horto do Esposo (obra de um monge anónimo português, provavelmente do século XV), Beowulf (poema heróico inglês de c.1000), La Chanson de Roland (cantar de gesta francês do século XII), Cantar de mio Cid (poema castelhano dos séculos XII-XIII), Flor de Virtudes (tratado castelhano de 1476), etc. Todos estes exemplos pertencem a épocas em que os conceitos de direitos de autor ou de propriedade intelectual e de originalidade não têm relevância. Só a partir da era moderna, tais questões se levantam.

Das várias espécies literárias, a literatura oral e tradicional é que mais acolhe textos anónimos: sagas, baladas, fábulas, parábolas, lendas, provérbios, etc. Todas estas espécies literárias são recebidas por comunidades que, por força do seu uso familiar e quotidiano, as toma por suas, pouco importando a autoria. O que fica é a mensagem, muitas vezes alterada e adequada à especificidade de cada cultura. Aconteceu assim com os rapsódias gregas, com as sátiras romanas, com cânticos goliardos, com os fabliaux franceses, com os cantares de gesta castelhanos, com algumas cantigas galego-portuguesas.

O acervo de obras anónimas foi por vezes sistematizado: Vicente Placcius publicou em 1674 um Theatrum anonymorum et pseudonymorum; A. Barbier organizou em 1806 um Diccionario das obras anonymas e pseudonymas; Melzi publica em 1848-59 um Dizionario di opere anonime e pseudonime di scrittori italiani (três volumes); Halkett e Laing editam em 1881-88 os quatro volumes do Dictionary of the Anonymous and Pseudonymous Literature of Great Britain; Barros Arana escreveu em 1882 Apuntes para una bibliografía de obras anónimas y seudónimas; Weller, Holzmann e Bohatta trazem a público em 1901 os três tomos do Gesellschaft der Bibliophilen, Deutsche Anonymlexikon e P. Javier Uriarte, S. J. publica em 1905 um Catálogo de autores anónimos y seudónimos de la Compañia de Jesus.

{bibliografia}

Donald Aynesworth: “Autobiography and Anonymity”, French Review:
Journal of the American Association of Teachers of French
, 52
(1979); Manon Brunet: “Anonymat et pseudonymat au XIXe siècle: L’Envers
et l’endroit de pratiques institutionnelles”, Voix et Images:
Littérature Quebecoise
, 14, 2/41 (Montreal, 1989); Marc Le Bot:
“L’auteur anonyme ou l’état d’imposteur”, Hors Cadre: Le Cinema a
Travers Champs Disciplinaires,
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Nóbrega: “Ocultação e Disfarce de Autoria: Do Anonimato ao Nome
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Pitol: “Anonimato: Una reflexion”,  La Palabra y el Hombre: Revista
de la Universidad Veracruzana,
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