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Figura de argumentação que consiste na refutação de uma tese ou opinião de um interlocutor, cujos juízos são tidos por falsos. O Evangelho de S.Mateus relata o episódio da tentação de Jesus. Podemos falar de antirrese em relação à rejeição que Jesus faz dos argumentos do Diabo: “Vai-te Satanás, porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele servirás.” (S.Mateus, 4, 10). Também serve de exemplo a refutação que Innogen faz do falso testemunho de Giacomo contra Posthumus, na comédia de Shakespeare Cymbeline, King of Britain: “Away, I do condemn mine ears that have / So long attended thee. . . . “. (I, 6, 142segs.). No romance A Nau de Quixibá (1977), de Alexandre Pinheiro Torres, narra-se a história da relação sempre conflituosa, em termos ideológicos, de um pai e seu filho. Os vários diálogos entre ambos são muitas vezes construídos segundo um esquema essencialmente antirrético, o que se vê, por exemplo, quando discutem sobre a função da ilha para onde o pai se tinha desterrado (São Tomé) como “casa”: “«Tu também achas que não estás em tua casa?. . . Que esta não é a tua casa? . . . »“, pergunta o filho, “«Nunca o foi», retorquiu rápido, num tom vivo que preanunciava a polémica. «Quererás que to repita mais uma vez? Não basta andar-to a dizer desde o momento em que ontem puseste o pé nesta terra?» Aí estávamos de novo a transpor as fronteiras da controvérsia. (. . .) «Então os portugueses vieram para aqui para fazerem disto casa?»” (2ªed., Caminho, Lisboa, 1989, p.225).

 

Bibliografia:

 

M. M. Slaughter: “Sacred Kingship and Antinomianism: Antirrhesis and the Order of Things”, Peter Goodrich: “The Continuance of the Antirrhetic”, Charles Yablon (“reply”), Richard Weisberg (“reply”), Cardozo Studies in Law and Literature, 4, 2 (Nova Iorque, 1992).