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Colecção de textos (com ou sem comentário) seleccionados segundo determinados critérios e representativos de uma literatura ou do conjunto da obra de um autor. A designação (do grego anthos, flor, e lego, escolher, o que veio a dar florilégio) é sinónima de colectânea, compilação, miscelânia, florilégio, analectos, selecta e crestomatia. Até ao século XVIII, em vez da designação antologia usavam-se, para colecções literárias, termos como cancioneiro (por exempplo, o Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, 1470?-1536), flores, florilégio (Flores de poetas ilustres de España, dividida en dos libros, 1605), silva, silvas (La silva de romances de Barcelona, 1561), ou romanceiro (Romanceiro, de Almeida Garrett, 1799-1854). Nos últimos duzentos anos, a antologia ganhou um estatuto privilegiado nas práticas escolares a vários níveis: servindo o estudo didáctico de uma literatura nacional, pela recolha dos textos mais significativos dessa literatura; servindo o estudo orientado da obra de um autor, que, pela sua extensão e/ou por exigências de gestão do tempo lectivo, obriga a uma selecção de partes representativas dessa obra; servindo a divulgação de conjuntos de textos manuscritos antigos, que se encontram dispersos e/ou inéditos; servindo a divulgação de textos publicados em línguas estrangeiras menos acessíveis a um dado público; servindo o simples gosto literário de um autor que escolhe os textos mais importantes de uma época ou história literária, como na recente Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa (2000), de Eugénio de Andrade.

As antologias têm um papel didáctico importante, mas também constituem meios de institucionalização de autores e textos literários, ajudando à formação de cânones, o que pode ser atestado quer nas literaturas greco-latinas até às literaturas japonesas, persas e chinesas da Antiguidade. Embora seja de difícil justificação, tem-se tentado estabelecer uma diferença fundamental entre uma antologia e uma miscelânea, reservando esta para as colectâneas que não obedecem a princípios didácticos nem a critérios de escolha fundamentados (sobretudo no que respeita à arrumação histórica e cronológica dos textos, que na miscelânea pode ser ignorada). Parece-nos correcta a conclusão de Barbara M. Benedict, em Making the Modern Reader Cultural Mediation in Early Modern Literary Anthologies (1996): “anthologies and miscellanies constitute the same genre because they share means of material production, processes of compilation, audiences, and forms that define their cultural functions. They are compiled by individual booksellers and readers who collect printed pamphlets and assemble them into makeshift volumes; they are also compiled by booksellers and editors who collect manuscript and printed works and issue these in single volumes as printed anthologies. Both "miscellanies" and "anthologies" describe a form, shaped by readers and mediated by booksellers and editors, that works to define contemporary cultural literacy and the attitude of the reader of printed literature.” (http://pup.princeton.edu/books/benedict/introduction.html ). O formato destes livros prestava-se à fundamentação de escolhas canónicas sobre que livros deviam representar melhor uma dada literatura ou a obra de um autor singular. A partir do século XVII, quando a profissão de editor/livreiro se começa a solidificar, fica aberto o caminho para passarmos de uma tradição de divulgação/transmissão do texto manuscrito — prática corrente nas cortes e no mundo clerical — para uma divulgação/transmissão da cultura de uma civilização através de obras de acesso universal, porque guardavam informação variada, representativa de vários géneros e incluindo autores que de outra forma jamais chegariam ao público em geral, mesmo que saibamos que o número de pessoas letradas era escasso em quase todos os países europeus.

O trabalho de edição de uma antologia fica mais completo se o compilador comentar os textos que seleccionou, contextualizando-os, classificando-os por géneros ou temas específicos, ou arrumando-os cronologicamente, defendendo sempre as suas opções editoriais, o que pode fazer num prefácio, em notas ou em breves comentários antecendendo cada uma das partes da antologia.

De notar que a Internet trouxe novas possibilidades para a divulgação internacional de autores e obras de todas as nacionalidades. Por exemplo, num esforço por divulgar a poesia de inúmeros países, o site http://www.epm.net.co/VIIfestivalpoesia/html/antologias.html recolhe ligações para dezenas de antologias de poetas; em português, o Jornal de Poesia é um projecto de antologias de poetas de língua portuguesa que pode ser consultado em http://www.secrel.com.br/jpoesia/poesia.html .

Existe, contudo, um aspecto da didáctica das antologias que é desde sempre apontado como um obstáculo à boa leitura dos textos literários na sua integridade. Falamos da prática académica do estudo de obras literárias feito, de forma exclusiva, através selecções antológicas, perdendo-se de vista a obra integral. A falta de um método de estudo rigoroso conduz muitas vezes o estudante a conhecer um autor apenas pelos textos que leu numa dada antologia. Este aspecto foi percebido desde cedo, quando esta prática se introduziu no ensino de forma generalizada. Por exemplo, em 1893, George R. Humphrey lamenta-se em termos que muitos subscreveriam ainda hoje: “I have known few instances of students being made out of readers of miscellanies. This class of literature begets loose, desultory habits of reading, and the idea that the study of a given subject is the height of monotony. (…) Can a book published, as a commercial speculation only, at one penny, and containing sixty-two articles and stories, added to one hundred and thirty-five various paragraphs, be all true?” ("The Reading of the Working Classes”, Nineteenth Century 33, nº 194, April 1893, p. 693). A didáctica das antologias exige, pois, uma educação do leitor que o leve a respeitar a obra integral. Na melhor das soluções, uma antologia servirá para conduzir o leitor ao estudo da obra integral.

{bibliografia}

http://pup.princeton.edu/books/benedict/introduction.html