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Figura de retórica que consiste em designar um indivíduo por um nome comum ou pelo nome da espécie a que pertence: Eneidas é muitas vezes referido como o Troiano e a alguém que não conhece as boas maneiras chama-se Bárbaro. Ao designarem-se os grandes escritores por Homero ou os mulherengos por Casanova realiza-se o processo inverso: substitui-se um nome comum por um nome próprio. Aqui são, geralmente, utilizados nomes de personagens, que por se terem destacado em determinada área são tomadas como modelos. Esta é outra das possíveis realizações desta figura a que se dá o nome de antonomásia vossiânica.

Algumas antonomásias são espontâneas: Londres considerou erradas as determinações de Bruxelas; outras adquirem um aspecto mítico ao encarnarem uma virtude ou atributo num indivíduo: a Coragem em Churchill, a Bondade na Madre Teresa, a Abnegação em São Francisco de Assis. Esta substituição resulta, geralmente, do património pessoal ou da profissão do indivíduo em causa, que devem ser conhecidos pelo receptor de modo a que a substituição seja compreendida e provoque o efeito desejado. Nesta variante, a antonomásia assemelha-se a uma outra figura de retórica: a perífrase.

Estas substituições visam, essencialmente, embelezar o texto ou evitar a repetição. Em Os Lusíadas, Camões refere-se frequentemente a Vénus como Amor de forma a variar o contexto. Durante o período Barroco, a antonomásia, sobejamente utilizada, funcionava como exaltação do indivíduo (V. Sermões do Padre António Vieira). Esta figura de retórica poderá ainda assumir a forma de enigma dissimulador como acontece no Frei Luís de Sousa de Almeida Garrett, onde à pergunta do aio, o Romeiro responde: “- Ninguém, Telmo; ninguém se nem já tu me conheces.”

A antonomásia é muitas vezes referida como um caso particular da sinédoque a que se chama sinédoque do indivíduo. Assim, pode referir-se esta figura de retórica como uma variante da perífrase e da sinédoque, que se aplica aos nomes próprios.

{bibliografia}

Andrea Battistini: “Antonomasia e Universale Fantastico”, in Retorica e Critica Letteraria (1978); Bernard Meyer e Jean-Daniel Balayn: “Autour de L’Antonomase de Nom Prope”, Poetique, nº12/46 (1981); Bernard Meyer e Monique Dubucs: “Antonomase du Nom Comum”, Lingvisticae Investigationes, nº11/1 (1987); Nelly Flaux: “L’Antonomase du Nom Prope on la Memoire du Referent”, Langue Française, nº92 (1991); Pierre Fontanier: Les Figures du Discours (1977); Tzvedan Todorov: “Synedoques”, Communications, nº16 (1970).