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Teoria que postula a autonomia da arte, isto a noção de que a arte deve ter como único objectivo proporcionar prazer estético, alheando-se de quaisquer outros fins ou valores.

Embora se possa afirmar que a ideia da autonomia da arte radica, em última análise, na Poética de Aristóteles (uma obra em que se não contemplam propósitos didácticos para o fenómeno estético), é a partir dos finais do séc. XVIII que ela surge plenamente consciencializada.

Até então atribuira-se à arte finalidades exógenas, quer fossem de cunho hedonista (como em Pseudo-Longino) quer de carácter pedagógico e moralista (como em Platão), ou a simbiose de ambas (posição defendida por Horácio e retomada, em moldes mais complexos, por Shelley).

É no campo da filosofia que a ideia da autonomia da arte se começa a delinear na segunda metade do séc. XVIII, conduzindo a curto prazo aos posicionamentos próprios do Romantismo e, a mais longo prazo, à teoria da Arte pela Arte. Baumgarten é um dos primeiros filósofos a considerar a arte como uma esfera independente da moral e do próprio prazer, cabendo-lhe o mérito da criação do vocábulo estética em 1750. Ao publicar A Crítica do Juízo em 1790, Kant contribui também para a mesma ideia, já que acentua o carácter específico do sentimento estético que, segundo afirma e ao contrário dos outros prazeres, mostra ser desinteressado. Ainda na Alemanha, Schelling e Hegel consideram não ser necessário atribuir à arte quaisquer propósitos. Não surpreende, pois, verificar que a expressão “Arte pela Arte”, cunhada por Benjamin Constant em 1804, seja utilizada com grande frequência pelos românticos alemães.

Daí em diante, a França é o país com mais adeptos desta teoria, e é também francês o primeiro autor a usar a fórmula de um modo consciente e polémico brandindo-a como arma contra o moralismo e o utilitarismo por si apontados como verdadeiros inimigos da arte. É no prefácio do romance Mademoiselle de Maupin, escrito em 1835, que Théophile Gautier se afirma um convicto defensor da autonomia da arte, rejeitando abertamente qualquer finalidade moral ou social para a literatura. Gautier não só se recusa a identificar o Belo e o útil como, numa tomada de posição mais radical, acentua uma relação antitética entre ambos os conceitos. A influência deste autor ultrapassaria as fronteiras do seu país, alastrando-se aos Estados Unidos e condicionando as posições de Edgar Allan Poe, tal como são expostas nos ensaios de teorização literária “The Philosophy of Composition” e “The Poetic Principle” (l850). Admirado por Baudelaire e Mallarmé, Poe consegue, por sua vez, a conversão definitiva destes dois poetas franceses aos princípios da Arte pela Arte. Tais princípios acabam por se projectar também no panorama literário inglês, através de Swinburne, o poeta cujo ensaio “William Blakell, publicado em 1868, inaugura a exposição apologética desta teoria na Grã-Bretanha.

Mas embora a influencia francesa fosse determínanre, é sobretudo como recrudescimento de uma tradição romântica firmemente implantada na literatura inglesa desde os finais do século anterior que o movimento da Arte pela Arte adquire, nesse pais. o seu mais profundo significado. O poeta romântico John Keats identificara já a Verdade com a Beleza, remetendo assim para a vital supremacia do elemento estético, que Tennyson viria a reforçar acentuando o papel do poeta e da imaginação.

No percurso intermédio entre a segunda geração romântica e a primeira geração de adeptos convictos da autonomia da arte, há que mencionar um grupo de artistas contemporâneos de Swinburne, que se auto-designam “Pre-Raphaelite Brotherhood”, dedicando-se tanto à pintura como à literatura. O grupo, constituído em 1848, pretende sobretudo realçar a importância da arte, encaminhando-a segundo tendências que essencialmente se opõem a fórmulas ou regras de carácter académico. A garantia de inexistência de uma solução de continuidade do espírito romântico na arte inglesa é, em meados do séc. XIX, em grande parte da responsabilidade deste grupo, no qual se destacam as figuras de Rossetti e Burne-Jones. Quando, na década de 1860, Swinburne publica os seus poemas, é graças à implantação do espírito pré-rafaelita em algumas camadas (ainda que minoritárias) da população, que a rejeição total dos mesmos se não verifica.

A partir dessa década, falar de Arte pela Arte significa falar de esteticismo.

{bibliografia}

H. Osborne: Aesthetics and art Theory (1968); Ian Small (ed.): The Aesthetes (1979); Ravmond Bayer: História da Estética (1979); R.V. Johnson: Aestheticism (1969).