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Composição poética destinada ao canto. Esta definição elementar não diz todas as possibilidades de aplicação do conceito de canção (do latim cantione, “canto, canção; encanto, encantamento”), que pode incluir textos de índole bastante diversa.Em termos genéricos, podemos considerar a canção popular distinta da canção erudita. A primeira, que se confunde com outras designações como Lied, song, saga, modinha, etc., apresenta grandes variações, não é marcada pelo lirismo puro, e não está sujeita a um padrão definido; a segunda incluirá todas as formas literárias padronizadas ao longo dos tempos e de acordo com as regras impostas pelo gosto da época. Dentro deste tipo culto de canção, devemos distinguir três géneros: a canção provençal, a canção clássica italiana e a canção romântica. A primeira regista-se na lírica trovadoresca, sob a forma de cantiga, cansó ou chanson. A espécie mais antiga de canção que se conhece é a chanson de geste (canção de gesta), poema narrativo que celebra um feito histórico. Na sua parte do Norte, a França regista ainda um tipo feminino de canção, a chanson d’histoire ou de toile), que era executada por mulheres durante o trabalho de tecelagem. A Provença simboliza o berço da canção trovadoresca, dado que esta região se tornou, a partir do século XII, num centro difusor da actividade poética. Foi através dela que se efectuou a difusão do lirismo trovadoresco na Península Ibérica e Itália, sobretudo. A canção literária portuguesa mais antiga é a de Pai Soares de Taveira, a qual foi dedicada à Ribeirinha, a favorita de Sancho I, composta no ano de 1189. Em Itália, a canção provençal declinará a partir do século XIII. Nasce então a canzone, que teve como principais cultores Dante e Petrarca. Deste último, imitou-se por todo o lado o seu Canzionere, que serviu de modelo até ao romantismo. A canzone italiana virá a influenciar a evolução do soneto.

Na época medieval, a poesia destinava-se a ser cantada e não recitada, nomeadamente pelos trovadores e jograis que utilizavam intrumentos musicais como a viola e o alaúde a acompanhar o seu canto. Neste período, a canção era eminentemente lírica, mas também se registam composições de raiz épica, como as canções de gesta, poemas de origem francesa onde se celebravam os feitos de personagens lendárias ou históricas (como o Rei Artur). Este tipo de canções tornou-se popular e chegou por via oral até ao século XV, de que é exemplo a “Canção de Rolando”.

A canção italiana ou clássica aparece na Renascença e é cultivada em Portugal do século XVI até ao século XVIII. Esta forma poética obedecia a certas regras formais: era composta por texto e finda, ou então, introdução, texto e finda. A introdução continha um carácter de ordem geográfico no qual se descrevia ou indicava o lugar onde se encontrava o poeta. Por seu lado, a finda, que era mais curta que as restantes estrofes do texto, era o espaço onde o poeta fazia a invocação, dedicava a alguém o poema ou comentava-o. A nível da estrutura formal, a canção consta de cinco ou mais estrofes regulares (com o mesmo número de versos) e como metro obrigatório utiliza o heróico clássico, o qual alternava com o respectivo quebrado (seis sílabas). Como expoente máximo português da canção clássica, assinalamos Camões e textos como “Manda-me Amor que cante docemente” e “Junto de um seco fero e estéril monte”. A temática da canção clássica portuguesa inclui ainda o sofrimento de amor, a fugacidade da vida, a mudança, o tempo que passa irremediavelmente e outros temas afins.

Nunca se separando verdadeiramente da sua musicalidade, entre os séculos XVI e XVII, reúnem-se grandes colecções de canções, que integram composições para alaúde, madrigais, canções com vihuela, o que permitiu o desenvolvimento de um género que se tornava cada vez mais erudito. No campo musical, a Alemanha e a Áustria desempenharam papel de relevo neste género, que aí toma o nome de Lied, a partir do século XVIII, sobretudo com Mozart, Beethoven e Schubert, tendo este último contribuído para a expressão romântica da canção como forma privilegiada para a tradução de sentimentos íntimos. Em França, Fauré desenvolve a chanson como um género tão complexo como o Lied alemão.

Do ponto de vista estritamente literário, a canção romântica é um poema lírico simples e, regra geral, trata de um destino particular (por exemplo, a “Canção do Órfão”, de Guerra Junqueiro). Este tipo de canção era por diversas vezes atribuída a entidades como o Mar ou o Vento.. As musas que conferiam inspiração à canção eram o amor, a pátria e a religião. Com o advento do romantismo, a canção perde a sua rigidez inicial, tornando-se mais livre formalmente. Aproxima-se agora a canção das suas raízes populares, pondo de lado, gradualmente, regras fixas de metrificação e organização estrófica A partir de agora, o poema olha o mundo exterior e transporta-o para a canção, conservando-se a musicalidade e a melancolia que lhe era característica, como na “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias. Mais tarde, este género irá perder interesse face às inovações com o verso livre e à afirmação dos poemas de estrofes assimétricas.

Hoje, a canção é indissociável da sua realização musical. O processo de composição dá hoje preferência à pauta musical, onde só posteriormente se encaixará o texto da canção. O inverso também ocorre, sobretudo quando se compõe música para textos do cânone literário. Os diversos tipos de expressão musical ajudam a uma maior diversificação das possibilidades da canção, por exemplo, na ópera, falamos de árias (canto a solo); na música popular, falamos em cançoneta, em canção de protesto ou de intervenção, em canção pop (com muitas subespécies).

{bibliografia}

E. Segura Covarsi: La canción petrarquista en la lirica española del Siglo de Oro (1949); Paul Zumthor: Essai de poétique médiévale (1972); Pierre Le Gentil: La Poésie lyrique espagnole et portugaise à la fin du moyen Âge (1953); R. Dragonetti: La Technique poétique des trouvères dans la chanson courtoise. Contribution à l’étude de la rhétorique médiévale (1979); W. Th. Elwert: Versificazione italiana dalle origine ai giorni nostri (1973).