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Livro onde estão compiladas peças líricas, acompanhadas ou não de notações musicais, segundo um determinado critério unificador. O termo e conceito são já conhecidos na Antiguidade, no entanto, é na Idade Média que se verifica o grande desenvolvimento deste tipo de antologias. Nos diversos cancioneiros conhecidos é possível encontrar obras que se situam entre os finais dos séculos XIII e XV.

No universo galego-português, são conhecidas três antologias profanas e uma sacra. Do primeiro grupo fazem parte: o Cancioneiro da Ajuda, o mais antigo, assim denominado por se encontrar na biblioteca do Palácio da Ajuda, para onde transitou no principio do século XIX; o Cancioneiro da Vaticana, encontrado em Roma, na biblioteca do Vaticano, durante o reinado de D. João III e, finalmente, o Cancioneiro da Biblioteca Nacional, o mais completo, que anteriormente era conhecido por Cancioneiro Colocci-Brancuti por ter pertencido ao humanista italiano, Ângelo Colocci, e ter sido encontrado, no século XIX, na biblioteca do Conde Brancuti. Os dois últimos são apógrafos, ou seja, cópias posteriores de originais perdidos. O cancioneiro sacro, da autoria de Afonso X, o Sábio, é conhecido por Cantigas de Santa Maria. Nele, o seu autor transforma o amor trovadoresco em devoção à Virgem.

Os cancioneiros, embora fontes parciais já que a produção era superior, são documentos únicos e insubstituíveis que, no entanto, não deixam de colocar alguns problemas aos investigadores, nomeadamente no que respeita aos critérios de compilação. De facto, o princípio de selecção revela-se fundamental, chegando mesmo a ser normativo, já que, é este principio o responsável pela transmissão de uma cultura, de uma estética, de uma escola poética ou mesmo de uma época, como acontece com os cancioneiros provençais e galego-portugueses.

O termo cancioneiro pode ter diversas acepções: para a mais restrita, é uma colecção de textos poéticos seleccionados, organizados e ordenados pelo próprio autor que é também o responsável pelas lições do texto. Uma outra, já não tão restrita, considera que cancioneiro diz respeito, também a uma colecção individual, que, no entanto, não teve o autor como responsável pela sua organização. A terceira e mais ampla acepção fala de uma compilação de textos em verso, de vários autores, seleccionados e ordenados por um compilador.

No que respeita à ordenação dos textos, esta obedece, geralmente, a critérios cronológicos e de género, sendo os segundos mais importantes, já que há uma tentativa de agrupar os textos segundo esses mesmos géneros. Além destes, nos cancioneiros colectivos, poderá surgir um terceiro critério ligado à importância dos autores: os trovadores maiores em primeiro lugar e os trovadores menores em segundo lugar. Alguns casos há, em que o livro fecha com a produção poética do próprio compilador.

Partindo do sentido etimológico, o cancioneiro perfeito é todo aquele que tem um princípio e um fim bem marcados: o princípio por uma rubrica ou título com o nome do autor e o conteúdo do livro, e um epílogo que marca o final. Os cancioneiros colectivos não apresentam uma estrutura muito diferente dos individuais. A única diferença parece ser, nos cancioneiros provençais, a apresentação, em prosa, da vida do trovador, antes da apresentação da sua obra. Algumas composições são ainda introduzidas por uma razó, em prosa, que informa quais os factos que levaram à sua composição. Os cancioneiros galego-portugueses apresentam unicamente o nome e, algumas vezes, a origem e condição social do trovador, no entanto falam da razó, pelo menos no género satírico.

Consoante os fins para que se destinam, as características externas dos cancioneiros variam: podem ser grandes ou pequenos; decorados, ou não, com ricas miniaturas; copiados para pergaminho ou, mais tardiamente, para papel; com ou sem notações musicais. Também o número de colunas em que são escritos pode variar.

{bibliografia}

Andrée Crabé Rocha: Garcia de Resende e o Cancioneiro Geral (1979); Andrée Crabé Rocha: Aspectos do Cancioneiro Geral (1950); António José Saraiva: “Nota Sobre os Cancioneiros” in Poesia e Drama (1990); António Resende de Oliveira: Depois do Espectáculo Trovadoresco. A Estrutura dos Cancioneiros Peninsulares e as Recolhas dos Séculos XIII e XIV (1992); Claudine Potvin: Illusion et Pouvoir- La Poétique du Cancionero de Baena (1989); G. Lanciani e G. Tavani: Dicionário da Literatura Medieval Portuguesa (1993); Giuseppe Tavani: A Poesia Lírica Galego-Potuguesa (1990); Magrit Frenk Alatorre: Cancionero de Romances Viejos (1972); Manuel Rodrigues Lapa: Lições de Literatura Portuguesa- Época Medieval (1977).