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Denominação italiana do verbo cantare (cantar) que designa um pequeno poema em verso curto, normalmente tetrassílabo, para ser cantado com acompanhamento musical. Surgiu pela primeira vez em Itália com o compositor Alessandro Grandi, Cantade et arie a voce sola (1620-29), como forma de oposição à sonata, composição inteiramente instrumental.

Nasce no séc. XVII em torno dos círculos literários florentinos que preconizavam uma certa reforma em termos musicais com o intuito de cultivar um canto em uníssono aliado à poesia. Os textos da cantata provinham das mesmas fontes que os textos de outras formas polífonas: Petrarca, Tasso, Pietro Bembo, Guarini, etc.. Evoluiu paralelamente à ópera, mantendo as mesmas tendências dramáticas, pelo que é com ela aparentada.

Ao longo do séc. XVII ganhou preponderância não só em Itália (escolas napolitana e veneziana) com Alessandro Scarlatti, Pergolesi, Lotti, Caldada e Bento Ferrari, como também em França com Campra, Clérambault, Rameau e outros. Assim como na ópera preferiam-se os temas mitológicos antigos e os feitos heróicos (Orfeu, Medeia, Dido) ou ainda os idílicos temas pastoris (Zéfiro e Flora, Dafne). Contudo, na Alemanha, a cantata sofreria uma grande influência religiosa, assumindo mesmo um certo papel didáctico-moralizador, como o exemplifica títulos como: Von der Zufriedenheit (“Sobre o Contentamento”), Hoffnung (“Esperança”) e Geiz (“Avareza”). Tal como Gottsched o afirmava em 1730 no seu Versuch einer critischen Dichtung, a cantata deveria exprimir com paixão pensamentos elevados. Porém, na década de 1760, também começariam a surgir na Alemanha as cantatas de temática mitológica, como por exemplo Ariadne auf Naxos (1767) de Gerstenberg. A composição desligar-se-ia, então, de esquemas demasiado rígidos para se ajustar mais livremente à construção poética dramática. Para a posteridade ficariam inesquecíveis e indeléveis as cantatas de Bach subordinadas à temática dos Evangelhos.

Em Portugal, a cantata teve muitos cultores que a costumavam dividir em duas partes: a parte recitativa ou exposição e a ária ou fecho. Na primeira parte o metro utilizado era o ondecassílabo só ou acompanhado pelo heróico quebrado. Na segunda parte usava-se a redondilha menor seguida de estâncias regulares na rima e no número de versos. Os temas mitológicos contavam também de grande popularidade, sendo a Cantata de Dido (inspirada no livro IV da Eneida) de Correia Garção a mais famosa entre nós. Todavia, não se podem menosprezar também as cantatas de Bocage: Medeia, Inês de Castro, Leandro e Hero, Cantata à Puríssima Conceição de Nossa Senhora e Cantata à Sereníssima Princesa Dona Maria Tereza.

{bibliografia}

G. B. Bassani: Cantate a una voce (1919); Luca Marenzio:Ten Madrigals (1966); M. Lange: Die Anfänge der Kantate (1938); W. Konold: Weltliche Kantate im 20. Jahrhundert (1975).