Select Page

(Do gr. katakhresis ‘mau uso’ + lat. catachresis) – Termo que identifica a figura de linguagem pela qual, na falta de palavra específica que designe determinada idéia, a esta se aplica, por analogia, um vocábulo em sentido figurado. Exs.: embarcar num trem, o leito de um rio, a cabeça de um alfinete, a barriga da perna, uma folha de papel, um monte de dinheiro, etc. Tal expansão semântica do vocábulo catacrético é de tal forma assimilada pelos falantes que, quase sempre, se perde a noção rigorosa desse ‘mau uso’ (como quando se diz “chumbar o quadro na parede” querendo-se dizer “prender fortemente o quadro na parede – ainda que sem chumbo”; “enterrar o chapéu na cabeça”; “azulejos de todas as cores”). Inúmeros são os exemplos em que a alteração semântica conduziu historicamente a uma inversão no relacionamento entre os sentidos literal e figurado. A palavra asa (lat. ansa ‘asa de vaso’), que se referia a princípio aos “pegadores dos objetos”, passou a significar, por catacrese, os membros emplumados das aves, antes chamados alas (cf. port. alados e esp. alas). De tal forma se sancionou este emprego, que a expressão catacrética, hoje, parece ser asa de um vaso, em vez de asa de um pássaro. Embora etimologicamente caracterize emprego abusivo (em Retórica é sinônimo de abusão), essa figura de linguagem é, na verdade, um tipo especial de metáfora, restrito a esse caráter de suplência, ou seja, de ocupação de um espaço vazio no sistema lingüístico. Assim, não são rigorosamente modelos de catacrese os casos em que se pode substituir o termo figurado por uma palavra literal ou os casos em que, por metáfora, se sugestiona emocionalmente um sentido ou, ainda, os casos em que ocorrem neologismos, mesmo os de base metafórica. Exs.: “rir-se nas suas barbas” (= na sua presença) [cf. F.L. Carreter, DTF], onde inclusive não há o princípio de similaridade exigido, mas o de contigüidade, que caracteriza a metonímia; “blind mouths” – de Milton, em “Lycidas” (= bocas caladas) [cf. J.T. Shipley, DWLT]; “vogais sem esqueleto” – de Jorge de Lima, em “Orfeu” (= sem consoantes) e “faz da tu’alma lâmpada de cego” – de Cruz e Sousa, em “Supremo Verbo” [cf. J.M. Camara, DLG]; “balkanização” [cf. H. Bussmann, RDLL]. A não ser na hipótese de se tomar à risca a etimologia do termo, não há como vincular a catacrese a casos de pleonasmos viciosos oriundos de desconhecimento dos constituintes da palavra (“bela caligrafia”: cf. Z.S. Jota, DL) ou a situações de ‘malapropismo’ (fr. mal à propos ‘fora de propósito’), em que uma palavra é empregada equivocadamente em lugar de outra que “soa parecido” (“Illiterate him” por “obliterate him”: cf. D. Crystal: EDLL). Quintiliano (Institutio Oratoriae) refere-se à catacrese como “um mau uso necessário, cuja propriedade não é inerente à palavra, mas à significação; apreciar-lhe o valor não depende dos ouvidos, mas da inteligência”. Por isso, dela se pode tirar proveito estilístico inesperado: “O meu quarto de dormir a cavaleiro da entrada da barra.” (M. Bandeira, “Comentário Musical”); “Mas, depois que de todo se fartou, / O que tem no mar a si recolhe” (Camões, Lusíadas, V, 22).

{bibliografia}

Hadumod Bussmann: Routledge Dictionary of Language and Linguistics (1996); F. Lázaro Carreter: Dicionário de Términos Filológicos (1974); David Crystal: An Encyclopedic Dictionary of Language and Languages (1992); Zélio dos Santos Jota: Dicionário de Lingüística (1976); Joseph T. Shipley (ed.): Dictionary of World Literary Terms (1970); Hênio Tavares: Teoria Literária (1974).