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Uma das unidades funcionais que Roland Barthes distingue na diegese e que se refere aos dados acessórios que não contribuem para o avanço da acção : “des notations subsidiaires, qui s’agglomèrent autour d’un noyau ou d’un autre sans en modifier la nature alternative” (“Introduction à analyse structurale des récits”, Communications, nº 8, 1966, p. 9). Seja, por exemplo, o seguinte excerto: “Baltazar e Simão seguiam calados, olhando em volta, vendo quem vinha.” (Maria Velho da Costa, Missa in Albis, 1988). A aplicação do modelo estrutural a este texto determinaria que as duas orações gerundivas fossem classificadas como catálises, uma vez que não contribuem para o avanço da acção. Dentro da sintaxe da diegese, uma catálise só ocorre em relação com o seu núcleo ou função cardeal. Por outras palavras, uma catálise não pode ser compreendida fora da totalidade das acções que constituem a narrativa.

Este instrumento operatório, que se utiliza na análise estrutural da narrativa, faz parte de um tipo de função aí identificado a que Barthes chama função distribucional (de funcionalidade linear), distinta da função integrativa (de funcionalidade ascendente, como os indícios e os informantes).

Tal como as restantes unidades estruturais, este tipo de operacionalidade é limitado, pois não é possível identificar em todo o texto literário aquilo que é acção (=função cardeal) e aquilo que é pausa (=catálise). Uma vez ultrapassado o âmbito circunscrito da análise estrutural da narrativa, onde estas operações decorrem, será sempre possível contrariar as decisões classificatórias das acções de uma narrativa, por causa da ambiguidade e da plurissignificação próprias do texto literário. Por exemplo, na frase transcrita acima, pode-se argumentar que as unidades “olhando em volta” e “vendo quem vinha” são fundamentais (portanto, são núcleos e não catálises) para a história narrada, se se provar que tais acções comportam consequências para o seu desenrolar. Este modelo estruturalista terá dificuldades em se aplicar, por exemplo, a todos os anti-romances (anti-literatura) que procurem disseminar ou simular ou mesmo apagar a intriga.