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Expressão inglesa para um tipo de romance ou drama que tem por tema central uma intriga policial ou de espionagem. Podemos testemunhar o género nos romances de Anthony Hope, Edgar Wallace, John Buchan, Ian Fleming e Helen MacInnes, repletos de intrigas complexas, simulações, actos de sabotagem, actividades ilegais, etc. que definem o género. Este está próximo dos melodramas vitorianos protagonizados por vilãos-espiões, que são hábeis da arte da transformação. Regra geral, usam capas (cloaks), punhais (daggers), e não raro recorrem a venenos e explosivos na sua actividade clandestina. A designação deste género dissimula, sob uma capa metafórica, dois motivos de importância fundamental que integram os mecanismos ideológicos envolvidos na representação do masculino numa literatura dita ‘popular’.

É, por um lado, a questão de afirmação do poder, materializado no recurso à arma (‘dagger’). Seja sob a forma de instrumento físico (o explosivo, a arma branca ou de fogo) ou psicológico (a chantagem, a ameaça ou a coerção), ela simboliza não só a natureza agonística da narrativa, como também a necessidade de as personagens masculinas se afirmarem no meio social envolvente por via de uma força que assume invariavelmente contornos negativos. Como declarará um anarquista em The Man Who Was Thursday: A Nightmare (1908), de G. K. Chesterton, “nós somos inimigos da sociedade, e tanto pior para ela.” Mas já Joseph Conrad compreendera que tal atitude subversiva era apenas o reverso da medalha. Aos impulsos destrutivos da organizações subterrâneas contrapõe-se a força repressiva da sociedade, ela própria munida dos seus aparelhos de auto-defesa. Em O Agente Secreto, uma personagem denuncia os termos de um contrato que tem por objecto o extermínio da parte contrária: “Tanto o terrorista como o polícia saíram do mesmo cesto. Revolução, legalidade contra-ofensivas num mesmo jogo; formas de ociosidade no fundo idênticas.”

Por outro lado, a referência à capa remete-nos para o tema da máscara, sob o qual se aflora, ainda que por vezes apenas tangencialmente, a questão filosófica do ser e do parecer. De facto, as personagens que mais directamente influem no desenrolar da acção, o herói e o vilão, padecem de inconstância na definição das suas identidades, ora dissimulando-as, ora apagando-as, através de um complexo jogo de aparências, fingimentos, mentiras e ilusões. Richard Hannay, herói que sobrevive a várias aventuras de John Buchan, admite que o segredo do disfarce reside sobretudo na componente psicológica, isto é, em assimilar os traços da diferença e pensar-se a si próprio como o outro. As consequências de subtracção da própria personalidade ajudam-nos a redimensionar o humano: está-se, afinal, perante situações em que o indivíduo se metamorfoseia de tal sorte que chega a assumir uma existência outra, não apenas perante as restantes personagens, mas também perante si mesmoo que, de certo modo, corresponde à visão nietzscheana do Ser, em que nada é definitivo ou fixo. No caso de duas das narrativas paradigmáticas deste género, que são The Prisioner of Zenda e a sua sequela Rupert of Hentzau, ambas da autoria de Anthony Hope, o herói, Rudolph Rassendyll, é obrigado, por imperativos morais, a assumir as funções de rei da Ruritânia, enquanto o verdadeiro monarca se encontra assediado por inimigos que o impedem de tomar conta dos destinos da pequena nação. Após vicissitudes várias, este é assassinado e aquele que até então era seu duplo consubstancia-se no seu corpo e espírito, com a diferença de a personalidade de Rassendyll em muito transcender as limitações, as fobias e a incompetência política do legítimo rei.

{bibliografia}

Jane Freebury: “Black Robe: Ideological Cloak and Dagger?”, Australian-Canadian Studies, 10:1 (1992); Leo Heiman: “Cloak and Dagger Literature Behind the Iron Curtain”, East-Europe (Nova Iorque), 14:1 (1965); Myron J. Smith, Jr.: Cloak-and-Dagger Bibliography: An Annotated Guide to Spy Fiction (1937-1975) (1976).