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Expressão utilizada para designar o género dramático mais característico do período que se seguiu à Restauração da monarquia inglesa em 1660, estendendo-se até finais do séc.XVII e princípios do séc.XVIII, altura em que deu lugar a um novo tipo de comédia, a comédia sentimental.

Após a reabertura dos teatros em 1660, encerrados em 1642 por um acto do Parlamento, Carlos II concedeu autorizações a Thomas Killigrew e Sir William Davenant para organizarem grupos de actores, formando companhias que usufruíam de um monopólio teatral: a King’s Company, sob protecção do próprio monarca, e a Duke’s Company, sob a protecção do irmão do rei, o Duque de York. Depois de um interregno que durou mais de uma década, a actividade teatral intensificou-se em reacção contra a excessiva sobriedade e rigores puritanos e sob a protecção do novo monarca, frequentador assíduo destes espectáculos. Carlos II trouxera do exílio o gosto e o interesse por um novo tipo de comédia, propiciando a multiplicação de peças licenciosamente divertidas e espirituosas, que conjugavam influências francesas com alguns traços da comédia isabelina. Em geral, escrito em prosa e com a participação de actrizes para os papéis femininos, este tipo de teatro era dirigido às classes mais elevadas, reflectindo hábitos e pretensões sociais associados à sociedade mundana, frívola e licenciosa dos círculos mais próximos da corte.

Também designada por comédia de costumes, a comédia da Restauração caracteriza-se por proporcionar uma análise dos comportamentos humanos e dos costumes num determinado contexto social: ao contrário do drama heróico, também em voga no período pós-Restauração, estas comédias tratam frequentemente de amores ilícitos, da violação de certas normas de conduta, ou de qualquer outro assunto escandaloso, sempre subordinados a uma atmosfera cómica; a intriga desenvolve-se a partir dos códigos sociais existentes, ou da sua ausência, na sociedade da época; as principais preocupações das personagens são a vida amorosa (possibilitando, assim, o tratamento de temas como casamento, divórcio, relações menos lícitas, sexo), o dinheiro e o desejo de ascensão social; os protagonistas são, na sua grande maioria, indivíduos mundanos e libertinos (“rakes”), desprovidos de qualquer idealismo, movimentando-se num cenário local, muitas vezes Londres, e não num espaço longínquo ou num passado remoto; as figuras femininas apresentam uma timidez hipócrita que mascara uma ansiosa e pragmática demanda do sexo oposto; outras personagens que se movimentam à volta do herói representam tipos familiares (como o pai velho encolerizado, ou o criado esperto) e o humor inerente a este tipo de caracterização é muitas vezes acentuado pela utilização de nomes que reduzem a personalidade a um ou dois traços distintivos (“Sir Fopling Flutter”, “Lady Flippant”); o tom é predominantemente satírico, espirituoso, cómico, oscilando entre o diálogo vivo e cheio de ironia e a linguagem obscena conivente com a amoralidade dos costumes.

De entre os vários dramaturgos responsáveis pela intensa produção e representação de tão variadas comédias de costumes após a Restauração destacam-se William Congreve, William Wycherley, George Etheredge, John Vanbrugh e George Farquhar.

{bibliografia}

Allardyce Niccol, British Drama (6ª ed., 1978); David L. Hirst, Comedy of Manners (1979); John Harold Wilson, The Court Wits of the Restoration (1948).