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1. Para os New Critics e para a escola crítica de F. R. Leavis, a concretização consiste no poder (ou na arte, engenho, génio, etc.) que os escritores têm para transformar uma simples experiência, uma simples observação numa obra de arte literária, cuja recepção implica de certa forma o envolvimento emocional do leitor. A concretização é apenas outro nome para a catarsis da tragédia clássica: o leitor fica absorvido pelas imagens criadas no texto literário de tal forma que se extasia perante a sua verosimilhança.

2. Em A Obra de Arte Literária (1931), Roman Ingarden contribui para a divulgação do conceito, que se tornou popular sobretudo a partir da tradução inglesa (The Literary Work of Art, 1973). A questão inicial de Ingarden é: Qual o ser da obra de arte literária e/ou das objectividades que nela se manifestam? Ingarden parte do pressuposto de que a concretização de uma obra literária se constitui no acto de leitura, que permite assim o aparecimento da obra. Os termos em que Ingarden fala da concretização como acto dependente da apreensão que o leitor faz da obra de arte literária são semelhantes às teses dos New Critics: “(…) São despertadas no leitor múltiplas vivências do prazer estético em que despontam avaliações estéticas que eventualmente também atingem um desenvolvimento explícito. Finalmente, fazem-se sentir na alma do leitor (ou do espectador) sob o efeito da leitura múltiplos sentimentos e afectos que, é certo, já não pertencem ao grupo das vivências em que a obra literária é apreendida in concreto mas não deixam de ter influência na sua apreensão.” (2ª ed., Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1979, p.365). De alguma forma, este conceito de concretização, fortemente apoiado na competência do leitor para a descodificação da obra de arte que por si só nada significaria, segue o rumo do conceito nuclear de actualização na teoria do formalismo russo. Ingarden lista então as formas de concretização da obra literária: 1) “os fonemas significativos como típicas qualidades de forma”; 2) “as significações das palavras e os conteúdos de sentido das frases”; 3) os sentidos das frases “intencionados””; 4) o “estrato dos aspectos”; 5) o “aparecimento real e explícito das objectivdades apresentadas”; 6) a constituição dos “objectos apresentados” em obras literárias; 7) “a ordenação especial da sequência das partes numa obra literária” como “sequência autêntica no tempo fenomenal e concreto”. No essencial, para responder à questão ontológica, como observa Maria Manuela Saraiva, no prefácio à edição portuguesa, “a solução de Ingarden consiste em recusar a alternativa entre ser real e ser ideal para introduzir uma terceira modalidade de ser: o puramente intencional, que caracteriza, entre outros, o ser da obra literária. Puramente intencional porque ontologicamente o ser da obra de arte não é autónomo mas dependente da consciência que o cria.” (ibid., p.xvii). Tal como em outros sistemas fenomenológicos, nunca se confunde obra com autor. O acto de ler é uma concretização da consciência do autor, competindo ao leitor apreender essa intencionalidade. A obra é considerada em si mesma como entidade autónoma e, neste sentido, fechada. Ora, hoje parece prevalecer uma outra acepção, a partir do conceito de obra aberta, que nos remete para o trabalho do leitor e não para o modo de ser da obra.

O estruturalismo checo adoptou e desenvolveu esta teoria de Ingarden. Felix Vodicka, em “The History of the Echo of Literary Works” (in A Prague School Reader on Esthetics, Literary Structure, and Style, ed. por Paul Garvin, Georgetown University Press, Washington, DC, 1964), acrescenta que a concretização crítica é também fundamental para a concretização da obra literária em si, ou seja, é importante atendermos à recepção crítica que a obra teve num dado período da sua génese. Este facto aponta também para a multiplicidade de avaliações a que a obra literária está sujeita, pelo que a sua concretização (diríamos também, o seu sentido) está em constante reavaliação. O grau de indeterminação que Ingarden verifica ser indissociável da obra literária está na origem das teorias da estética da recepção (de Wolfgang Iser, por exemplo) sobre a criatividade e a soberania do leitor.

{bibliografia}

Bruce Kochis: “Some Linguistic Aspects
of Concretization of a Literary Text”,
in Robert S. Haller (ed.): Papers
from the 1979 Mid-America Linguistics
Conference
, University of Nebraska
(1980); Daniele Chatelain: “Récit
iteratif et concretisation”, Romanic
Review
, 72, 3 (1981); John Fizer:
“Epoxh, Artistic Analysis, Aesthetic
Concretization: Reflection upon Roman
Ingarden’s Reflections”, in John Odmark
(ed.): Language, Literature, &
Meaning,
I: Problems of Literary
Theory
(1979); Michael Glowinski:
“On Concretization”, in John Odmark
(ed.): Language, Literature, &
Meaning,
I: Problems of Literary
Theory
(1979); Wolfgang Iser: Der
Akt des Lesens
(1976).