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Personagem que serve de guia espiritual, conselheiro, ou adjuvante particular do protagonista, geralmente numa obra teatral. No teatro antigo, o coro desempenhava por vezes este papel. Um(a) aio(a), um(a) criado(a), um(a) amigo(a) íntimo(a), etc. desempenham em regra esta função. Assim acontece, por exemplo, com Horácio como confidente de Hamlet, na tragédia de Shakespeare, uma Mãe como confidente da protagonista de Farsa de Inês Pereira, de Gil Vicente, João da Ega em relação a Carlos da Maia, em Os Maias, de Eça de Queirós, Dr. Watson, em relação a Sherlock Holmes, nas histórias de Arthur Conan Doyle, Maria Gostrey em relação a Strether, no romance de Henry James The Ambassadors. O confidente concorre com (e pode mesmo superar) a eficácia de certas estratégias discursivas como os apartes, os monólogos interiores ou os solilóquios, para conseguir revelar os segredos, os receios mais profundos, os pensamentos mais reservados de uma personagem principal. A parte do enredo que é confessada ao confidente — que é acima de tudo um ouvinte, um receptor de informação de carácter privado, um espelho do mundo íntimo do protagonista confesso — pode ter repercussões no desenvolvimento da história que está a ser contada. Serve de exemplo típico da relação estabelecida entre confesso e confidente o seguinte diálogo inicial da Farsa de Inês Pereira, que antecipa as aventuras maritais da protagonista Inês Pereira:

INÊS: Praza a Deus que algum quebranto

me tire de cativeiro.

MÃE: Toda tu estás aquela

choram-te os filhos por pão?

INÊS: Prouvesse a Deus que já é rezão

de eu não estar tão singela.

MÃE: Olhade ali o mau pesar!

Como queres tu casar

com fama de preguiçosa?

INÊS: Mas eu, mãe, sou aguçosa

e vós daí-vos de vagar.

MÃE: Ora espera assi, vejamos,

INÊS: Quem já visse esse prazer!

MÃE: Cal’te, que poderá ser,

que ante a Páscoa vem os Ramos.

Não te apresses tu, Inês,

maior é o ano que o mês;

quando te não precatares,

virão maridos a pares

e filhos de três em três.

{bibliografia}

Gerd Schrammen: “Zur Funktion des Confident bei Racine”, Germanisch Romanische Monatsschrift, 20 (1970); Valerie Worth Stylianou: “La Querelle du confident et la structure dramaturgique des premières pièces de Racine”, Litteratures Classiques, 16 (1992).