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O sintagma “correspondência das artes” remete ao intertexto que as artes travam entre si, mesmo se cada arte estrutura uma linguagem peculiar, que expressa, no entanto, o mesmo ser humano, que a produz e a recebe. Unidas por um traço comum, enquanto linguagem humana, as artes definem-se, na clave do crítico italiano Luigi Pareyson, por três verbos-chave: “a arte como fazer, como conhecer e como exprimir”. Entendida numa definição abrangedora, a arte torna-se corpus da reflexão estética, mesmo se cada linguagem artística abrange questões específicas. Dessa forma, a teoria da arte, aplicada sobre determinada arte, repercutirá no âmbito de outras artes. A iteratividade entre as artes encontra no poemaCorrespondances”, de Baudelaire, o paradigma, de onde derivam, igualmente, o poema sobre as vogais, de Rimbaud, e a descrição do órgão dos licores, efetuada por des Esseintes, protagonista do romance À rebours, do francês decadentista Joris-Karl Huysmans. Remonta à noite dos tempos, a utopia de uma arte total, aquela que englobasse todas as artes-irmãs: o Romantismo de Wagner e o Barroco erigiram a ópera como a arte suprema, eleição confirmada, desde o começo do século XIX, quando a música recebe o cetro de arte-rainha.

Aqui, insere-se, ainda, a questão da hierarquia das artes: qual seria a mais perfeita das artes? Mais uma vez, à música é conferida por Schopenhauer o primado, porque ela “nunca exprime o fenômeno, mas a essência íntima, o interior do fenômeno, a própria vontade”. Também Nietzsche, Wackenroder, E.T.A Hoffmann, Edgar Allan Poe, Walter Horatio Pater, Eugène Delacroix, entre outros, consideram a música como a arte suprema. Norbert Lynton parafraseia o antiqüíssimo adágio, cunhado por Horácio – “ut pictura, poesis”- (“como a pintura, assim é a poesia”), quando enuncia: “ut musica, pictura” (“como a música, assim é a pintura”). Já para Théophile Gautier, bem como para Da Vinci, a pintura constitui-se a fonte mais profunda da experiência artística. Segundo Eisenstein, ao cinema cabe o trono na realeza das artes, ao passo que para Johan Joachin Winckelman a escultura resume todo o gênio da humanidade. De acordo com Gotthold Ephraïm Lessing, a literatura ocupa o primeiríssimo lugar na escala dos valores artísticos.

Além da questão da hierarquia das artes, emerge, de igual modo, o problema da busca da pureza por parte de cada arte, pureza almejada em duas instâncias: de um lado, há o desiderato da pureza com relação às outras manifestações artísticas, e, de outro lado, o afã da pureza a respeito das demais atividades humanas, o que se define como arte pela arte (l’art pour l’art, art for art’s sake, ars gratia artis) ou esteticismo. Por seu turno, a procura da pureza por parte de cada arte, que se quer autônoma, absoluta, autárquica, implica a libertação, ao máximo, da interferência das outras artes; porque não existe, ou não deveria existir, entre as artes, qualquer meio de transição, cada arte revela-se pura por si, mantendo, cada uma, o máximo da sua própria essência, o que impossibilitaria, contrariamente à utopia romântica, a realização da arte total. Tornando-se absoluta, a arquitetura, por exemplo, deixaria de ser elemento de ordenação de outras artes, não concedendo, portanto, e.g., lugar algum nem à escultura nem à pintura.

Descartada a classificação de artes “menores” e artes “maiores”, considerada ou não a hierarquia entre as artes, que depende, precisamente, do gosto individual e, até certo ponto, da apetência coletiva, toma-se como postulado, no tópico da correspondência das artes, que as linguagens da arte, mesmo possuindo meios próprios de expressão, marcam-se por traços comuns, que articulam a complexa questão da interferência entre as diversas formas artísticas. Tratar, pois, a consangüinidade das artes significa problematizar alguns aspectos estéticos que, se não encontram uma solução definitiva, ilustram, entretanto, o intricado discurso das artes.

Embora circunscrevendo o campo específico de cada arte, o próprio meio de expressão pode conduzir a correspondência entre as artes, mediante, inclusive, a sinestesia que, operando uma alquimia de percepções, desloca o sentido privilegiado por determinada linguagem artística. Na transação das percepções, as artes absorvem ou assimilam, de certa maneira, elementos da linguagem peculiar de cada uma. Paradigmal, o soneto Voyelles, de Arthur Rimbaud, onde as letras suscitam imagens cromáticas, revela o mito de uma mistura. Onde teria o genial poeta de Les illuminations ido buscar a cor de cada vogal? No livro em que aprendeu a ler, ironizou alguém, que se recusava à iluminação do poema, enamorado do espectro solar e de desvairadas paletas…

O recurso sinestésico, que pode dar o tom das correspondências entre as artes, há de situar-se, precisamente, na instância metafórica, ao invés de operar uma contaminação entre as diversas linguagens artísticas, que defenderiam, em prol da utópica pureza de cada arte, uma autonomia do meio específico de expressão. Destarte, a sinestesia ultrapassa a retórica da analogia, enriquecendo a experiência estética. Quando, por exemplo, nesta linha de reflexão, Friedrich Smetana denomina “Poema sinfônico” uma de suas belas composições musicais, estará falando metaforicamente, assim como, transferido para a teoria literária, o sintagma leitmotiv, tirado do código musical, configura-se como verdadeiro tropo. No elenco de recursos sinestésicos, ou metafóricos, citem-se, ainda: azul em ré sustenido, afinação entre as artes, concerto das artes, sintonia das artes, ensaio de pinceladas, ensaio fotográfico, arquitetura do texto, quadros rítmicos, leitura do quadro, cenas do cinema… Para o célebre crítico de arte alemão Arnold Hauser, a pintura vitoriana é “pintura ‘literária’ por excelência, uma arte híbrida (…)”. Dialogando com os críticos literários norte-americanos René Wellek e Austin Warren, o crítico de artes italiano Mario Praz tece considerações assaz pertinentes para a correspondência das artes: “(…) Pode-se sustentar que há uma parecença geral entre todas as obras de arte de uma época, que imitações posteriores confirmam denunciando elementos heterogêneos: que há uma unidade latente ou manifesta nas produções do mesmo artista, qualquer que seja o campo onde experimenta a mão; e que as tradições exercem influência diferenciadora não só entre uma e outra arte, mas também dentro da mesma arte, pelo que nada existe na alegação de Wellek e Warren (…) capaz de desencorajar-nos da busca de um vínculo comum entre as diversas artes”.

{bibliografia}

Luigi Pareyson, Os problemas da estética, 23, 30 (1984); Charles Baudelaire, Oeuvres complêtes, 8 (1980); Joris-Karl Huysmans, À rebours (1884); Arthur Schopenhauer, O mundo como vontade e representação, 345 (s.d.); Horácio, Arte poética (s.d.); Nikos Stangos, Conceitos da arte moderna, 24 (1991); Latuf Isaias Mucci, A poética do esteticismo (1994); Arthur Rimbaud, Oeuvres poétiques complètes, 50 (1980); Mario Praz, Literatura e artes visuais, 54-55 (1982).