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Disciplina filológica que emerge dos problemas de publicação de textos, manuscritos ou impressos, antigos ou modernos. Estabelecido o pressuposto de que é o autor quem dá autenticidade ao texto, e de que é esse texto autêntico que merece ser editado, a crítica textual tem desenvolvido, desde o século XIX, técnicas de reconhecimento dos sinais de "autorização" em duas grandes ordens de casos: o do original perdido (crítica textual tradicional) e o do original conhecido (crítica textual moderna). A crítica textual tradicional, tal como a lançou Karl Lachmann no século XIX (1850), começava por seguir um método de recensão de todos os testemunhos da tradição de um texto (recensio), coligidos depois nas suas variantes em ordem à respectiva hierarquização genealógica num stemma codicum; a encimá-lo, estaria um ascendente teórico, muito próximo do original: o arquétipo. Para a reconstrução desse arquétipo, o método de Lachmann propunha a avaliação, selecção e emenda das variantes conforme as tendências maioritárias da tradição (emendatio). Para chegar ao original (constitutio textus), seria finalmente necessário deduzir esse texto mítico do estilo do autor (usus scribendi) e intuí-lo segundo o raciocínio do editor (iudicium). Como as edições que seguissem esta metodologia chegariam a um texto contaminado por diversas versões, híbrido na sua estrutura, surgiu, já no século XX, uma proposta alternativa feita por Joseph Bédier (1928) em que a base da edição seria um só testemunho, o «bom manuscrit» (manuscrito que o stemma revelava ser mais próximo do arquétipo), a ser emendado apenas nos seus erros evidentes. Posteriormente, em Itália e nos anos 30, surgiu a nova filologia, impulsionada por Giorgio Pasquali, que considerava a tradição do texto excessivamente desprezada pelos métodos anteriores e pretendeu trabalhá-la na reconstituição do contexto cultural de sobrevivência do texto. Um outro desenvolvimento deu-se em ambiente anglo-saxónico, cujos filólogos estiveram sempre mais vocacionados para os problemas postos pelas tradições impressas e pela questionável autoridade da primeira edição (a editio princeps). Hoje, sobrevivem ensinamentos de todas estas propostas metodológicas, especialmente as da escola italiana, a qual acabou por se orientar pragmaticamente para a especificidade de cada diferente tradição, esbatendo-se a busca obsessiva do arquétipo e do seu original.

À crítica textual moderna já se apresentam decisões diferentes, como a de eleger, entre os autógrafos conservados, qual a versão a editar, ou a de saber dar, na edição crítica, a imagem de um bem documentado trabalho de elaboração autoral do texto.

{bibliografia}

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